Moonlight debate racismo e homossexualidade

Bruno Oliveira

 

Os diferentes contexto da construção da sociedade, em todas as épocas da história são fatores que criaram a ordem em que nos encontramos hoje. O mundo, ao longo de  décadas, passou por vários acontecimentos que moldaram pensamentos, divisões sociais e atitudes por parte de cada pessoa que vive na sociedade. Porém, os resquícios de épocas sombrias e de opressão ainda permanecem em parte dela e ainda insistem em propagar ideias defasadas e incoerentes com o século XXI.

É notável que, no dia a dia, são perceptíveis as divisões sociais em que a sociedade está inserida e convivemos com pré-julgamentos que ainda permanecem no subconsciente (ou no consciente) de uma parcela da população. Alguns filmes buscam retratar essa sociedade que  dissemina ideias pré-concebidas e que excluem setores da sociedade, como retrata “Moonlight”, longa-metragem dirigido por Barry Jenkins.

É notório o que Jenkins construiu em Moonlight. Arrisco a dizer que o primeiro ato do filme foi uma das melhores construções já concebidas no cinema. O filme narra a vida de Chiron em três momentos. O longa inicia pela infância do garoto, seguido pela adolescência e, finalmente, a sua vida adulta. Ele retrata o desenvolvimento e crescimento de um jovem negro na periferia, em um ambiente cercado pelo tráfico de drogas, e o descobrimento da sua sexualidade.

Cartaz de Moonlight. Foto: Divulgação

Uma frase que retrata bem todos os principais pontos abordados no filme é dito por Juan, personagem que serve como um mentor de Chiron quando ainda é mais novo. Em uma conversa com o garoto, afirma:  “Black boys looks blue in the moonlight”, que em tradução livre significa “Sob a luz do luar, garotos negros parecem azuis”.

Pode parecer uma frase inocente e sem peso nenhum para quem não a vê no contexto do filme. Porém, seguindo a trajetória do garoto que cresce com uma mãe agressiva e viciada em drogas, ao ponto de vender móveis da própria casa para sustentar o vício, além das constante agressões e repreensões que sofre por conta de sua sexualidade e cor de pele, o peso em torno dela se torna outro.

É necessário analisarmos o filme à luz do contexto social que presenciamos fora das telas, no mundo real. Uma sociedade que há pouco tempo – pouco mais de 150 anos, aboliu a escravidão, no caso dos Estados Unidos,  e também um mundo que há pouco tempo julgava desnecessárias as vidas das pessoas não brancas, como aconteceu no período do nazismo, mostram hoje que os movimentos que propagam tais ideias podem ter acabado, mas seus ideais parecem mais vivos do que nunca.

A realidade mostra o negro que ainda tem que lidar com falas e atitudes racistas, assim como atitudes que têm o intuito de oprimir sua pessoa por conta da cor da sua pele. Além disso, temos os negros também marginalizados pela sociedade, historicamente. A morte recente de George Floyd, nos EUA, asfixiado após uma abordagem policial, trouxe à tona essas atitudes. A população mundial, em meio a uma pandemia, mostrou-se engajada para impedir que fatos como esse continuem acontecendo na sociedade por meio de manifestações nas ruas e fazendo sua voz ser ouvida.

“Sob a luz do luar, meninos negros parecem azuis” é justamente o momento em que os negros podem baixar sua guarda. Durante o filme, Juan cita a frase quando está no mar junto a Chiron e a luz que reflete em seu rosto torna a cor da sua pele azul. Ali é o único momento em que a cor da sua pele parece não ser um fardo a ser carregado no cotidiano. É o momento que o negro pode esquecer que a sua cor  não é um fator que o pode  prejudicar perante a sociedade em que vive.

Marco na história do Oscar

A produção excepcional de Barry Jenkins ganhou imensa notoriedade após o seu lançamento, estrelando as principais premiações cinematográfica e levando diversas estatuetas. A principal premiação de Hollywood, os Oscars, coroou o longa em diversas categorias.

Começando por Mahershala Ali, que interpretou Juan, levou a estatueta de melhor ator coadjuvante. A interpretação do ator na pele do personagem foi única e com um peso emocional brilhante. O filme também levou outra estatueta na categoria de melhor roteiro adaptado, premiando Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney, autores do longa.

Porém, a obramarcou história na premiação por ser a primeira produção com o elenco formado apenas por atores negros a vencer a premiação máxima da noite: o prêmio de melhor filme. A premiação inclusive foi marcada por uma troca no anúncio do vencedor da categoria. Os apresentadores, Warren Beatty e Faye Dunaway, trocaram os cartões de anúncio e declararam “La La Land” como os vencedores. Porém, logo foram corrigidos e o grande vencedor foi anunciado: “Moonlight”.

Confira o trailer do filme abaixo:

Ficha Técnica

Título: Moonlight – Sob a Luz do Luar

Direção: Barry Jenkins

Elenco: Alex R. Hibbert, Mahershala Ali, Naomie Harris, Janelle Monáe, Trevante Rhodes, Ashton Sanders 

Ano: 2016

País: Estados Unidos

Gênero: Drama

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