Apostas esportivas: entre o lucro e o prejuízo

por Gabriel Lopes, Guilherme Moreira, Mateus Moura e Victor Mandarino

 

A prática de apostas esportivas online ganha cada vez mais adeptos com o passar do tempo. Um jogo da Copa do Mundo de 2018 registrou mais de 300 opções de aposta apenas no site Bet365, do Reino Unido, que hoje conta com cerca de 20 milhões de clientes. Os principais sites de aposta do mundo são o Bet365, SportingBet, Betfair, Betboo e Dafabet

A facilidade em criar contas nos sites e o baixo valor que pode ser investido são fatores importantes para a atração do público. A possibilidade de multiplicação do dinheiro, livre de impostos, é outro motivo importante para o sucesso desses endereços eletrônicos. Alguns multiplicadores chegam a aumentar o valor apostado em mais de 15 vezes, no caso de resultados improváveis. Combinações de vários placares também é uma maneira de incrementar o multiplicador, caso todos eles sejam confirmados.

Apesar da popularidade, os sites de apostas esportivas só são legalizados em alguns países do mundo. Dessa maneira, todos possuem sedes físicas nessas nações.

Banca de apostas

Pessoa analisando partidas esportivas. Foto: Inquirer

Apesar de ilegal, existem pessoas no Brasil que organizam bancas de apostas que consistem na unificação delas mediante um intermediário. Pedro das Couves (nome fictício), 20, liderou uma banca por cerca de um ano e meio. Segundo ele, sua média mensal de lucro variava entre dois e três mil reais. No melhor mês, ele chegou a lucrar 15 mil reais.

No melhor mês, o jovem organizava as apostas da seguinte maneira: os clientes faziam suas “bets”, apostas realizadas pelo usuário no site Bet365, tiravam print [cópia das telas] e mandavam a aposta via Whatsapp com o valor desejado. O organizador dava o aval e a partir daí a aposta era válida. Toda semana havia um acerto de contas, nas segundas ou terças-feiras. O pagamento variava, podendo ser efetuado pela banca ou pelo cliente, dependendo do vencedor da semana.

O organizador de apostas relata que a época em que a banca acumulou mais clientes foi durante a Copa do Mundo de 2018, quando 40 pessoas chegaram a participar. “Não tive que contribuir em nada, com nenhum valor mínimo. Era muito vantajoso porque a aposta a longo prazo, para quem não é profissional, é deficitária.”, comentou.

Apesar das vantagens, o momento da cobrança corriqueiramente era um problema. Muitos clientes se recusavam a pagar o que deviam por causa da ilegalidade da organização. “Muitos apostadores não pagavam o que deviam, muitos me devem até hoje, porque na hora de pagar questionavam: olha, isso é ilegal, se eu não quiser pagar eu não pago. Mas a maioria pagava”, revelou.

Pedro também disse que a banca tinha um cobrador para facilitar o pagamento, no caso dos clientes desejarem facilitar o abatimento ou recusarem o embolso da dívida.

​Além disso, Pedro fala que a banca, que está ativa há dez anos, nunca foi descoberta. Para ele, basta “não espalhar a notícia, é difícil uma banca ser descoberta”.

Os riscos

Em 4 de agosto de 2019, na décima terceira rodada do campeonato brasileiro, no calor de Salvador, o Flamengo enfrentou o Bahia, clube que, na época, estava à sete jogos sem vencer. O nutricionista Lucas Carvalho, 25, estava confiante na vitória rubro-negra, favorito no confronto. Os dois mil reais que havia investido na casa de aposta Bet365 foram colocados na vitória do Flamengo, que, de forma surpreendente, perdeu por 3×0. Em 90 minutos, Lucas viu todo seu dinheiro desaparecer. “Fiquei desolado, um sentimento horrível de incapacidade. Cheguei a entrar em depressão”, relata.

Vislumbrado com a falsa idéia de dinheiro fácil e rápido, o estudante de nutrição Edson Douglas, 25, entrou no mercado de apostas esportivas com muitas expectativas, mas pouca preparação. “Assim como todo apostador amador, estava iludido, pensando que o dinheiro nas apostas era fácil. O dinheiro move instantaneamente suas emoções, se perde, quer recuperar, se ganha, fica motivado a ganhar mais. Por isso, as casas de apostas estão cada vez mais ricas. Perdi cerca de seis mil reais até entender que, para ser lucrativo nesse tipo de mercado, é necessário muita disciplina, estudo e análise ”, conta.

No Brasil, casos como o de Lucas e Edson são comuns. Um ranking divulgado pela revista Economist, em 2014, revelou que os brasileiros perderam cerca de 4,1 bilhões de dólares com jogos de azar (apostas em sites, loterias, etc). Na cotação para o real, o valor chega a aproximadamente R$16,4 bilhões, superando, por exemplo, todas as construções ou reformas dos estádios da Copa do Mundo de 2010 e 2014, avaliadas em R$ 3,1 bilhões e R$ 8,348 bilhões, respectivamente. Os Estados Unidos ficaram no topo da lista, totalizando US$ 142,6 bilhões.

Confira o ranking dos países que acumulam a maior quantidade de dinheiro perdido pelos habitantes.

Infografia: Guilherme Moreira e Mateus Moura. Fonte: Forbes

A compulsão e seus perigos

Psicólogo Coelho Neto. Foto: Arquivo Pessoal

Perder dinheiro sempre será uma experiência desagradável. Frustração, raiva e desânimo, vários sentimentos negativos acumulados em torno daquele momento. É necessário estar atento, pois, ao se tornar algo habitual e compulsivo, as consequências podem resultar em sérios riscos financeiros e, principalmente, psicológicos. “O número de pessoas que possuem esse problema hoje [compulsão em apostas], já é, estatisticamente falando, bem elevado. Na maioria das vezes, essas pessoas possuem um estado de negação muito grande. Elas começam a se defender dos comentários de familiares e amigos que elas estão fazendo uma atividade normal, que têm o controle total da situação, embora seja mentira. A tendência é que comecem a entrar em um declínio financeiro, emocional e psicológico, afetando todos em seu entorno”, explica o psicólogo Coelho Neto, 52.

Conhecido cientificamente como ludopatia, a compulsão por jogo atinge cerca de 2,3% da população brasileira, segundo pesquisa realizada por Hermano Tavares, psiquiatra e professor da Universidade de São Paulo (USP). O transtorno pode, entretanto, causar outros vícios além dos jogos. “A pessoa fica tão condicionada a jogar compulsivamente que começa a ter problemas de ansiedade, passa a dedicar grande parte do dia ao jogo, o que faz com que ela falte o trabalho e negligencie a própria família, tornando-se impulsivo e agressivo. A compulsão pelo jogo pode, também, levar a outras compulsões, como vício em bebidas alcoólicas e drogas”, alerta Coelho.

De acordo com o psicólogo, é necessário que o paciente reconheça que está doente e, com apoio dos familiares, busque ajuda especializada. “A psicologia está ficando cada vez mais atual, trabalhando com diversas abordagens. No caso de jogadores compulsivos, é de uma eficácia a TCC, Terapia Cognitiva Comportamental, tratamento que irá trabalhar toda essa disfuncionalidade que está acontecendo com o paciente, desde que ele(a) esteja disposto a ser tratado, daí a importância de existir a conscientização e aceitação do problema”, esclarece.

Marco civil da internet

O Marco Civil da Internet, lei criada por Dilma Rousseff em 2014, estabelece diretrizes para o uso da web no Brasil — princípios, garantias, direitos e deveres das partes. Até dezembro de 2018, circulava no meio esportivo de apostas as normas contidas no decreto 3.688/41 (Lei de Contravenções Penais), que em seu art. 50 proibia a prática ou exploração de jogos de azar em todo o território nacional.

Com a entrada em vigor da lei 13.756/18, foi criada uma nova modalidade de apostas, denominada “apostas de quota fixa”. Ela consiste em um sistema de apostas relacionadas a eventos reais de temática esportiva e que deverá ser explorada, exclusivamente, em ambiente concorrencial, sendo possível a comercialização em quaisquer canais de distribuição comerciais físicos e virtuais (internet).

Lei Gambling Act 2005 – Reino Unido

Com mais de 100 mil pessoas trabalhando na indústria de jogos e totalizando mais de 8.400 casas de apostas, a Gambling Commission (órgão público não departamental executivo do governo do Reino Unido, responsável pela regulamentação e supervisão da lei de jogos de azar na Grã-Bretanha) decidiu criar a Lei Gambling Act, em 2005. A legislação conta com três objetivos principais: impedir que o jogo seja uma fonte de crime ou desordem, seja associado a um crime ou desordem ou seja usado para apoiar crimes; garantir que o jogo seja realizado de maneira justa e aberta e proteger crianças e outras pessoas vulneráveis ​​de serem prejudicadas ou exploradas pela prática.

Os jogos online foram incluídos no Gambling Act 2005 devido ao crescente número de jogadores do Reino Unido nos últimos anos. Uma pesquisa de 2010 mostra que 4% dos adultos no Reino Unido haviam apostado online, número que salta para mais de 11% se o National Lottery for incluído. O setor online da época mostrava uma participação de mercado de 12% de toda a indústria de jogos (regulamentada) do Reino Unido no mesmo período, um valor avaliado em quase US$ 2 bilhões.

Entre outubro de 2017 e setembro de 2018, a arrecadação total com jogos de azar foi de 14,5 bilhões em libra. Desse valor, cerca de 39% da arrecadação veio por meio do mercado online, ou seja, £5,6 bilhões. Com esse valor, seria possível reformar o Castelão, aproximadamente, 53 vezes, já que a reforma custou R$ 547,5 milhões aos cofres públicos do Ceará.

Com relação ao Brasil, enquanto o governo foca em acabar com os cassinos, as apostas online nunca foram regulamentadas. A Lei 13.756/2018, que autoriza apostas esportivas no Brasil, está em fase de regulamentação no Congresso Nacional. A minuta do decreto esteve liberada para consulta pública até o fim de setembro e recebeu mais de 2,6 mil contribuições. A expectativa é que o mercado, legalizado, possa movimentar até R$ 4 bilhões no país.

Nos últimos meses, a NetBet (casa de apostas online) ampliou a sua presença no futebol brasileiro com um grande incentivo financeiro, patrocinando três clubes cearenses: Fortaleza, Caucaia e Verdes Mares. Além dos demais clubes de futebol, a empresa  tem um acordo com o Basquete Cearense, que disputa o NBB.

Esta matéria foi produzida como trabalho da disciplina de Jornalismo Investigativo, para conferir o material original clique na imagem abaixo.

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