Os profissionais da bola: jovens driblam desafios para enfrentar mundo do futebol

Por Equipe Periscópio

“Veloz, driblador e artilheiro”, é assim que se define o atacante Vitor Ribeiro, 21, do Caucaia Esporte Clube. Tais credenciais chamaram a atenção do Fortaleza Esporte Clube quando ele tinha 14 anos. Inicialmente, o jogador passou a integrar a escolinha de futebol do “Leão” e não demorou muito para alcançar o primeiro avanço rumo à carreira profissional. Após boas atuações na escolinha, foi integrado ao time de base do Tricolor, permanecendo por lá até 2018.

Vitor Ribeiro. Foto: Pedro Chaves.

A passagem pelo “Leão do Pici” foi marcada por conquistas. Em quatro anos (2014 a 2018), Vitor conquistou dois títulos do Campeonato Cearense – um pelo sub-15 e outro pelo sub-20 -, além de uma disputa da Copa do Nordeste sub-20. A temporada  do jovem atleta na equipe também ficou marcada por um momento que ele define como “o capítulo mais triste da sua trajetória”.

No ano de 2018, com 19 anos na época, Vitor começou a ficar de fora de alguns jogos por conta de problemas na garganta. Preocupado com a situação, o atleta consultou os médicos do clube, entretanto, nenhum diagnóstico foi obtido pelos profissionais. Com esse cenário de incerteza, resolveu fazer uma consulta com um especialista, quando exames indicaram que as amígdalas estavam cheias de pó de ferro.

Com o diagnóstico, o atleta fez um procedimento cirúrgico para retirar as amígdalas, o que levou a passar meses buscando aprimorar sua forma física. Posteriormente, foi descoberto que uma fábrica, localizada ao lado do Centro de Treinamento Ribamar Bezerra, onde as categorias de base do clube treinam, transmitia gases poluentes que chegavam aos campos do Fortaleza. Tal fato levou à saída do atacante, mesmo contra a vontade dos dirigentes, como ele explica.

“Devido à fábrica, ficou inviável permanecer no Fortaleza, pois o local afirmou que seria impossível não emitir gases poluentes. Os dirigentes não queriam minha saída, até o presidente (Marcelo Paz) conversou comigo e meu pai pedindo minha permanência. Infelizmente, tive que sair por uma questão de saúde. Esse episódio não me fez ter nenhuma mágoa do clube, muito pelo contrário, tenho um carinho enorme, pois é meu clube de infância”, revela Vitor.

“Ficou inviável permanecer no Fortaleza. Infelizmente, tive que sair por uma questão de saúde” – Vitor Ribeiro

Após a saída do Leão, o jogador passou uma temporada atuando pelo Ferroviário, no ano de 2019. No “Ferrim”, não chegou a jogar nenhuma partida, embora tenha participado dos treinamentos. Após este momento de incerteza, o Caucaia Esporte Clube fez um contrato com ele até novembro deste ano. A gratidão do atacante é facilmente observada quando fala deste momento da sua vida profissional: “O Caucaia foi o clube que me abriu portas e agora estou conseguindo iniciar minha carreira profissional”.

Garotos como Vitor não precisam ter só talento no esporte, têm que aprender a se posicionar e entender conceitos do mundo dos negócios. Os contratos podem ser a situação mais preocupante, embora no Estado do Ceará, não seja comum problemas contratuais. 

Atualmente, o jogador declara estar tranquilo com seu futuro. Vitor destaca que, mesmo em meio à pandemia do novo coronavírus, o contrato com o Caucaia não foi afetado. Ele tem a expectativa de se destacar no clube e alçar voos no mundo do futebol.

“O Caucaia foi o clube que me abriu as portas.”  – Vitor Ribeiro

Passaportes frustrados

Caio Levi. Foto: Arquivo pessoal.

Caio Levi, 20, sempre teve sonho de jogar futebol e ser profissional. Apesar da pouca idade, já passou por diversos clubes da capital e também do interior do Ceará. Mesmo com dificuldades, como a má estrutura dos clubes, Caio não desistiu e tentou enxergar um futuro sem ter medo de arriscar.

“Surgiu uma oportunidade de viagem. Foi através da indicação de um amigo, que tinha o contato de uma pessoa [agente] lá em Portugal. Essa pessoa teria ligação com clubes e poderia me levar para fazer alguns testes”, conta. A partir desse momento, Caio arriscou corajosamente para o que seria o grande salto em sua carreira como jogador de futebol. 

Porém, ao chegar para realizar os testes, foi surpreendido pelo cenário do futebol português naquele momento, sem falar na decepção com o contato previamente arranjado. “A janela para clubes de primeira, segunda e terceira divisão já estavam fechadas, e só abriria no ano seguinte. A pessoa que pensei que havia muito contato com os clubes, não havia tanto assim”, lamenta.

“A janela para clubes de primeira, segunda e terceira divisão já estavam fechadas.” – Caio Levi

Além da dificuldade salarial, outra questão sobre a permanência de Caio em Portugal veio à tona. Ele conta que, para permanecer na Europa, o clube teria que fornecer um suporte contratual, pois estava como turista e só poderia ficar durante 90 dias por conta da legislação portuguesa. “Nesse momento, as coisas começaram a complicar, tanto nessa questão do suporte do clube, quanto do tal empresário que não me ajudava em praticamente nada. E, para piorar a situação, o meu amigo voltou pro Brasil, pois ele não passou em nenhum teste. As coisas acabaram não dando certo pra ele”, explica Caio.

Para tentar resolver essa dificuldade, Caio ficou morando de favor em uma igreja localizada na cidade do Porto, mas era muito distante dos locais de treino, o deslocamento era inviável. Ele conta que, por conta das dificuldades, optou por desistir.

Caio conta que ainda tentou mais dois testes em clubes situados próximo à cidade do Porto. “Um deles eu passei. Só que os clubes eram na mesma situação do primeiro, não davam salário e nem alojamento, e ainda tinha a questão da minha inscrição na UEFA (União das Associações Europeias de Futebol), que era outra complicação”.

Em um certo momento desistiu de tentar testes em times tão pequenos e esperou para fazer testes em times que pudessem dar o devido suporte e, ao mesmo tempo, aguardar a data da passagem de volta ao Brasil. Nesse tempo, arranjou um emprego em um restaurante, onde trabalhou por um tempo até decidir retornar para casa, pois seu prazo iria vencer e ele não queria permanecer como ilegal no país.

Caio, então, diante de todas as adversidades enfrentadas, decidiu desistir do sonho de se tornar jogador de futebol profissional e hoje é um estudante tentando um novo sonho: ser aprovado em um concurso público.

Olhando pelo lado da psicologia

Os casos mencionados não são incomuns, clubes maiores oferecem serviço de acompanhamento para que os atletas lidem melhor com as adversidades da profissão. A psicóloga do esporte, Liana Benício, 31, conta que a transição de carreira é algo muito trabalhado nos jovens por meio da psicologia esportiva. “Desde a iniciação, a gente já vai trabalhando muito a questão da educação, de incentivar a terminar o ensino médio, de pensar em uma faculdade e em uma perspectiva profissional, pois o futebol é transitório”.

“Desde a iniciação, a gente já vai trabalhando muito a questão da educação, pois o futebol é transitório”. – Liana Benício

Liana Benício. Foto: Arquivo pessoal.

A psicóloga, que atualmente atende ao Fortaleza Esporte Clube, explica que a transição de carreira consiste em fazer um planejamento para dentro da rotina dos atletas. “A gente faz uma orientação profissional para vermos uma perspectiva a longo prazo. Eu trabalho muito com essa questão do ‘plano B’, pois isso é de extrema importância inclusive para o rendimento, para eles [os atletas] se sentirem mais tranquilos”, conta.

A psicóloga explica que o “plano B” é tudo aquilo que o jogador faria sem o futebol, de forma a tentar amenizar a pressão psicológica do atleta no caso de alguma dificuldade.

Esta matéria foi produzida por alunos de Jornalismo da Universidade de Fortaleza como trabalho da disciplina de Jornalismo Investigativo ministrada pela professora Adriana Santiago. Para conferir o material original clique na imagem abaixo.

Expediente Periscópio

  • Edição: Nataly Rodrigues e Victor Hugo Pinheiro
  • Redação: Maria Júlia Castro, Alan Melo, Marcos Viana, Matheus Freitas, Marília Serpa, Gustavo Maciel, Victória Vitoriano
  • Ilustração: Victória Vitoriano

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