Coronavírus: cearense que mora na Itália conta a sua experiência

Por Yasmim Rodrigues

O novo coronavírus foi descoberto na China ainda no final de 2019. Mas foi no início de 2020 que o vírus se espalhou por todo o mundo. Hoje de noite (02/04), há mais de 51 mil mortos e mais de um milhão casos confirmados em todo o mundo, de acordo com os cálculos da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos. Apesar de todo o transtorno causado pela doença, ainda há muitas pessoas que não compreendem a gravidade do problema.

Essa atitude era facilmente percebida na Itália no início da pandemia. “O governo foi fechando os segmentos parcialmente e isso acarretou o que estamos vivendo hoje”, opina a  cearense Vitória Alencar, 41, que mora na cidade de Pinzolo, no norte da Itália, há cerca de 8 anos. Para ela, o coronavírus não foi levado a sério, desde o início. O seu maior problema não foi a quarentena, na realidade, mas a doença virou sua vida de cabeça para baixo quando infectou um membro da sua família.

O início

Vitória em Milão. Foto: Arquivo Pessoal

Quando o vírus chegou na Itália, atingiu de forma preocupante a região da Lombardia, localizada no Norte do país. A região faz fronteira com Trentino-Alto-Adige, que fica no extremo norte, onde é localizada Pinzolo, cidade famosa pelas estações de esqui e que, no inverno, a população de 3.045 habitantes atinge quase 50 mil pessoas por conta do turismo. “Logo no início, nós tínhamos uma ideia muito vaga sobre qual era a situação”, explica Vitória, que, na época, estava trabalhando em um supermercado.

De acordo com ela, existiam políticos que, logo no começo, já estavam solicitando o fechamento de fronteiras, mas sem sucesso. “O governo estava muito preocupado com a economia e com as boas relações com os países vizinhos, e não compreenderam a proporção dos danos que o vírus poderia causar”, conta Vitória. Aos poucos, a situação foi avançando na Itália, principalmente na Lombardia. “Algumas pessoas estavam subestimando a potência do vírus, outras estavam sendo mais prudentes”. Vitória fazia parte do grupo de pessoas que estavam mais preocupadas, pois faz parte do grupo de risco por ter asma. “Um vírus que causou todos aqueles problemas na China, não poderia ser diferente aqui [na Itália]”.

No supermercado, Vitória diz que se sentia insegura, pois, como caixa, não havia como ter uma distância de segurança das pessoas e, por isso, alguns funcionários propuseram começar a trabalhar de luvas. Atitude que foi repreendida pela diretoria do supermercado. “Recebemos um comunicado que dizia que estava proibido para não causar pânico nos clientes, já que todo mundo sabia que o coronavírus era simplesmente um novo tipo de Influenza”. Para ela, era claro que a maioria das pessoas, mesmo estando ao lado da região mais afetada da Itália, acreditava que era cedo demais para tomar certas atitudes.

A zona vermelha

Vitória no Le Dolomiti, na Itália. Foto: Arquivo Pessoal

Vitória conta que a primeira cidade a entrar em quarentena foi Codogno (aproximadamente, a 521km de Roma, no norte da Itália). Ver pela televisão a situação da cidade em isolamento, a fazia pensar que se houvesse um ou dois casos em Pinzolo, a história se repetiria. “Muitas pessoas achavam que eu estava exagerando, mas eu achava que era questão de tempo para fecharem tudo aqui [Pinzolo]”. 

Fora da primeira zona vermelha, Trentino funcionava normalmente, pois não havia um consenso sobre quais eram as medidas a serem tomadas. “Era tudo muito incerto. Chegaram ao ponto de convidar as pessoas pro Trentino, já que aqui não havia casos”. Com essa atitude, na primeira semana de março, a região ficou tomada por turistas. “Dentro do supermercado, não dava pra se mexer. Estações de esqui estavam lotadas, não tinha lugar pra estacionar, parecia o período de natal”, lembra Vitória. “A sensação era de impotência, eu só podia me resguardar e me proteger”, desabafa.

No dia 9 de março, a Itália inteira entrou em zona vermelha. “No início, as coisas não eram impostas, outro erro do governo. Em uma situação de emergência não se pode convidar as pessoas a ficarem em casa”. A rotina de Vitória foi alterada de modo significativo. “Começamos a optar por fazer as compras pedindo de casa, porque, quanto mais você sai, mais você se expõe”.

O dia em que o vírus bateu à porta

No dia 11 de março, o marido de Vitória viajou à Roma para trabalhar. Já não havia mais voos e ele precisou ir de carro com amigos. “Naquela manhã, combinamos que, como ele estava se expondo, eu ia preparar um apartamento abaixo do nosso para que não houvesse possibilidade de passar o vírus para mim ou para o meu filho”, conta. No meio da viagem, foi descoberto que um dos amigos que estava dentro do carro havia tido contato com uma pessoa infectada. “Quando ele voltou, por volta de 1 da manhã, já estava com 39º de febre”.

“A sensação do primeiro dia é de medo. São pessoas que a gente ama e tem medo de perder. Faltou meu chão”, revela Vitória. Após o contágio do marido, a rotina ficou mais exaustiva. “A febre não baixava. Durante todo o dia, cada vez que ele media a temperatura, eu anotava. Comecei a preparar a alimentação mirada em alguns nutrientes para tentar ajudar de alguma forma”. Entre o 6º e o 7º dia, começaram a aparecer alguns sinais de melhora. Então foi a vez dos dois sogros e o sobrinho apresentarem os sintomas de COVID-19. “É muito difícil passar esses dias sem saber o que fazer, foram dias de agonia”, emociona-se. “Depois [do contágio] o isolamento não importa mais. Não é sobre só poder ouvir a voz da pessoa por detrás da porta, o que importa é saber que a voz está ali. O que importa é a vida, o isolamento é doloroso em todos os aspectos”. Vitória relata sobre a situação de quem precisa ficar internado nos hospitais. “Acho que as pessoas nunca pararam pra pensar que, se adoecessem, não iam ter um abraço, não iam ter uma visita. Quando você vive, você começa a pensar tanto no seu sofrimento, quanto no dos outros, não é fácil”.

Conselho ao Brasil

Vitória no Castelo em Trento, capital da Província, Itália. Foto: Arquivo Pessoal

“Durante a doença do meu marido, eu abria os olhos de manhã e tentava entender se o que eu estava vivendo era real ou era um sonho”, questionava Vitória. De acordo com ela, passar por essa situação demonstra a importância de respeitar as regras de quarentena. “O Brasil está tendo um privilégio que deve ser aproveitado. Eles estão tendo tempo de se planejar e preparar o país para suportar esse caos”.

Nas vezes que precisou sair, Vitória se emocionou ao ver a cidade vazia. “Os únicos transportes que eu cruzava eram ambulâncias, que tinham pessoas com roupas de proteção dos pés à cabeça”. Quando o vírus chegou ao Brasil, Vitória começou a passar horas respondendo a amigos e familiares sobre o vírus e sobre a situação da Itália. “Percebi que não era a única. Vários brasileiros diziam que estavam trocando o dia pela noite para conversar com os parentes, pois isso nos dá força para acreditar que vai ficar tudo bem”.

Vitória afirma que começou a ficar preocupada com o Brasil, pois enxergava a história da Europa se repetir aqui. “Eu vi uma subestimação do vírus. Isso me deixou muito angustiada. O correto é aprender com os erros dos outros e isso não estava acontecendo”, explica.

De acordo com a cearense, viver essa situação na Itália vai além do que se possa imaginar e ver pela televisão. “A vida humana tem que ser colocada no centro de tudo. Ninguém vai escapar de prejuízos financeiros, o único modo de evitar um caos no sistema de saúde é ficando em casa”. Para o futuro, Vitória se mantém esperançosa e acredita em uma mudança de atitude das pessoas. “Que esse vírus possa servir para que as nossas prioridades sejam a vida, a saúde, a família e os amigos. Espero que possamos dar valor às pequenas coisas”.

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