“Fotografo por prazer e sem compromisso com ninguém”

por Douglas Sales

Memórias vêm e vão, mas os registros sempre ficam. Delas tiramos nossos melhores momentos, nossos melhores dias e, mesmo que passageiras, as fotografias tornam os fragmentos que perpassam em nossas mentes em poesia com direito a versos infinitos. É por meio de registros que a fotógrafa Thereza Eugênia Paes revive seus melhores momentos e nos permite saborear os tempos áureos da música popular brasileira. Nas décadas de 1970 e 1980, quando a MPB ainda possuía hegemonia no mercado fonográfico brasileiro, Thereza capturou momentos íntimos e profissionais dos nossos maiores artistas.

O acervo que a fotógrafa acumula é vasto e eclético. Entre seus fotografados estão Maria Bethânia, desde o início de sua carreira; Roberto Carlos, cuja fotografia de Thereza virou capa de seu álbum e a lançou enquanto fotógrafa; Maysa, Caetano Veloso e Elza Soares, artistas de nossa maior grandeza. Em um país onde museus vão às ruínas devido à falta de investimento e manutenção, o perfil que Thereza Eugênia possui no Instagram (@therezaeugenia) é um patrimônio cultural imaterial do Brasil. 

O Jornalismo NIC conversou com Thereza sobre suas influências, sua carreira no passado e no presente, e sobre como ela hoje, aos 80 anos, enxerga as possibilidades que o futuro traz. Confira:

Infografia: Sarah Viana.

Jornalismo NIC – Como surgiu o interesse pela fotografia?  E como se deu o início de sua carreira? 

Thereza Eugenia: Quando criança, na casa de minha avó, havia um laboratório fotográfico e eu tinha curiosidade em saber como funcionava. Já em 1966, o filme Blow-Up (no Brasil intitulado como Depois Daquele Beijo. Veja box ao lado) me estimulou. Eu tenho uma irmã que era minha modelo e eu a fotografava de brincadeira e gostava do resultado. Então comecei a fotografar shows. O primeiro foi o Comigo me Desavim, de Maria Bethânia. Ela gostou das fotos, o que foi um estímulo. Em 1969, fotografei Maysa no Canecão e, em 1970, fotografei Roberto Carlos, também no Canecão. Na época, a foto foi elogiada porque fugia do padrão, e ele a escolheu como a capa de seu disco. 

JN – Como é o seu processo criativo? Existe algum artista que você tenha mais facilidade em fotografar? 

TE: Em 1970, todos [os artistas] frequentavam a mesma praia, as Dunas da Gal, em Ipanema. Eu não crio nada, deixo acontecer. Gostava de fotografar com ambiente e palco. Maria Bethânia sempre atraiu, ela é expressiva e gosto muito de tê-la fotografado.  

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Maria Bethânia 1970

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JN – Como você percebe a mudança no seu trabalho, desde o começo da sua carreira até atualmente? E como você se adaptou a elas? 

TE: Em 2002, comprei uma pequena máquina digital e gostei. Então, passei a estudar fotografia digital. Aprendi muito com ela. Você corrige a composição na hora. Hoje, fotografo paisagens e até algumas cenas do cotidiano com o celular, que não chama atenção, diferente da máquina, que intimida as pessoas. Percebo que os fotógrafos hoje têm estúdios e são muito criativos e originais, como @adrianodamas. Continuo indo a shows e hoje uso uma pequena câmara, até mesmo o IPhone. Fotografo por prazer e sem compromisso com ninguém.

JN – Existe algum momento, em sua vasta carreira, que você relembre com carinho especial? 

TE: Conheci Guilherme Araújo em 1972, quando ele chegou de Londres. Guilherme foi empresário de diversos artistas, como Gal Costa, Caetano Veloso, do Gilberto Gil durante 15 anos e da Maria Bethânia, por pouco tempo, logo no início de sua carreira. Acompanhei esse seu trabalho com os artistas durante suas produções de shows. Ele realizou um Grande Baile de abertura do Carnaval do Rio de Janeiro, durante 10 anos, os quais fotografei. Este material está exposto na casa que ele deixou para Funarte, na Rua Redentor, 157, em Ipanema. Hoje, Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, o local é aberto ao público. Tenho uma relação afetiva com esta casa que frequentei e frequento até hoje.

JN – Na sua vida, a arte sempre esteve presente? Ou foi uma construção ao longo dela? 

TE: Gosto muito do que fiz e faço. Durante estes 50 anos, gosto de estudar e frequentei aulas na escola de fotografia do Parque Lage. A grande característica do meu trabalho fotográfico é um certo senso de intimidade. Eu convivia com eles. Tenho um projeto de um livro, feito por Augusto Lins, destas fotos da MPB da década de 70 e 80. Estamos  esperando passar esse terror (refere-se à Covid-19) pra ver se publicamos.

JN – Você acredita que o Brasil preserva sua memória?

TE: O Brasil não tem tradição de preservação de nada. Um exemplo clássico é a arquitetura. A avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, foi quase toda destruída. Inclusive o prédio histórico do Palácio Monroe, que abrigou o Senado Federal.

JN – Como você imagina que se darão os shows num mundo pós-pandemia,  haverá um impacto muito grande nos seus formatos?

TE: Hoje, com a pandemia, as lives estão dominando. E no mundo da fotografia alguns fotógrafos estão “brincando”, à distância, de fazer (fotografias) pelo FaceTime. Acho que é algo limitado. É uma forma de comunicação. Só uma vacina vai fazer voltarmos a ter uma vida normal e, acredito, só em 2021.

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