A dica é mergulhar na genialidade de Paul Thomas Anderson

por Letícia Serpa

Você já parou para pensar que um filme pode ter muitos significados por trás das câmeras, levando em consideração a vida do cineasta ou de atores da trama? Mesmo que a história do longa seja interessante, é comum que o roteiro também traga mensagens implícitas na mudança de cores, cenário e fotografia. 

O diretor Paul Thomas Anderson. Foto: Reprodução.

Com Paul Thomas Anderson não é diferente. O diretor, indicado a oito Oscars, três somente pelo longa “There Will Be Blood” (“Sangue Negro”, como é conhecido no Brasil), fez questão de colocar na maioria de seus filmes um pouco da sua história de vida, de forma indireta e muito instigante. 

Desde cedo, P. T. A. (como é conhecido no ramo do cinema), foi interessado pelo mundo cinematográfico. Em 1996 lançou o seu primeiro filme “Hard Eight” (“Jogada de Risco”, como é conhecido no Brasil), com atuação de Philip Baker Hall, Philip Seymour Hoffman e John C. Reily que posteriormente participaram de outras obras do diretor. O filme foi a primeira experiência do cineasta com o audiovisual de grande porte, sendo indicado a alguns prêmios Independent Spirit

“Boogie Nights”

Mas, é com o longa Boogie Nights, que P. T. A começa a narrar seu passado. O diretor, desde o início de sua vida acadêmica, foi interessado em temas eróticos e chegou a quase produzir um filme pornô na época de sua faculdade, o que o fez ser expulso. Para melhor entendimento, é preciso ressaltar que a relação de Anderson com seu pai não era uma das melhores. 

O diretor Paul Thomas Anderson no set de “Boogie Nights”. Foto: Reprodução.

Ernie Anderson, pai de Paul, apresentador de TV e locutor muito conhecido nos anos 60, costumava repreender o filho pelo constante interesse em pornografia. O que fez o cineasta se rebelar e decidir seguir trabalhando com o que de fato gostava. Ernie afirmava que Paul não conseguiria ter sucesso em sua carreira fazendo filmes daquele estilo. Porém, o diretor “deu de ombros” e lançou o seu segundo longa que traz a pornografia como tema principal da obra.

Boogie Nights, lançado em 1997, foi um tiro no escuro. Naquela época, a indústria americana pouco falava sobre assuntos relacionados à pornografia, ou pelo menos não da forma explícita como feita por Paul. Mas, se o que o cineasta queria de fato era inovar a forma de se fazer cinema, ele conseguiu.

O filme conta a história de Dirk Diggler (estrelado pelo ator Mark Wahlberg), um garoto sem muito talento, por vezes taxado de burro e medíocre pela própria mãe que, em dado momento do filme, se irrita com o filho e decide expulsá-lo de casa com a desculpa de que o garoto não se interessa por outra coisa além de sexo. Disposto a seguir sua vida e desprovido de qualquer inteligência, Dirk adentra ao mundo pornográfico depois que o produtor e diretor Jack Horner (Burt Reynolds) o convida para o teste de um futuro filme que deseja realizar. A partir disso, acontecem muitas reviravoltas e o final da trama é chocante, deixando o público ansioso à espera de uma revelação que só ocorre na última cena.

O longa traz muito fortemente a visão de P.T.A sobre o universo pornográfico que, de certa forma, romantiza o cenário, como algo acolhedor, ainda que mostre a realidade ilícita e perturbadora daquele meio. 

Qualquer semelhança não é mera coincidência. Nos créditos do filme,pode-se ver que Paul dedica-o ao seu pai. Aqui ele deixa explícito que o protagonista da trama seria ele mesmo e, de um jeito bem sarcástico, mostra à Ernie que conseguiu o que queria: o filme fala sobre um assunto que o seu pai sempre discriminou e tem potencial. Porém, Ernie nunca chegou a ver o longa de fato. Para infelicidade do diretor, em fevereiro do mesmo ano, o pai de Anderson veio a falecer aos 73 anos, vítima de um câncer. 

O roteiro do filme também foi escrito pelo próprio P. T. A., sendo indicado ao Oscar de 1997 juntamente com mais duas outras categorias. Boogie Nights acabou não levando o maior prêmio do cinema, mas não deixa de ser uma obra muito aclamada e lembrada até hoje.

Confira o trailer de Boogie Nights

Magnólia 

Mesmo com a morte de seu pai tendo ocorrido no mesmo ano de seu primeiro grande sucesso no cinema, P. T. A. foi em busca de mais. Dois anos após o lançamento de Boogie Nights, o diretor apresentava ao mundo o seu mais novo filme, o insuperável Magnólia. 

Fiona Apple e P.T.A. Foto: Reprodução.

Em 1997, perto do lançamento de Boogie Nights, Anderson conhecia a cantora Fiona Apple (clique aqui para a resenha de seu novo álbum). A artista foi o primeiro grande amor do diretor, além de sua futura esposa, e quem ajudou o cineasta na realização do longa. Inclusive, Paul dedicou a Fiona e novamente ao seu pai. 

Com uma temática completamente diferente, Magnólia, traz a narrativa de nove personagens que, de formas inusitadas, têm suas histórias interligadas ao decorrer da trama. Não dá para dizer ao certo quem é o protagonista. Porém, tendo conhecimento da história de Paul com seu pai, se entende que a persona que o simboliza no filme é Frank T. J. Mackey (interpretado por Tom Cruise), um guru do sexo que dá aulas em formato de stand-up para o público masculino sobre “como conquistar mulheres”. O personagem de Frank é super machista e com um teor sexual muito aflorado. Ele é filho de Earl Patridge (Jason Robards), quem está à beira da morte vítima de um câncer terminal.

No decorrer no filme, Frank é questionado por uma jornalista a respeito de sua história. O personagem mente sobre o seu passado e sua família, o que leva a jornalista a assumir já saber de toda a verdade e interroga-o sobre o fato de tê-la omitido. Mackey, então, se sente indefeso diante da repórter e posteriormente, após muitas tentativas do enfermeiro de seu pai, Phil Parma (interpretado por Philip Seymour Hoffman), de contatá-lo, vai ao encontro de Earl. 

Além da história de Frank, outras quatro histórias são contadas paralelamente trazendo, como temática principal, o perdão, a paixão, o arrependimento e, acima de tudo, o amor. 

Outro tema recorrente nas obras de Anderson, e que também está presente em Magnólia, é a pedofilia. Não se sabe ao certo se Paul sofreu algum abuso em sua infância ou se somente tem vontade de criminalizar a temática, já que a trata de forma completamente desagradável em suas obras. 

No filme, a questão aparece na história de Claudia Wilson (Melora Walters) que anteriormente havia sido abusada pelo próprio pai. No decorrer de sua vida, Claudia foi se tornando uma mulher viciada em cocaína e suas relações afetivas não eram duradouras ou sequer saudáveis. A personagem é perturbadora e digna de pena por parte de quem a assiste. Em dado momento do filme, Claudia conhece o policial Jim Kurrey (interpretado por John C. Reilly), que se interessa pela moça e a chama para um encontro. 

Tendo o drama Magnólia sido dedicado à sua companheira da época, Fiona Apple, Paul está claramente mostrando que se apaixonou e estava conseguindo se desvincular de um passado sombrio e recheado de traumas deixados por seu falecido pai. E que, pelas mensagens ocultas abordadas pelo filme, ele deve, de fato, “deixá-lo ir”. 

Assista aqui o trailer de Magnólia: 

Embriagado de Amor

No período de seu relacionamento com Fiona Apple, P. T. A passou a consumir níveis anormais de cocaína, juntamente de seu colega de profissão, Quentin Tarantino. Ele chegou, inclusive, a ser internado em uma clínica de reabilitação, onde costumava passar o seu tempo assistindo a filmes do ator Adam Sandler.

O diretor, então, em meio a uma nova fase de sua vida e o seu recente apreço pelo artista, decide lançar o drama romântico “Punch Drunk Love” (ou “Embriagado de Amor” como é conhecido no Brasil). 

O filme aborda a história de Barry Egan (interpretado por Adam Sandler), um homem tímido, com um transtorno psicológico não especificado no filme e que se apaixona pela colega de trabalho de sua irmã, Lena Leonard (Emily Watson), quem também não possui uma cabeça muito saudável. 

No decorrer da trama, Barry se envolve em uma enrascada com uma garota de um telesexo em que conversa durante uma noite. Felizmente, o personagem vai conseguindo se afastar das perturbações que permeiam a sua cabeça e, consequentemente, a sua vida, por estar apaixonado por Lena. E, só por causa disso, consegue passar por cima de suas adversidades.

Neste período, Paul já estava se relacionando com a atriz Maya Rudolph (com quem é casado até hoje). Mas, ao que tudo indica, o filme trata ainda de seu antigo relacionamento com Fiona Apple. 

Em dado momento do longa, Barry decide ir atrás de Lena que havia feito uma viagem ao Havaí. O personagem não pensa duas vezes e vai em busca de sua paixão, pois precisa dizê-la o que sente. 

O mesmo teria acontecido no relacionamento de Paul e Fiona. No ano de 1997, ela teria feito uma viagem à ilha e ele teria ido atrás da cantora para dizer o que de fato sentia. Felizmente, Fiona corresponde e, a partir deste dia, os dois dão início ao seu relacionamento. 

Cena do filme “Embrigadado de amor”. Foto: Reprodução.

“Embriagado de Amor” é um drama beirando a comédia que fala sobre o poder de uma pessoa apaixonada. A película apresenta um clima extasiante a partir da utilização das cores complementares azul e vermelho, que dão toda identidade específica. O tom azul já se apresenta desde o ínicio do filme e o vermelho permeia a história a partir do aparecimento de Lena. Estas mesmas cores também acompanham toda a leva de outros filmes do P. T. A. que se utilizará delas para retratar qualquer relação afetiva que exista entre dois personagens heterossexuais. 

O longa levou 14 indicações diferentes em várias premiações, vencendo o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes em 2002. 

Dá uma olhada no trailer do filme: 

Além dos quatro filmes citados, Paul Thomas Anderson possui outros quatro, igualmente bem criticados e avaliados, o que o tornou um grande nome do cinema. Avaliado como um dos maiores diretores atuais, a genialidade de Anderson não pecou uma só vez. 

O cineasta de 49 anos, conseguiu falar sobre o que queria, arriscou em sua abordagem difícil e superou as estatísticas. A partir de temas surpreendentemente bem abordados e longas desafiadores, Paul fala de si mesmo de uma forma indireta e psicanalítica, sempre inovando em suas películas o que o faz se aproximar muito facilmente de um futuro Oscar.

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