‘Imprimir dinheiro’ é a solução para o Brasil?

por Paulyanne Tesla

O debate acerca do aumento dos gastos públicos no combate a pandemia do novo coronavírus tem gerado discussões sobre como financiar as despesas, e a proposta de “imprimir dinheiro” ganhou espaço, novamente, entre especialistas e autoridades. A ideia foi defendida, por exemplo, pelo secretário da Fazenda e Planejamento de São Paulo, Henrique Meirelles, em entrevista à BBC News Brasil.

Em contrapartida, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, em entrevista por videoconferência ao portal UOL. se manifestou contrário à emissão de moeda para financiar os gastos públicos com a pandemia. O assunto também foi questionado por senadores em audiência pública da Comissão Mista do Congresso que acompanha as medidas relacionadas ao novo coronavírus, onde o ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu ser uma possibilidade em caso de “armadilha de liquidez“, situação em que a taxa de juros se encontra próxima ou igual a 0%. 

Na economia, liquidez é a capacidade e facilidade com que um ativo, que pode ser um bem ou um investimento, é transformada em dinheiro. Quando isso ocorre, as ações de política monetária (ações de controle da moeda na economia) não refletem os resultados esperados. Por isso, é adotado o termo armadilha”.  

Mas, afinal, como o Brasil pode imprimir dinheiro para financiar as despesas? Quais seriam os impactos para a economia? 

Impressão de dinheiro e desdobramentos

A ideia de imprimir dinheiro não se resume apenas em usar máquinas para produção de papel-moeda. As regras para a atuação do Banco Central  permitem que a instituição opere com a expansão da base monetária (total de moeda em circulação +  reservas bancárias) para além dos meios físicos. O dinheiro pode se apresentar como contratos, títulos de crédito, registros digitais, como conta bancária, cartões de crédito e débito, cheques e moedas digitais. Logo, emitir dinheiro significa aumentar a quantidade da moeda em circulação, nas suas mais diversas formas.

Professor Ricardo Eleutério. Foto: Arquivo pessoal.

Segundo Ricardo Eleutério, economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia do Ceará, existem três mecanismos para ‘fazer dinheiro’ e enfrentar os gastos e o déficit público: a emissão monetária, o aumento dos impostos e a venda de títulos do tesouro. 

Títulos públicos podem ser entendidos como papéis, com valor fixado, emitidos pelo Tesouro Nacional para financiar as despesas do país. As pessoas podem comprar esses papéis para receber o dinheiro no futuro, acrescido de juros. Os títulos privados funcionam da mesma maneira, contudo, são emitidos por instituições privadas. 

“Na situação atual, não é possível aumentar tributos, já que é hora de criar mecanismos para animar a economia. A emissão de títulos está menos atrativa, pois a taxa Selic – taxa básica de juros do país –  está baixa. Então,  resta a possibilidade de fazer a emissão monetária“, explica o economista.

Com a aprovação  da PEC do Orçamento de Guerra, que facilita os gastos públicos com a pandemia durante o período de calamidade pública, o Banco Central também poderá atuar na compra de títulos públicos e privados, que, na prática, trata-se de uma maneira de imprimir dinheiro, esclarece Eleutério. 

Impressão de dinheiro e inflação

O economista Allisson Martins. Foto: Arquivo pessoal.

O economista e ex-presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará, Allisson Martins, explica que o aumento da quantidade de dinheiro em circulação pode causar uma série de danos econômicos, e o principal deles é a inflação. 

Essa relação entre aumento dos preços e quantidade de dinheiro pode ser explicada da seguinte maneira: 

Quando aumenta o dinheiro em circulação, o poder de compra das pessoas tende a aumentar também. Quanto mais gente com dinheiro na mão querendo comprar o mesmo produto escasso, maior a probabilidade de o comerciante ou produtor aumentar o preço.

Relação entre quantidade de dinheiro e aumento dos preços. Infográfico: Aldeci Tomaz.

De acordo com Allisson, apesar da inflação relativamente baixa, essa é uma grande preocupação para os economistas. “A inflação é um problema superado desde a época do Plano Real, implantado em julho de 1994, e a grande questão é qual o volume de dinheiro podemos colocar na economia de maneira que não traga desequilíbrios nas relações de mercado e elevação dos preços”, explica. Apesar  do risco, ele esclarece ainda que esta é a maior crise da economia moderna e a emissão de moeda poderia atuar para ‘animar’ a demanda, que está baixa; bem como a atividade econômica, em queda severa. 

Relação entre quantidade de dinheiro e aumento dos preços na visão de Ricardo Eleutério. Infográfico: Aldeci Tomaz.

O professor Ricardo Eleutério completa com alguns apontamentos. “Apesar da relação estabelecida entre elevação dos preços e aumento da moeda circulando, a economia está muito fria. Dessa forma, mesmo com medidas de expansão monetária, não haveria inflação. Na crise financeira de 2008, vários Bancos Centrais, como o europeu e o americano, fizeram a expansão monetária e não produziam inflação”, conclui o professor.

A impressão de moeda também resulta no aumento da dívida pública, já que o governo precisará pagar os títulos comprados, o que afeta a percepção de risco do país. Diante desse cenário de incertezas e crise econômica, seria dos males, o menor, como afirmou Meirelles a BBC Brasil? Segundo Allison, esse é um ponto que merece reflexão. “Essa é uma estratégia que está dentro do escopo da política monetária, mas precisa ser bem avaliada, deve haver uma calibração da moeda adicionada de maneira a não resgatar problemas já resolvidos.”

O economista pondera que essa ação, “mal dosada”, será como um veneno para economia do país, inclusive, agravando ainda mais o cenário de crise.

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