Membros do Santo Daime intensificam a fé durante pandemia

Por Paulyanne Tesla

O movimento religioso do Santo Daime, também conhecido como religião da floresta, começou no interior da Floresta Amazônica, nas primeiras décadas do século XX.  Com o isolamento social, é inevitável que os rituais sejam alterados e, nesse contexto, o meio virtual é um grande aliado para dar continuidade aos encontros. 

Rodrigo Barbosa, 62 anos e membro do movimento, explica como eles se organizaram nos três estados brasileiros em que atuam nesse período de quarentena. “Temos uma ligação forte entre nós, a maioria já convive há vários anos e a nossa estrutura, em termos de quantidade, varia, na maioria das vezes, entre 150 a 200 sócios por Núcleo. Somos 11 núcleos na nossa região, que envolve o Ceará, Piauí e Maranhão. No momento, nós criamos um Grupo Central de apoio aos Núcleos com profissionais da área de beneficência, saúde, na área jurídica e psicológica”, explica.

De acordo com ele, cada núcleo é formado por pequenos grupos de sócios, distribuídos de forma equitativa e acompanhados por pessoas da direção, denominadas “monitores de apoio”. Por meio dos monitores são feitos contatos virtuais constantes com cada sócio, para verificar a situação de saúde psicológica, financeira e espiritual dos membros. “Se houver algum problema de natureza jurídica, dependendo da complexidade, também damos apoio”, afirma.

Durante o isolamento, Rodrigo conta que são organizados também eventos virtuais tanto para acompanhar os jovens e as crianças quanto para disseminar a mensagem entre os membros. 

A espiritualidade em prática

Bárbara de Morais. Foto: Arquivo pessoal.

Para Bárbara Morais, 27 anos, a adaptação tem sido tranquila, em partes. “Mantenho a ligação com o movimento religioso do Santo Daime e o contato permanente com a irmandade por meio de alguns grupos que compartilhamos notícias, hinos (músicas cantadas da doutrina), notícias, mensagens de apoio etc”. Com as práticas religiosas suspensas, as ferramentas digitais como Whatsapp, Instagram, Zoom e Facebook permitem a  interação entre os grupos. 

A jovem conta também sua visão acerca do momento atual e o que a espiritualidade representa na prática. “Sinto que esse é um momento propício para os daimistas intensificarem sua fé e tudo o que viemos aprendendo dentro da igreja. Manter a espiritualidade em um momento como esse é algo muito positivo e me traz conforto; e entendimento de que a vida continua e que estamos todos amparados de alguma forma.” 

Além disso, Bárbara enfatiza a necessidade de ter uma rotina. Ela conta que costuma acender velas, fazer orações e buscar não perder a conexão com o divino. “Nós, daimistas, temos alguns deveres e, dentre eles, rezar o terço todos os dias. Nem todos colocam em prática. Eu mesma não tenho essa disciplina ainda, mas, de vez em quando, faço e tem me ajudado muito em momentos como esse”, explica.

Para outra seguidora da doutrina e  que também frequenta a União, mas prefere não se identificar, o isolamento social acabou favorecendo o seu afastamento das atividades religiosas. ”Muitas coisas foram acontecendo em plataformas digitais, acabei priorizando reuniões de trabalhos, coisas do tipo.”

Ela conta que o afastamento dos rituais presenciais acabaram possibilitando o distanciando.”Querendo ou não, você ir encontrar as pessoas, beber o vegetal, estar no salão, isso dá uma enraizada. No começo, cheguei a ver algumas palestras, alguns eventos promovidos nas plataformas digitais, mas acabei dando uma dispersada.”

Movimento Santo Daime

A doutrina reúne tradições católicas, espíritas, esotéricas, caboclas e indígenas em torno do uso da ayahuasca (vinho das almas), chá usado nos rituais com o objetivo de expandir  a consciência e permitir o encontro com o nosso ‘eu’ verdadeiro. A prática religiosa segue as regras estabelecidas por seus estatutos. O uso da bebida, por exemplo, não acontece de forma indiscriminada, pois, como um sacramento, é distribuída em datas específicas, obedecendo o calendário religioso e dentro das regras preestabelecidas.

Desde o início dos anos 1980, o Santo Daime atrai estrangeiros, e isso favoreceu o surgimento de convites para instituir  núcleos  em outros países. Com o passar do tempo, filiais internacionais começaram a surgir sujeitas às mesmas regulamentações e princípios da matriz brasileira, no Acre. Atualmente, existe uma Secretaria Internacional encarregada de promover assistência para todas as igrejas e núcleos do exterior, segundo informa o site.

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