Isolamento italiano: o vigésimo dia

Por Yasmim Rodrigues

A Itália completou nesta quarta-feira, 25 de março, o 16º dia de zona vermelha em virtude da pandemia de COVID-19. Porém, as aulas de escolas e universidades estão suspensas desde o dia cinco de março, ou seja, as medidas mais drásticas de distanciamento social estão ocorrendo no país há 20 dias. “Alguns dias atrás, me perguntaram quanto tempo eu estava em isolamento e eu não soube responder, pois eu perdi a noção do tempo”, explica a intercambista Lara Ferreira, 19, que está em Roma desde fevereiro.

Lara Ferreira em Roma, antes da quarentena. Foto: Arquivo Pessoal

O decreto do primeiro ministro Giuseppe Conte, veiculado na noite do dia nove de março e com previsão de acabar no dia três de abril, restringe a circulação de pessoas entre as cidades italianas, proíbe qualquer tipo de aglomeração, incluindo a realização de missas, casamentos e funerais, e determina o  funcionamento apenas de supermercados, farmácias e serviços essenciais. A Itália também enrijeceu as sanções para quem desrespeitar as regras e a multa, que antes era de cerca de 250 euros (aproximadamente, $1.380 reais), agora pode variar entre 300 e 3000 euros.

Durante esses primeiros 20 dias, a nação italiana viveu uma montanha russa de emoções. Todos os dias, às 18h (Roma), o governo libera um balanço com os números atualizados da doença no país. No dia 17 de março, pela primeira vez, a Itália recebeu a boa notícia que a quantidade de infectados havia sido menor do que a do dia anterior, fato que trouxe esperança para uma possível desaceleração da curva de contágio. Porém, 24 horas depois, a Itália atingiu 475 mortos em um dia, tendo o pior aumento desde o início da pandemia.

Marta Rubio. Foto: Arquivo Pessoal

No último sábado, 21, o país bateu o recorde novamente com 793 mortes em 24 horas. “A pandemia semeou luto e dor, basta pensar que as pessoas morrem em total solidão, sem a proximidade dos entes queridos. Embora a Itália possua um dos melhores sistemas de saúde pública do mundo, ela entrou em crise. Dor e preocupação permeiam a alma de todos nós”, conta a italiana Erica Vitelli, 66.

Com o agravamento da situação, já era possível ouvir romanos falando na extensão da quarentena por mais um mês. O governo não se pronunciou oficialmente e no domingo, 22, a situação da Itália mudou novamente. O número de mortos em relação ao dia anterior caiu e continuou diminuindo por dois dias seguidos. Subiu novamente na terça-feira, 24, e reduziu no dia seguinte. A instabilidade dos números deixa claro que o problema ainda está longe de se resolver, mas traz esperança para todos que estão no país, comemorando cada pequena vitória. “Eu tenho esperança que tudo vai voltar ao normal, que eles vão controlar o vírus ou encontrar uma cura”, explica a espanhola Marta Rubio, 20, estudante intercambista em Roma.

Até o momento de produção dessa matéria (26.03), na Itália já existem mais de 74 mil casos confirmados de COVID-19, mais de 7 mil mortos e mais de 9 mil curas.

Distanciamento social e saúde mental

A pandemia do coronavírus causou pânico, não só na Itália, mas como no mundo inteiro e durante esse momento difícil, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou 31 pontos para manter a saúde mental durante a pandemia. O bombardeio de informações e notícias ruins vindas do mundo inteiro podem se tornar motivos para desencadear crises de ansiedade. Entre os pontos, a OMS destaca a importância que se deve dar às fontes oficiais. “Informe-se com os fatos e não os boatos ou informações erradas”. Além de recomendar a disseminação das notícias positivas.

Anderson Montenegro. Foto: Arquivo Pessoal

“Alguns dias passam rápido, outros passam devagar”, desabafa Marta Rubio, que está no isolamento italiano. O sentimento é o mesmo para diversos estudantes. “Eu nunca pensei que estaria sentada em casa por um mês, sem poder sair, viajar, visitar museus e ver as pessoas. Mas me sinto mais estressada ao sair de casa, por conta das regras rígidas”, explica a estudante ucraniana Kristina Kairite, 28. Para ela, sair de casa é um transtorno. “Eu tenho que levar um documento escrito, tenho que esperar na fila do supermercado por uma hora, manter a distância das pessoas, todos parecem estar fugindo de você, é estressante”, conta. A estudante ressalta ainda que é muito difícil viver sem a comunicação direta com as pessoas “Não poder tocar as pessoas, abraçá-las, beijá-las… Para mim, é um desastre”.

A chegada dos casos no Brasil também afetou significativamente o lado emocional dos brasileiros que estão na Europa. “Eu fiquei preocupado com a saúde pública do Brasil, mas, em compensação, fiquei feliz pelas medidas terem sido tomadas mais rapidamente do que o governo italiano”, conta Anderson Montenegro, 21, intercambista brasileiro que estava morando em Milão, mas decidiu voltar para o seu país natal por conta do agravamento da situação tanto da Itália quanto do Brasil.

De volta para casa

Assim como Montenegro, muitos estudantes de intercâmbio decidiram deixar a Itália durante esses primeiros dias de quarentena. “Voltei para casa para ficar com meus pais. Eu não tinha uma confirmação de quando as aulas iam voltar porque nada na Itália está decidido”, explica o brasileiro.

Para quem decidiu ficar, a sensação é de que não há nada que possa ser feito. “Viver em Roma foi o meu grande sonho por três anos, vou ficar aqui. Não vejo o porquê me expor ao risco de contágio em um avião e nos aeroportos para voltar para Ucrânia se também terei que ficar de quarentena lá”, explica Kristina Kairite.

De todo modo, os números podem mudar drasticamente todos os dias. Fato que, ao mesmo tempo que causa insegurança, é motivo de esperança para todos que estão vivendo em meio ao caos. “Minhas esperanças na Itália são as melhores possíveis. O ápice já passou e a tendência é que se normalize”, acredita Anderson Montenegro.

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