Um dia de quarentena em Roma

Por Yasmim Rodrigues

Roma, 27 de Março de 2020

Hoje é sexta-feira, não que saber o dia da semana faça alguma diferença, porque há 22 dias todos os dias são iguais. Mas, saber que dia é hoje lembra que nem sempre a vida foi assim.

Não muito tempo atrás, sexta-feira era dia de ir à Trastevere, um bairro de Roma que no fim de semana é extremamente movimentado. Lá há pubs, restaurantes, piazzas (praças, em tradução livre do italiano) e é o lugar perfeito para fazer novos amigos e ver, pelos olhos dos jovens, como é a vida em Roma depois que o sol se põe.

Infelizmente, sem aviso, as noites em Trastevere foram canceladas, os encontros com os amigos se tornaram inexistentes e atividades como ir ao mercado acabaram por substituir os momentos de diversão fora de casa.

O dia de todo estudante de intercâmbio começa com aulas online. Antes, era necessário acordar mais cedo para pegar o metrô até a faculdade e agora não mais. Por mais que pareça algo bom, quando se está em completo isolamento a tanto tempo quanto  a Itália, até a voz eletrônica que sempre dizia “Ottaviano” indicando a estação de metrô faz falta.

Olhar as notícias também faz parte da rotina, todos tentam descobrir diariamente o estado de saúde da Itália e do mundo, mas infelizmente nenhum dos dois têm trazido boas notícias ultimamente. Saber disso, causa uma sensação estranha como se não houvesse lugar a salvo para se estar, nem aqui, nem em casa, nenhum lugar do mundo está saudável.

O dia continua e a distração da vez é o almoço, procurar receitas e tentar reproduzi-las é uma boa forma de passar o tempo, faz quase parecer que estar em casa é opcional. 

“Opção” em pouco tempo, o conceito de “escolha” mudou drasticamente. Hoje, entende-se que escolher é um privilégio. “Escolher” quando sair de casa, “escolher” quando viajar, qualquer atitude que envolva “escolher” tornou-se inviável para toda a Itália há 22 dias, quando ninguém acreditava que esse vírus tivesse poder de parar uma cidade, quanto mais o país… Então, o vírus mostrou o seu poder e parou o mundo inteiro.

Hoje é dia de ir ao mercado. Ver as ruas vazias, exatamente como estavam desde às últimas compras. Algumas lojas com a placa “Fechado até dia 25” continuam fechadas… já passamos do prazo. A situação se prolongou, foi pior do que o esperado e agora não se sabe exatamente como dar qualquer tipo de previsão sobre o futuro.

Uma saída rápida para comprar comida dura mais de uma hora. Porque do lado de fora do mercadinho, que antes estava sempre vazio, há uma fila com pessoas usando máscaras, luvas e o pior: um olhar de desconfiança que ora expressa medo e ora expressa tristeza. 

Durante o tempo na fila, é possível observar os transportes públicos passando, o bondinho 14… antes era tão lotado que chegava a ser claustrofóbico e hoje está vazio. 22 dias atrás, ver esse bondinho vazio seria motivo de alegria, hoje, vê-lo assim, causa exatamente o sentimento oposto.

Dentro do mercado, tudo acontece mais rápido. Não há comida faltando. E de repente já é hora de voltar para casa. Há dias que passam devagar e outros que passam rápido. 

Após as compras, a realidade bate a porta são 18h. O Governo italiano acabou de liberar mais um boletim sobre os números de COVID-19 no país. Há dias que as notícias são ruins, quando os números aumentam. Há dias que as notícias são boas, quando eles diminuem, porém, é estranho classificar como “boa” uma notícia que diz que os números diminuíram, porque diminuir não significa zerar, então pessoas continuam morrendo… e é assim dia após dia, os dias “bons” são, na verdade, os “menos ruins”.

Agora, já é hora de dormir, de rezar para que amanhã o dia seja melhor, não só na Itália, mas como no mundo inteiro. É hora de torcer para que amanhã, não seja a vez de um familiar ou amigo se infectar. É hora, de ter esperança e acreditar que até mesmo as noites mais longas, cedo ou tarde, são encerradas pelo primeiro raio da manhã. Que amanhã amanheça na Itália, Que amanhã o sol brilhe de novo no mundo.

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