Encontros on-line são alternativa para grupo espírita

Por Eduarda Pessoa

 

As medidas de isolamento social e a consequente proibição de aglomeração afetam diretamente os templos e grupos religiosos, cujas atividades e reuniões estão temporariamente suspensas. As práticas que ocorriam em ambientes físicos e reuniam grande quantidade de pessoas tiveram de ser adaptadas de modo a cumprir as novas medidas governamentais e sanitaristas. Foi o caso  do Grupo Espírita Paulo e Estevão (GEPE), um dos maiores da cidade. Com quatro sedes em Fortaleza e uma em Jaguaretama (CE), o Grupo precisou rearticular suas atividades no período de quarentena.  

Assim como no home office e na comunicação de forma geral, o uso de ferramentas digitais foi a solução encontrada pelo Grupo Espírita para manutenção de suas práticas e contato com os frequentadores. Entretanto, é importante entender, primeiramente, como se constitui a doutrina e como se dá seu exercício para a compreensão do processo de adaptação à quarentena. 

Flyer de divulgação de live nas redes socias do GEPE. Foto: Divulgação

A adesão a plataformas de videoconferência como Zoom, Hangouts e Google Meets foi a solução imediata desenvolvida pelo Centro, onde as atividade são predominantemente aulas e dinâmicas de reflexão em grupo. Das quatro sedes do GEPE em Fortaleza, todas as 98 turmas de Estudo Doutrinário Espírita (EDE) realizam encontros virtuais, com uma participação de aproximadamente 60% dos membros em relação aos encontros presenciais, segundo explica Miguel Falcão, um dos facilitadores do GEPE . 

O EDE, realizado anteriormente de forma presencial às terças e sábados, é uma espécie de curso com módulos semestrais em que são repassados os ensinamentos sobre a doutrina mediúnica. O formato, similar ao de aulas, facilitou a adaptação às mídias digitais durante a pandemia, assim como as demais atividades do Grupo.

4 sedes do GEPE: Sede Piedade, Sede Água Fria, sede Praia do Futuro e Sede Messejana (de cima para baixo). Foto: Divulgação

O espiritismo, especialmente o do Grupo Paulo e Estevão, não pratica rituais continuados que congregam fiéis para a realização de um culto. Tal ação, comum às religiões católicas e pentecostais, não se dá na doutrina espírita. O EDE é o que representa a principal atividade do Grupo. 

O Centro também dispõe de atividades específicas para iniciantes. Às quartas e quintas, acontecem reuniões nas quais os membros realizam reflexões e dão os primeiros passos no aprendizado da doutrina espírita. A atividade exige assiduidade e é feito acompanhamento de frequência. Já nas sextas, às 20h, ocorrem palestras abertas ao público, dedicadas ao mesmo tipo de audiência, mas sem a necessidade de tanto comprometimento. Ambas as atividades foram readaptadas para o formato de lives que vão ao ar nas redes sociais do GEPE.

Com o auxílio das redes sociais e aplicativos de videoconferência, o centro espírita garante a continuidade de suas práticas, mas lida com a redução do número de participantes que não estão conectados. Os horários também foram reduzidos, alguns encontros que aconteciam presencialmente três vezes ao dia, passaram a ser transmitidos em apenas um horário.  “O desafio é acessibilizar as pessoas e fazê-las entender que o espiritismo, por não ser dogmático, precisa ser estudado para ser compreendido. E aí, despertar para a necessidade do estudo e fazer as pessoas entenderem a necessidade da continuidade como tratamento espiritual, além da compreensão da doutrina”, explica Miguel.

Em casa

aloma Vivanco, frequentadora do GEPE na sede Água Fria. Foto: Arquivo Pessoal

Paloma Vivanco, 18 anos, frequentadora do GEPE há 4 anos,  é aluna de EDE e assídua nas aulas que vão ao ar às terças à noite desde de 17 de março, período marcado pelo início do decreto de isolamento no Ceará. Ela garante que a experiência virtual tem sido proveitosa, uma vez que tem acompanhado todas as aulas, além de lives de palestras de espíritas exibidas no Facebook e Instagram.

Contudo, Paloma relembra sua vivência no GEPE e lamenta a suspensão das atividades presenciais que, segunda ela, a impedem de estar “100% conectada” com o Centro. “Não tem o contato [presencial] com as pessoas, aquela energia que se sente quando se entra no Centro Espírita. Às vezes, eu ia também para tomar passe. Enfim, é triste a perda desse contato”.

Como a frequentadora do GEPE enfatizou, a prática de tomar passe é um ritual do espiritismo de transfusão de energias. Nele, o aplicador de passe, membro do Centro Espírita, em estado de concentração, espalma as suas mãos acima da cabeça da pessoa a ser contemplada com novas e boas energias. 

Sobre a sua experiência na pandemia, a espírita destaca algumas limitações, sobretudo, a energia que define como “positiva” e que só seria possível apreender dentro do Centro, algo que a experiência virtual não é capaz de transmitir.

Espiritismo

Retrato de Allan Kardec. Foto: Reprodução

O espiritismo é uma doutrina que reúne aspectos científicos, filosóficos e religiosos na busca pelo entendimento do mundo físico e do mundo espiritual. A doutrina foi desenvolvida por Denizard Hippolyte Leon Rivail, mais conhecido como Allan Kardec, no século XIX, na França. Ele codificou os conhecimentos da fé em cinco obras: O Livro dos Espíritos (1857), O Livro dos Médiuns (1859), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1863), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868). O espiritismo tem como características centrais a prática da caridade, a comunicação com os espíritos (seres desencarnados) e a crença na reencarnação como mecanismo de evolução. No Brasil, o espiritismo teve grande contribuição do médium Chico Xavier que, em 75 anos de trabalho, tornou o País a maior nação espírita do mundo. 

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