Cresce prática esportiva eletrônica durante quarentena

Por Pedro Henrique Menezes

As práticas esportivas no país foram suspensas por tempo indeterminado devido à pandemia do novo coronavírus. No entanto, as equipes tentam se reinventar durante esse período, com os jogadores treinando de casa e os clubes investindo na modalidade de e-sports (prática esportiva eletrônica), que retoma o contato entre equipes e torcedores, a partir dos jogos virtuais. 

Segundo o site Istoé Dinheiro, a nível mundial, o mercado dos jogos eletrônicos movimentou cerca de 1,1 bilhão de dólares em 2019 e deve se aproximar de 1,5 bilhão de dólares em 2020. Segundo a reportagem, um dos fatores predominantes é a audiência que consegue muitas vezes alcançar números que nem mesmo os esportes tradicionais conseguem. No ano passado, o número de espectadores, no mundo todo, foi de 453,8 milhões, tendo crescimento de 16,3% em um ano. Em 2018, apenas a final do jogo on-line League of Legends teve 99,6 milhões de pessoas acompanhando. 

Em tempos de quarentena, os clubes de futebol nacionais viram no esporte virtual uma alternativa de incentivar o nome da marca, em uma estratégia de marketing, alcançando não apenas os seus torcedores, mas um número muito maior de adeptos dos jogos onlines, que, sem a partida real acontecendo, têm a oportunidade de “matar a saudade” do seu clube do coração nos eventos onlines. “O nosso torcedor é um show à parte. Desde de que começamos as transmissões, eles vêm participando e até cantando pelos chats de Facebook e Youtube do clube”, conta o treinador do Fortaleza e-sports, Luciano Bertini.

No cenário cearense, os clubes de futebol da capital (Fortaleza, Ceará e Ferroviário) tiveram a oportunidade de participar de um torneio-teste entre os três times, que foi transmitido via live no YouTube dos clubes e organizado pela FCF – Federação Cearense de Futebol, nomeando a competição como 1ª Copa Cearense de Futebol Digital.  A competição foi aberta a torcedores, com até 16 inscritos por clube, através do FIFA 20, pelo console Playstation 4, utilizando o modo online “Pro Club” .

Desenvolvimento das equipes cearenses

As equipes do estado começaram a investir em equipes  qualificadas para participar de inúmeros torneios durante o período de isolamento social, contratando jogadores inclusive da seleção brasileira de Fifa Pro Club, para compor os elencos dos times. 

Partida do time Fortaleza no jogo eletrônico Fifa. Foto: Reprodução.

O técnico do Fortaleza, Luciano Bertini, conta que o clube vai investir cada vez mais para a manutenção da equipe de Fifa e englobar também outros jogos on-lines. “Pretendemos estar inicialmente em todos os e-sports ligados ao futebol. Primeiramente, no Fifa Pro Clubs o 11×11, depois partiremos para o 1×1. Depois do departamento bem estruturado, deveremos observar o mercado e a relevância de um clube de futebol entrar em outras modalidades de e-sports”, afirma. 

Ele ressalta também que o e-sports, hoje, tem uma relevância muito grande nos clubes de futebol e que é uma modalidade que vai se desenvolver e veio para ficar. “O projeto do e-sports na modalidade Fifa Pro Clubs, por ser o simulador mais próximo da realidade com o futebol profissional, veio para ficar. E a ideia é continuar expandindo a marca nos e-sports eletrônicos”, explica. 

As duas equipes conseguiram classificações importantes dentro do cenário do e-sports, em pouco tempo de atuação. O Fortaleza conquistou o acesso à Division Pro, primeira divisão da Global Fut Club, conseguindo classificação para a Mercosul, campeonato continental de Fifa Pro Club. 

Da mesma forma o Ceará, que se classificou para jogar a Taça Libertadores da América da modalidade, após ser vice-campeão da  Pro League da ISL, plataforma especializada em competições de e-sports.  Os jogos terão transmissão ao vivo nas páginas do YouTube e das redes sociais de Fortaleza e-sports e Ceará e-sports, a partir de julho, quando se iniciam as duas competições continentais.

Configurações de partida no jogo Fifa. Foto: Reprodução.

O zagueiro do clube alvinegro, Gabriel Pavão, afirmou, em live nas redes sociais do time, na quarta-feira, 20, que a expectativa para a participação na maior competição sul-americana de e-sports é grande: “A libertadores é a competição mais tradicional e de maior ambição pelas equipes do Fifa Pro Clubs no continente. Eu joguei já algumas vezes, fui até a final e é a competição que mais quero ganhar. Estamos muito animados e confiantes em lutar por este título”. 

A relação do e-sports com seu público

No isolamento, nada melhor que procurar algum passatempo para diminuir o período de tempo restante. Com isso, muitos jovens procuraram as lives de e-sports para assistir e se aproximar dos seus jogos favoritos, aprender novos métodos, se familiarizar com os jogadores e com todo o processo dos games durante essas transmissões ao vivo. 

O estudante e fã de jogos eletrônicos, Vinicius Castelo, relata que é diferente você assistir às partidas ao vivo, é uma forma de aprender mais sobre o jogo que ele costuma jogar. “É muito bom porque você vê outras formas de jogo, estratégias e conhece outras pessoas que gostam do mesmo jogo que você, acaba tendo uma interação entre todo mundo. Os jogadores da live dão dicas e até facilitam mais algumas técnicas”, explica. 

O jovem é seguidor de jogos famosos como Counter Strike, Rainbow Six e League of Legends, mais conhecido como LoL. Contudo, ele afirma que gosta de jogar também o Fifa e acompanha os campeonatos. “Gosto muito do Fifa também, jogo todos os dias, principalmente agora na quarentena, e acompanho os campeonatos on-line. Agora, nesse tempo, vários clubes de futebol e jogadores profissionais estão participando de campeonatos entre si, organizando torneios para transmitir ao pessoal que curte, como o Futebol de Casa. Sempre que posso, estou assistindo alguma live de e-sports”, relata.

Porcentagem dos espectadores. Infografia: Halleyxon Augusto.

Da mesma forma, o jogador e participante de transmissões ao vivo, Mateus Silvino, relata em áudio os jogos que mais é acostumado a jogar e os que são mais procurados pelos fãs de jogos eletrônicos quando ele e o seu grupo começam a transmitir as partidas pela plataforma Twitch.

 


O estudante de Ciência da Computação conta que no período de quarentena, as lives estão crescendo demais e tendo muita procura pelos adeptos dos jogos, já que muitos estão com tempo livre e, assim, têm mais oportunidades de jogar e participar das transmissões.  

 


Público no Brasil

De acordo com o instituto de pesquisa Newzoo, o Brasil é o terceiro maior público de e-sports no mundo, com cerca de 7,6 milhões de espectadores mensais, baseado em números de novembro de 2019, perdendo apenas para EUA e China. E é o primeiro da América Latina. O aumento foi de cerca de 20% em um ano. 

Segundo a pesquisa, o país tem cerca de 47% de chance de crescimento no cotidiano dos jogos on-line, à medida que a modalidade de e-sports se torna mais convencional entre o público. Da mesma maneira, o site informa que o aumento da procura desses jogos, faz com que clubes profissionais invistam em equipamento e profissionais para também participar das competições mais importantes, como acontece atualmente durante a quarentena. 

Divisão de participantes. Infografia: Halleyxon Augusto.

Para o próximo ano, o instituto espera um crescimento de 16% na modalidade. Dessa forma, serão mais de 15 milhões de espectadores ocasionais e cerca de 12,6 milhões de admiradores. Além disso,  13% de toda a população on-line do país assiste a vídeos com conteúdo relacionados a e-sports.

Regulamentação

Um Projeto de Lei (PL nº 383/2017), de autoria do senador Roberto Rocha (PSDB/MA), pede que seja regulamentada no país a prática esportiva eletrônica, que pede a definição de esporte para competições que fazem uso de equipamentos eletrônicos, envolvendo dois ou mais participantes. A proposta segue em tramitação no Senado. 

De acordo com o senador, as competições de e-sports, assim como as tradicionais, oferecem socialização, diversão e aprendizagem. Ele afirmou, ainda, que a prática deve contribuir com a melhoria da capacidade intelectual dos participantes, além de fortalecer o raciocínio e a habilidade motora dos participantes.

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