“Quanto mais sua pele for preta, mais você sofre racismo”

Por Pedro Henrique Menezes

A luta por igualdade racial é, historicamente, algo para ser lembrado com respeito e admiração por demonstrar a braveza do povo negro. Décadas se passaram com nomes e grupos nacionais e internacionais organizados para que o racismo acabasse. Apesar de décadas de lutas,  o racismo continua sendo uma realidade na sociedade moderna. Muitas vitórias foram conquistadas, mas ainda é necessário algo maior: é preciso ouvir as vozes daqueles que não possuem espaço na sociedade, é preciso dar visibilidade para aqueles que são distinguidos apenas pela cor da sua pele. 

Diante disso, o movimento negro toma força contra os preconceitos que atingem a população preta no Brasil e em outros países, que teve sua efervescência após a morte do norte-americano George Floyd, homem negro que foi asfixiado por um policial branco. Após o assassinato, uma onda de protestos inflamou movimentos negros por todo mundo,  mostrando a força e indignação de uma parcela da sociedade que sempre sofreu nas mãos do homem branco. 

Para falar sobre a luta dos movimento negro no Brasil e no Ceará, além de toda a mudança no cenário atual do combate ao racismo, o Jornalismo NIC conversou com Wanessa Brandão, bacharela em Serviço Social e mestranda em Serviço Social, Trabalho e Questão Social pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e articuladora do CEPPIR (Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para Promoção da Igualdade Racial), do Governo do Estado do Ceará.

 

Jornalismo NIC: No contexto do movimento negro no Brasil, como você avalia essa luta no Ceará?

Wanessa Brandão: Acredito que no Brasil, nós sempre tivemos movimento negro desde que aqui chegamos em navios negreiros. Ou seja, houveram movimentos negros ainda no sistema escravista assim como existe movimento negro desde o pós-abolição. De acordo com os estudiosos Kabengele Munanga e Nilma Lino Gomes, é preciso pensar “a resistência negra desde as revoltas ao movimento negro contemporâneo”. Dessa forma, se torna racista e colonial pensar que os negros não criaram estratégias de fuga do sistema escravista, a exemplo da formação dos quilombos, que foram os maiores movimentos de insurreição dos negros em termos de alcance e capilaridade em nosso país. O quilombo dos Palmares foi considerado uma república, há registros de mais de 30 mil quilombolas palmarinos. 

Os quilombos também não foram somente formados por um movimento de fuga, mas de formação de irmandades negras, mesmo por negros livres. Inclusive, há um debate contemporâneo de que toda reunião de negros em prol da causa racial é um quilombo. Assim, pensar movimento negro é pensar resistência, e as resistências vão sendo pensadas de acordo com as dificuldades impostas.

Com relação ao Ceará, penso que temos também as resistências plurais aqui, como a professora Zelma Madeira conceitua, quando diz que temos várias formas de resistir, seja pela via da Política de Igualdade Racial, através da Universidade, com pesquisadores negros e Núcleos de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas, como por exemplo o NUAFRO (Laboratório de Estudos e Pesquisas em Afrobrasilidade, Gênero e Família), na Universidade Estadual do Ceará (UECE), o NACE (Núcleo das Africanidades Cearenses), na Universidade Federal do Ceará (UFC) e os NEABIS (Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas), no Instituto Federal do Ceará (IFCE) com vários núcleos espalhados pelos municípios cearenses. Além do curso “Mulheres Negras Resistem”.

Outra forma de resistência é pela cultura, como os sambas e festas negras, que vem ocorrendo sobretudo em Fortaleza. Temos também as plataformas de comunicação negra como o Ceará Criolo, Podcast Kilombas e outros. Os movimentos sociais, como os movimentos de juventude negra periférica , o Coletivo Natora do Pirambu, o Coletivo Afroraízes no Moura Brasil, Aloha na Barra do Ceará, Bonja Roots no Bom Jardim e tantos outros.

Os grupos de mulheres negras do Instituto da Mulher Negra do Ceará (INEGRA), entre outros grupos como o Grupo de Valorização Negra do Cariri que é pioneiro aqui no nosso estado. As religiões afro-brasileiras e de matriz africana, também são muito importantes para demonstrar essa resistência e tantos outros. 

Citei alguns para que a gente possa dar visibilidade aos movimentos que já existem, para não cairmos na malha do racismo de apagar nossa história. A questão é: para onde você está direcionando o seu olhar? Porque a presença negra no nosso estado é massiva, mas é preciso ver quais espaços e lugares eles estão ocupando e quais são os movimentos sociais que estão valorizando.

 

JN: Como a Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para Igualdade Racial tem ajudado a diminuir o racismo na nossa sociedade?

WB: A coordenadoria surge em 2011 e desde então vem na luta para consolidar em nosso estado o CPF da Política Pública, como diz a nossa coordenadora Zelma Madeira. Com isso, já temos a coordenadoria, tivemos também a implementação do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial – COEPIR e a instituição do Plano Estadual de Igualdade Racial, que está em  desenvolvimento. 

Além disso, a Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para Igualdade (CEPPIR) trabalha na perspectiva da transversalidade, que é fazer com que as várias secretarias do governo possam implementar políticas públicas de igualdade racial, como a Secretaria de Educação, Cultura e a de Desenvolvimento Agrário. Porém, é preciso alcançar mais secretarias, porque a igualdade racial está em todos os espaços de funcionamento da vida. 

Outra via de trabalho são palestras e formações para escolas e vários outros espaços, assim como entrevistas dadas para diversos meios de comunicação. Em novembro de 2019, lançamos a Campanha “Ceará sem Racismo: Respeite Minha História, respeite minha diversidade”, em parceria com a SECULT e a Prefeitura de Fortaleza, que já alcançou 16 municípios cearenses e objetiva formar agente públicos, gestores e sociedade civil para a superação do racismo estrutural e também do racismo institucional. 

Além disso, houveram várias programações culturais, com valorização da cultura negra, quilombola, indígena, de terreiro e cigana. A coordenadoria, da mesma forma, presta assessoria aos municípios cearenses para a implantação de órgãos, conselhos e plano, e em conjunto com a Ouvidoria de Direitos Humanos do Estado, acompanhamos os casos de racismo. 

Ou seja, trabalhamos em três vias de ações: a ação repressiva,que é entender e tratar o racismo como crime que ele é; a ação Valorizativa, que são ações de educação, como essas formações para agentes públicos, gestores das políticas e sociedade civil; e a ação afirmativa, que é a contribuição e articulação para a implementação das cotas raciais nas universidade estaduais, como a UVA, a URCA e a UECE, além do monitoramento por via das bancas de heteroidentificação. 

 

JN: Como você recebeu a declaração feita pelo presidente da Fundação Palmares, que disse que o movimento negro é uma “escória maldita”?

WB: Nós recebemos com lástima. É uma pena que esta pessoa que ocupa um espaço de alto valor para nós esteja imerso nessas narrativas racistas e fascistas. Mas é preciso entender que o racismo é estrutural, conforme conceitua Silvio de Almeida.  Ele atinge todas as instâncias da vida, as relações sociais e interpessoais, as instituições e as mentes. Sendo assim, o racismo está posto para todos! 

Uma pessoa negra não está isenta de reproduzir o racismo e discursos fascistas, que inclusive estão tomando cada vez mais espaço atualmente, são projetos políticos em disputa. Assim, o representante da Fundação Cultural Palmares, assim como tantos outros, não está deslocado dessa estrutura racista, percebe-se que ele desconhece a história do seu próprio povo, não criou conexão com suas raízes e está longe dela por conta do racismo. 

Diferente do que ele afirma, é claro que nós temos um movimento negro atuante, que tem um papel importante e significativo desde que chegamos em navios negreiros conforme pontuei no início da conversa. 

É evidente que nós gostaríamos que todos os negros e negras tivessem a consciência negra e que entendessem a identidade negra como algo positivo, mas isso ainda é uma realidade distante, sobretudo num país como o Brasil que não tem unanimidade que é racista, que imperou a falsa democracia racial e que não leva a sério, não se coloca como centro do debate de produção e reprodução da vida. Bem, estamos na busca e na luta para romper com essas narrativas. 

 

JN: Na posição de mestranda em Serviço Social, como você enxerga a desigualdade das cotas raciais e como esse fato pode ser mais justo para os estudantes que realmente tem direito?

WB: Acredito que é importante primeiro perceber que a desigualdade que você fala, na verdade é fraude, ou seja, pode ter caráter de crime, infelizmente ainda estamos encarando esses fatos como um debate ético, quando na verdade deveriam haver punições no sistema de justiça para essas práticas fraudulentas. 

Entendam que o problema não é o sistema de cotas raciais, mas a forma como ela vem sendo aplicada e como a sociedade brasileira encara isso. E muito da raiz do problema é justamente o termo “pardo”, que abre espaço para pensar a ancestralidade, quando na verdade as cotas raciais foram criadas para dar oportunidade a pessoas negras que sofrem racismo de acessar os espaços de educação superior. 

Então, o pardo é a incógnita do Brasil, se for para o bem eu digo que sou pardo, se for para o mal eu digo que sou branco. Ou seja, para ter acesso a um direito que foi negado aos negros desde o início, o branco diz que é pardo, mas se for para afirmação positiva da identidade negra, para de fato pensar formas concretas de enfrentamento ao racismo, o branco diz que é branco. Assim, é um grande erro histórico o termo “pardo”, foi criado para minar a identidade preta ou indígena dos brasileiros. As cotas raciais são uma política pública e devem ser tratadas como tal, como um processo por decorrência social. 

Pois o racismo no Brasil, é um racismo de marca, quanto mais sua pele for preta, mais você sofre racismo, e o racismo é determinante para ocupação dos espaços.  Então, o apagamento da história negra e indígena, assim como a falta de oportunidades concretas para a mudança de vida dessas pessoas, é racismo.

 

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