Atividades de centro de umbanda são impossibilitadas pela pandemia

por Eduarda Pessoa

 

“Em abril ia ter uma festa grande pro meu caboclo, meu mestre. Já estava tudo certo, já tinha entregado os convites da grande festa do mestre Sibamba. Eu não pude fazer por causa da pandemia, mas ele [entidade mestre Sibamba] entende, porque quando tudo voltar ao normal, aí sim, eu marco e mando os convites novamente. Eu abro minha casa para todos. Minha casa é igual coração de mãe, sempre cabe mais um”. A declaração de Pai Fernando de Iemanjá, do Centro Espírita de Umbanda Caboclo Sete Estrelas, localizado em Fortaleza, reflete a situação dos centros de umbanda na pandemia. As atividades e celebrações umbandistas, assim como as das demais doutrinas, religiões e credos, estão suspensas desde março deste ano devido ao decreto estadual do Governo do Estado do Ceará de isolamento social em razão da COVID-19. 

Pai Fernando de Iemanjá. Foto: Arquivo Pessoal

Contudo, a fala de Pai Fernando revela uma particularidade do seu terreiro. No final de junho, no Ceará, teve início a segunda fase de reabertura do comércio e demais atividades, onde a determinação divulgada pela Secretaria de Saúde é que as celebrações religiosas sejam retomadas com apenas 20% da capacidade. Entretanto, por hora, Pai Fernando se nega a abrir sua casa, pois ele defende que a abertura deve contemplar todos os frequentados, sem limitações. “Como na minha casa vêm muitas pessoas, eu não vou abrir. É tão chato alguém vir na minha casa pedir uma cura, um abrimento de caminho, e ser barrado no meu portão. Muitos [centros de umbanda] estão abrindo, mas eu, Pai Fernando, não vou abrir minha casa até passar a pandemia”, destacou.

Para entender a relação de cada tradição religiosa com a pandemia é preciso aprofundar-se no seu modo de operação. A estratégia de recorrer às plataformas on-line nem sempre será possível, a depender das práticas típicas de cada manifestação. Sendo assim, as atividades do Centro Caboclo Sete Estrelas estão totalmente paralisadas desde janeiro, quando aconteceu a última celebração, também denominada “gira”, em homenagem ao orixá Oxóssi. O mês que se seguiu, fevereiro, é marcado pela celebração do Carnaval, época do ano onde a maioria dos terreiros interrompem as atividades. Como a pandemia no Brasil teve início em março, os terreiros permaneceram fechados.

Pai Fernando dá detalhes do ritual da sua religião e esclarece a impossibilidade de praticá-la de maneira remota. “Quando o caboclo baixa, ele vai rufar o tambor. Os tamborzeiros também devem rufar o tambor pra entidade. O caboclo baixa e quer dar um passe de luz, quer falar um pouco dos conhecimentos da nossa religião. Para tudo isso, é necessário contato físico. [Quando incorporado] o caboclo tem que saravá e se sarava dando com os ombros”, explicou. 

Outro traço da religião brasileira, que contradiz as medidas de distanciamento e impossibilita a realização à distância, é a troca de saudações e cumprimentos necessários durante a realização de uma celebração. Como destacou Pai Fernando, saravá é um ritual de cumprimento no início da incorporação, onde a entidade saúda os filhos de santo e demais frequentadores com o ato de tocar os ombros frente a frente. “A umbanda tem aquilo de abraçar, de apertar as mãos. A gente sarava os nossos irmãos, abraça, dá beijo na mão”, concluiu.

Diante da completa paralisação na quarentena, o pai de santo mantém apenas as práticas de oferenda de velas e comidas às entidades, que realiza semanalmente: “Eu moro com dois filhos de santo meus, nós fazemos essas oferendas, pedimos iluminação para enfrentarmos esse momento delicado”. 

Pai Fernando já perdeu dois familiares para a COVID-19 e tenta conscientizar sobre a importância da saúde que, segundo ele, deve ser a maior prioridade, e do isolamento social. “Meus filhos de santo me ligam querendo vir na minha casa, mas eu não permito. Eu digo: por enquanto, vocês vão ficar aí, na casinha de vocês. Quando tudo isso passar, nós vamos nos encontrar, nos abraçar e levantar a bandeira da paz. Nós vamos poder dizer ‘nós vencemos!’”.

Pai Fernando de Iemanjá e filhos de santo do Centro de Umbanda Caboclo 7 Estrelas. Foto: Arquivo Pessoal

Auxílio à distância 

O médium Marcelo da Silva, de Fortaleza (CE), é umbandista há 27 anos e faz suas obrigações em um terreiro em Joinville (SC), o centro Oxóssi Dana Dana. O filho de santo interrompeu as viagens trimestrais à casa de umbanda, onde as atividades também foram suspensas. Contudo, Marcelo permanece realizando atendimentos em casa (restrito a membros da família) e por meio de plataformas on-line e de videoconferência. Ele alerta que, no momento, não atende incorporado em um guia, entretanto, mantém a prática para prestar auxílio aos que buscam conselhos e ajuda.

Segundo o médium, a pandemia e suas consequências adversas contribuíram com o aumento das buscas por atendimento. “Eu acho que as pessoas estão me procurando mais, em busca de um entendimento, de uma orientação. Acredito eu que, atualmente, as pessoas estão mais sensíveis à doutrina. [O aumento da procura] pode até ter acontecido com o kardecismo, com as religiões holísticas, com outros tipos de religiões que enveredam por esse caminho espiritual”, destacou. 

Marcelo lamenta a suspensão das celebrações da sua religião, em especial da casa em que frequenta, contudo, reflete sobre aspectos construtivos da experiência que, segundo ele, contribui para o desenvolvimento da fé individual . “Essa pandemia está nos ensinando a trabalharmos sozinhos também, cada um com seu guia e seu orixá. Entendo que seja um ensinamento, uma provação que foi colocada pra gente para aprendermos a agir sozinhos, com a própria consciência, o próprio entendimento”.

Umbanda

A umbanda é uma religião genuinamente brasileira que reúne práticas do candomblé, espiritismo kardecista, tradições indígenas e catolicismo popular. Essa fusão é a principal característica do culto, marcado pelo sincretismo. A institucionalização da umbanda se deu no ano de 1908 e teve como marco a incorporação do Caboclo das Sete Encruzilhadas por meio do médium Zélio Fernandino de Morais.

A cosmologia umbandista envolve os orixás que, muitas vezes, se confundem com os santos do catolicismo, e as entidades espirituais que incorporam nos médiuns do culto: exus, pomba giras, pretos velhos, erês e caboclos. Com características humanizadas, estes últimos assumem a função de mensageiros e intermediadores entre o divino e o plano terreno, e ocupam o ponto central da religião que presta culto às entidades.

Ritual de louvação dedicado aos pretos velhos. Foto: Arquivo Pessoal

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