“Escolhi contar essa história através de um filme”

por Douglas Sales

Em uma viagem à Argentina para visitar o filho que lá morava, Lívia Sampaio descobriu, no dia de seu aniversário, que seria avó. O susto que a informação trouxe de início, logo deu lugar ao orgulho que sempre tivera por ser uma mãe jovem. E, agora, uma avó jovem. No entusiasmo do momento, os mais de 4 mil quilômetros de distância não pareciam ser empecilho algum.

Lívia, uma economista e cineasta nascida em São Paulo, mas baiana por vocação, viu seu mundo ganhar vida e cores novas ao saber que seria avó de uma menina. Mãe de dois homens, passou a sonhar com os vestidos, os laços e os penteados com os quais mimaria a neta. Tudo seria cor de rosa e fácil. Mas, como num tango argentino, o drama logo se fez presente. Seu filho se divorciou e sua neta, hoje com nove anos e vivendo com a mãe, mudou-se para uma cidade no interior da Argentina

Todavia, mais do que lidar com um divórcio, Lívia viu-se vítima de Alienação Parental, algo que era alheio à sua realidade. Alienação Parental ocorre quando há interferência psicológica, por parte de um genitor ou de quem possui a guarda, na formação de crianças e adolescentes, incitando-os contra outros membros familiares. A família paterna de sua neta, ela inclusa, passou a ser completamente excluída da vida da recém-nascida. 

Entre os meandros dessa batalha, Lívia usou a arte para dar voz ao seu grito. Em 2019, dirigiu e lançou o documentário Tranças, abordando os dilemas e as dificuldades que as vítimas de Alienação Parental enfrentam. Nessa entrevista, simbolicamente realizada na data em que se celebra o Dia dos Pais na Argentina, o Jornalismo NIC conversou com Lívia Sampaio. Confira: 

Jornalismo NIC: Você dirigiu e lançou, em 2019, o documentário Tranças, que aborda uma temática delicada e presente em sua vida: a alienação parental. Como se deu o processo de construção da ideia para produzir esta obra?

Lívia Sampaio: A ideia não foi propriamente construída, ela foi um ato de rebeldia. Eu havia escrito um artigo para o jornal A Tarde, intitulado “Alienação Parental: um estupro mental” e, por causa disso, minha advogada me informou que havia uma ordem de restrição de 6 meses nos quais eu não poderia ver minha neta e, que se eu continuasse a tocar no assunto, poderia ser presa. Ai eu falei: ah, é? Pois então eu vou fazer um documentário sobre o assunto. Não foi algo muito pensado. Eu já conhecia muitas pessoas da área do cinema, tanto por causa do meu mestrado em Comunicação e Culturas Contemporâneas como pelo próprio núcleo de amizades. Mas eu, apesar de cinéfila desde criança, não entendia nada de como fazer um filme. Eu havia estudado apenas a teoria, não sabia da prática. Então eu saí em busca de gente que pudesse me ajudar. 

JN: Quais os principais obstáculos que você enfrentou na produção do filme? 

LS: Um grande obstáculo que se enfrenta ao fazer cinema é o financeiro, sem dúvidas. Mas eu diria que eu encontrei, também, muitos obstáculos humanos. Não quero dizer que não encontrei pessoas que me ajudaram no caminho, não é isso. Mas encontrei, também, muita má-vontade e muita  inveja. Tranças não teve financiamento do Governo, eu fiz uma campanha no crowdfunding e também recebi doações de muitas pessoas. Entre elas, pessoas que não imaginei que ajudariam e muitos amigos que imaginei que doariam, mas não fizeram nada. Logo quando eu comecei a minha campanha de divulgação da arrecadação, Soraia, minha empregada, falou para eu separar 60 reais de seu pagamento e deixar para o filme. Eu fiquei surpresa, veja bem. Ainda tive que ouvir de outra pessoa que eu não precisava estar pedindo dinheiro para financiar o filme pois, de acordo com ele, eu já tinha dinheiro… É complicado. Senti que o mundo do cinema aqui é uma espécie de bolha, onde as pessoas se cercam de segredos e se fecham para somente elas produzirem. Eu tinha amigos que trabalhavam em áreas da cultura, de levantamentos de verba, e não recebi um apoio propriamente dito. Após eu mostrar o filme à uma produtora local (da Bahia), ela me disse que não se fazia filme sem dinheiro público. Isso após ver o filme praticamente pronto. São essas coisas, sabe. Eu não pedia dinheiro, eu pedia ajuda nas coisas que eu ainda não sabia, sobre distribuição, correção de cor, etc; encontrei muitas portas fechadas. 

JN: Você diz que o documentário é dedicado à sua neta. Ela o assistiu? 

LS: Não, não assistiu. Não acho que ela tenha a maturidade necessária, ainda. Não quero gerar raiva nela ou algo assim. Ela sabe que sua avó fez um filme, mas não sabe sobre o que. Quero que ela assista quando tenha um pouco mais de idade e maturidade para entender. 

JN: Você aborda com muita beleza e delicadeza um tema bastante pesado. O que lhe motivou na escolha dessa estética?

LS: Essa estética de leveza foi intencional. Uma carga pesada acaba tirando a empatia do público com a causa, e não era isso que eu buscava com o Tranças. Inicialmente, esse documentário ia ser só para a minha neta, seria um filme caseiro. Eu apresento a alienação como ela é, de forma básica e direta, quase como um bê-á bá.

JN: Você acredita que, através de uma obra de arte, as pessoas terão mais acesso à esta temática? 

LS: Com certeza. Foi um dos motivos pelo qual, também, que escolhi contar essa história através de um filme. Eu podia, mais facilmente, contar essa história através de um livro – que inclusive estou escrevendo um, sobre mulheres que sofreram alienação – mas o cinema é diferente. Atinge mais.

JN: Qual você pensa que é o papel da arte no processo de conscientização de uma sociedade, acerca de quaisquer sejam as temáticas?

LS: É fundamental. Obras de arte são atemporais, elas ficam. Você vê um filme do Glauber Rocha, como Terra em Transe e Deus e o Diabo na Terra do Sol, e tá lá, um recorte histórico, sabe? Filmes que são de décadas passadas e continuam atuais. Você poderia usar um jornal daqueles tempos para saber sobre a época, mas, através de um filme, as pessoas têm mais facilidade.

JN: Você vê, hoje, no Brasil, um avanço na luta contra a alienação parental? 

LS: Não, muito pelo contrário, há um retrocesso. A lei da Alienação Parental foi aprovada em 2010, no governo Lula. De lá para cá, um grupo de políticos vêm fazendo uma série de modificações, alegando que a lei, veja bem, protegeria pais abusadores ao dar a guarda a eles. Não estou dizendo que isso não possa acontecer, toda lei é cabível de falhas; mas até mesmo por grupos da esquerda a lei vem sendo criticada, por membros de militância radical. Sempre as mesmas 10 pessoas. É uma lei que todo mundo dá pitaco sem conhecer. Todo mundo acha que sua experiência é a válida, mas na verdade só quem entende é quem é vitimado. Todos os que são vitimados. 

JN: “Tranças” teve uma recepção notória, sendo selecionado para diversos festivais. Como você recebeu isso tudo?

LS: Eu fiquei muito surpresa. Não só foi selecionado para festivais, mas como também passou por diversos critérios de qualidade, como o da NetNow e da Amazon Prime, plataformas onde Tranças está disponível. Foi muito gratificante ver esse reconhecimento. Mas ao mesmo tempo, na contramão, ele não foi selecionado para o Festival de Cinema de Salvador, por exemplo. Apesar de ser um Festival com diversas categorias, inclusive especificamente para obras baianas, ele não foi escolhido entre as obras a serem exibidas. Isso reflete como o fazer-cinema aqui ainda pode ser uma panelinha. Tranças é um documentário em que praticamente toda a equipe é baiana, lotaria duas salas no Festival tranquilamente. Veja, eu aluguei uma sala de arte para exibir o filme e, ainda na noite anterior, todos os ingressos haviam se esgotado. Mas eu fiquei extremamente feliz com o resultado do filme, que foi feito com muita luta e muito amor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php