“Eu acho que é um preconceito muito velado”

por Sarah Viana

Inseridas em um contexto social opressor, as mulheres transsexuais enfretam cotidianamente a intolerância e o preconceito. Segundo o Mapa da Violência de Gênero, entre 2014 e 2017, 49% das mulheres transsexuais e transgêneras sofreram agressões físicas. Mesmo com a luta diária e na tentativa de conscientizar a população majoritariamente hétero e cisgênero (condição da pessoa cuja identidade de gênero corresponde ao gênero que lhe foi atribuído no nascimento), elas precisam também conquistar seu espaço como mulheres na sociedade.

É o caso da médica Lucy Rivka, mestre em Literatura, militante e mulher trans. Ela quebra paradigmas da nossa sociedade e, com toda a poesia dentro de si, promove para as mulheres e homens trans, sejam brancos ou negros, uma inspiração na vida. Lucy também atua como professora e contribui dentro do coletivo Transpassando, um lugar onde o combate à transfobia e demais preconceitos é feito pela formação humana, educacional e profissional. A médica atua em defesa das letras da sigla LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) e questiona paradigmas no universo da medicina. O Jornalismo NIC conversou com ela sobre a sua representatividade como mulher trans na medicina, sua atuação no coletivo Transpassando e sobre a militância trans.

 

Jornalismo NIC – Qual é a sua atuação no coletivo Transpassando?

Lucy Rivka: Eu comecei ano passado. O Transpassando (Criado em 2015) é um coletivo que surgiu por umas inquietações e problemas que aconteceram na Universidade Estadual do Ceará (UECE). Na verdade, surgiu por conta de uma briga com o reitor da universidade (gestão de 2015). Foi meio que uma decisão de alguns alunos. “Não, vamos tomar alguma atitude, vamos fazer alguma coisa, para mostrar que não é assim e vamos encher essa universidade de travesti”. No início, foi mais uma ideia de um cursinho e passaram a se desenvolver várias atividades. Hoje em dia, o Transpassando é um cursinho, mas está ligado com o CineTrans, que é um cineclube que acontece na UECE. Eu estou atuando como professora e acabo sendo meio que “pau pra toda” obra lá. Esse ano eu vou dar aula de Física. E também estou organizando questões de palestras com relação à saúde, ao uso de hormônios. 

 

JN – Como você se pauta no movimento feminista?

LR: A primeira coisa é que no movimento feminista tem lugar essas discussões de gênero. Qual é o lugar do masculino, qual é o lugar do feminino? Para além de ser trans, em primeiro lugar, eu sou uma mulher, então tem essa abrangência. O movimento feminista, para mim, eu tenho algumas linhas bem definidas, mas tem que ser, necessariamente, antirracista e anticapitalista. Nisso, vai a questão da transgeneridade, tudo vai entrar aí, porque têm todas as discussões de gênero como performance, do lugar da mulher, da opressão desse patriarcado, que, além de ser patriarcado, ele também é cis e é branco, e muitas vezes é hétero também. Apesar de que, se você pegar a sigla LGBTQI+ [Forma reduzida de LGBTT2QQIAAP, saiba mais aqui], você tem um grupo extremamente privilegiado, que está nessa letrinha do G. Principalmente, quando esse gay é cis e é branco, que hoje em dia conquistaram um espaço. Mas esse espaço foi conquistado justamente dentro do capitalismo, então eles se colocam muitas vezes mais perto do opressor do que dos oprimidos. Tanto que tem – se você procurar nos meios mais ligados às pessoas trans, ao movimento feminista -, as pessoas muitas vezes usam não mais o LGBT, mas vão falar muito para o público LBT, vão tirar o G.

 

JN – Como trazer a humanização na formação de médicos e médicas?

LR: O que eu acho que precisa ser revisto com muita urgência. Na verdade, é a formação médica. É até também umas das minhas grandes questões com a medicina. Desde a faculdade que eu não tenho parente médico, nunca tive amigos médicos. Meus amigos são todos das áreas de humanidades, via de regra. E eu caí na Medicina e a expectativa que eu tinha de médicos, eu tinha tirado do Guimarães Rosa, do Bulgákov [Mikhail Afanásievitch Bulgákov, escritor e dramaturgo russo], da Nise da Silveira [médica psiquiatra nascidacno Macéio]. Então eu cheguei e era outro mundo. Porque a formação médica, hoje, tem tanto conteúdo, tem tanta coisa e parece que se quer na escola médica formar um superespecialista em tudo. Então, você vai ter muito conteúdo técnico, é quase como se quisessem transformar a medicina numa ciência exata, enquanto que o conteúdo humano fica de lado. Eu lembro de ser olhada com espanto na faculdade, porque eu andava com meus livrinhos a tiracolo e não eram livros de medicina. Eu lia medicina para estudar para as matérias, mas, na minha vida, eu ia ler literatura, eu adorava. Na época da faculdade, eu lembro que estava lendo muito Dostoiévski [Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, escritorfilósofo e jornalista durante o Império Russo], lia muito esses autores russos e tal. Eu era uma pessoa “peixe fora d’água” ali e esse já era o primeiro ponto que me botava fora da água. Era essa abertura para essas questões mais amplas. Todo mundo tava ali para ser médico e ponto, sabe? Era uma coisa muito focada. Tem muitas matérias, as disciplinas são pesadas, mas eu acho que justamente a formação médica peca nesse aspecto.

 

JN – Você sofreu ou sofre preconceito dentro da área da medicina sendo uma mulher trans?

LR: Eu acho que é um preconceito muito velado, porque, queira ou não, mesmo eu sendo uma mulher trans, eu sou médica, sou branca, então eu tenho uma série de privilégios e estou numa posição de algum prestígio. Todo preconceito que vai ter é velado. Eu sei que têm colegas cirurgiões que não gostam que o paciente seja acompanhado por mim. Aparecem pacientes que preferem sempre serem atendidos por outros médicos do que por mim, mas esse tipo de instância é sempre mais comum vindo dos colegas do que vindo dos pacientes. Sempre foi, inclusive antes da transição. Comecei a transacionar depois dos 30 anos, já dentro da carreira médica e tudo, mas já tinha tatuagem, já tinha uma aparência não tão convencional para os médicos. O preconceito sempre foi dos colegas de profissão do que dos pacientes. Eu acho que, para a maioria dos pacientes, todas essas questões de visual e de gênero, justamente me humanizam e me trazem para mais perto deles. Eu já tive pacientes no interior [do Ceará], que me falavam de questões de sexualidade e tal, e começavam mais de uma vez com a frase: “Ai, eu não ia falar, mas como estou vendo como você é, eu vou falar”. É justamente porque os pacientes vêm uma pessoa para além de um médico.

 

JN – O que representa para você o Dia Internacional da Mulher?

LR: Pessoalmente, é uma data muito marcante, porque foi inclusive a data que contei da minha transição para a minha enteada. Na verdade, a minha esposa contou para minha enteada, que na época tinha 7 para 8 anos. Eu estava no trabalho e recebi as mensagens da minha enteada: “Tia Luci, a minha mãe contou que você é menina. Eu acho que ninguém falou isso para você, então eu vou falar: ‘Feliz Dia da Mulher’”. Então, pessoalmente, tem essa carga muito afetiva e muito forte. E, para além disso, eu vejo a data politicamente também e isso vai estar emaranhado com essa minha concepção afetiva, como um dia também de luta e de memória. Enfim, de um posicionamento que acho que tem que ser não só lembrado como um posicionamento de direitos das mulheres, mas sim de um posicionamento de uma luta mais ampla, que não é só pelos direitos das mulheres. Mas é contra aquilo que limita esses direitos para todas as mulheres, sejam elas cis, sejam elas trans, sejam elas brancas, sejam elas pretas. Claro que mulheres trans, mulheres pretas vão sofrer mais, mas o grande problema aí, para mim, é justamente o capitalismo e o patriarcado que são duas coisas que estão fundidas. 

 

 

 

 

 

 

 

 

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