Games: o mercado e o desenvolvimento no Brasil

Por Raylane Marinho

Desde o início do milênio, os jogos passaram a ser tratados como um dos entretenimentos do futuro. Nada de livros, filmes e nem mesmo Netflix. São os jogos que são mais valorizados hoje em dia e movimentam milhões em todo o mundo. Os jovens são os principais consumidores desse mercado, que chega a faturar anualmente US$ 134 bilhões, segundo pesquisa feita pela desenvolvedora Ubisoft

No Brasil, o lucro para esse mercado é em torno de um bilhão por ano, e o mercado não para de crescer, o que levou o país a ser o 13º no mundo a lucrar com games. O reflexo desse crescimento levou o atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro a reduzir o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de modo a facilitar a aquisição e a expansão do mercado no país.

Com a criação de novos consoles e meios de se jogar, fica cada vez mais acessível ter um jogo por perto, até mesmo no próprio bolso – que é o caso dos celulares e tablets –  antes vistos apenas para o uso de aplicativos de mensagens e música, agora estão se tornando também um console (um sistema reprodutor de jogos).

O mercado

O crescimento do mercado gamer é visto em eventos como a Brasil Game Show (BGS), onde as tecnologias e produções tanto brasileiras quanto estrangeiras são apresentados anualmente para os consumidores de jogos. Para Raphael Martins, jornalista, são as tecnologias que estão ligadas a esse processo de expansão do mercado dos jogos. 

Raphael Martins, jornalista. Foto Arquivo Pessoal.

Segundo Raphael, a partir dos anos 90, quando os consoles de videogames começaram a ficar cada vez mais poderosos e com os saltos de tecnologia, a mídia mainstream não conseguiu mais ignorar esse negócio. “Isso foi sendo construído aos poucos, à medida que os aparelhos foram ficando mais poderosos, com a capacidade de contar histórias mais complexas e com gráficos mais realistas”, conta.

Raphael, que durante a vida acompanhou a trajetória de diferentes consoles e jogos, atualmente trabalha em um site sobre cultura nerd e geek. Para ele, com o envolvimento de astros de Hollywood houve uma forte adaptação da indústria dos games. “Essa convergência é algo que se torna cada vez mais forte e até mesmo quem não gosta de jogos de vídeo game se vê disposto a encarar o desafio de viver uma experiência nova, com jogos que mais parecem um filme interativo”, frisa.

Com o crescimento do mercado, eventos são realizados no Brasil para divulgar a produção nacional de games. “Eventos como a BGS [Brasil Games Show], que dão vez e voz aos produtores “indies”, acabam fortalecendo o mercado nacional de desenvolvimento de games e nos colocando no mapa”, conta Raphael. “O mercado nacional de games é o quarto maior do mundo, e aos poucos o país está se tornando um polo de exportação de profissionais dessa área para fora do Brasil”, completa sobre o fato de o cenário de desenvolvimento de jogos se tornar cada vez mais forte e popular graças a pequenos estúdios independentes.

Para ele, quem joga também vai ao cinema ou é fã de uma série de livros. “O público geek, que nunca perde um lançamento cinematográfico da Marvel ou relê à exaustão livros como Harry Potter ea Pedra Filosofal ou O Senhor dos Anéis. [Esses] são bons exemplos disso.”

A acessibilidade do mercado de jogos era um desafio. A relação entre aparelhos e mídia sempre foi um tanto desbalanceada – o que resultava na pirataria, entretanto atualmente o cenário está favorável para essa relação. “A pirataria está controlada e tanto jogadores como empresas aproveitam uma relação simbiótica de benefício mútuo e onde o fácil acesso a ferramentas de informática e programação tornam possível um mercado de desenvolvimento de jogos 100% brasileiro”, conta.

 “O mercado nacional de games só tem a crescer, e caso o governo decida, por um milagre, facilitar isso um pouquinho, ele explodirá como nunca”, diz Raphael Martins, jornalista e redator de um portal geek.

A formação

A paixão por jogos é um dos requisitos para se tornar um desenvolvedor, outro requisito fundamental é gostar de tecnologias, descobrir e se manter atualizado das novas plataformas tecnológicas. A caminhada até o sucesso não é fácil, e assim como outras profissões, requer tempo e investimento financeiro. 

Antônio Lucas, 23, estudante do curso de Sistemas e Mídias Digitais, na UFC.

Foi assim que Antônio Lucas se apaixonou pelo mundo dos jogos desde criança. Gamer desde criança, herdou do falecido tio um PlayStation 2, e hoje aos 23 anos, está cursando Sistemas e Mídias Digitais, na Universidade Federal do Ceará (UFC). “Grande parte dos projetos da área, você acaba precisando de conhecimento em áreas como design, IHC (interação humano-computador) e outras áreas dependendo do que está a ser desenvolvido”, conta. “Por esse motivo escolhi o curso de Sistemas e Mídias Digitais, já que o mesmo trabalha com todas essas áreas, dando o conhecimento básico e podendo escolher em qual você quer se aperfeiçoar.”

O curso de Sistemas e Mídias Digitais é um dos cursos mais novos na UFC.  Ele envolve diferentes áreas ligadas à tecnologia, mas onde dominam o interesse por programação web em geral e áreas ligadas ao design de jogos. Ofertado desde 2010, é um curso diurno e noturno, com duração de 4 anos.

A popularidade dos games hoje ocorre pela facilidade de acesso aos jogos, segundo o estudante, a plataforma mobile é a que mais cresce nos últimos anos e tem muito mais a crescer no futuro.

Para Davi Tabosa, também estudante do curso de Sistemas e Mídias Digitais, a existência de jogos grátis disponíveis nas lojas de aplicativos, facilita a difusão desse tipo de conteúdo. “Hoje em dia muitas pessoas possuem smartphones. Acho que une o útil ao agradável”.

Davi também tem uma relação com os jogos desde a infância onde já se fascinava com os computadores e os jogos nas aulas de informática na escola, e se divertia com a quantidade de jogos disponibilizados nas aulas. Antes de entrar definitivamente para a faculdade, concluiu o curso técnico em Telecomunicações pelo Instituto Federal do Ceará (IFCE), onde aprendeu ainda mais sobre o assunto. Já na faculdade, ele quer focar principalmente na área de jogos digitais.

O estudante que está trabalhando em seu TCC e em um projeto de jogo independente, e acha importante a existência de softwares gratuitos para começar a desenvolver os primeiros passos de um game. “Nunca foi tão fácil iniciar na indústria de jogos, com diversos softwares gratuitos e de qualidade. Muitas distribuidoras de jogos focam em publicar jogos independentes”, salienta. A variedade de softwares gratuitos ajuda a aqueles que desejam desenvolver um jogo em boa parte sozinho, embora um jogo demande uma equipe bastante diversificada para ser produzido. 

A empresa

O termo “Empresa Júnior” é usado para descrever uma associação entre estudantes que tem a função de gerir projetos ligados ao empreendedorismo e a pesquisa. Elas são criadas dentro das universidades e movimentam a economia, além da possibilidade de desenvolverem projetos com marcas famosas no país.

E é como uma Empresa Júnior que o grupo The Guardian Dog (TGD) foi fundado. Criado pelo estudante Henrique Artur, o TGD Studio surgiu com o intuito de treinar aqueles que estejam dispostos a trabalhar com o desenvolvimento de jogos. Artur, que desde criança teve contato com o mundo dos computadores, fez um curso aos 14 anos e desde então quis trabalhar desenvolvendo jogos. Ao entrar no curso de Sistemas e Mídias Digitais, acrescentou a ideia de administrar uma própria empresa à sua paixão “Eu pensava que seria programador, mas percebi que sou mais da parte de negócios do que da tecnologia”, conta.

Com a ideia tomando forma, Artur realizou diversas pesquisas para levar o TGD Studio adiante: procurou a Brasil Júnior – uma associação que gerencia as empresas júnior no país e também a FEJECE (Federação das Empresas Juniores do Estado do Ceará). Com a empresa já criada, surgiram então novos desafios, como o apoio da UFC. Artur apresentou a proposta do TGD para os professores e com facilidade o mesmo foi aprovado.

A universidade fornece uma sala para o empreendimento e um professor doou um computador para a equipe trabalhar, além também de um auxílio financeiro que ajuda o grupo com o desenvolvimento de seus projetos. 

Jogo

O TGD Studio está desenvolvendo um jogo, focado para os computadores. “No primeiro jogo, pensamos apenas no PC por uma questão mercadológica, pois o ambiente mobile exige muito marketing e financeiro para ter visibilidade, enquanto no PC é muito mais fácil gerenciar uma comunidade, pois é mais fácil e o investimento é menor”, explica Artur.

Para Álvaro Carvalho, líder de tecnologia da empresa, a interatividade também é um dos quesitos que tornam os jogos populares hoje. Para o estudante, a interatividade faz com que as pessoas consigam fazer nos games coisas que não podem ser feitas na vida real. Álvaro, que na infância se apaixonou por um modificador de fases de um jogo, foi o mais recente membro a fazer parte do TGD Studio.

Não é fácil fazer um jogo. Desenvolver um jogo grande requer trabalho em equipe, múltiplos conhecimentos e uma linha de produção onde cada um desempenha seu papel. Seja no design ou na programação, e o The Guardian Dog está de portas abertas para os estudantes que quiserem fazer parte do mercado e do desenvolvimento de jogos.

É com dedicação e com um forte trabalho em equipe que é possível transformar uma ideia em um grande sucesso do mercado. Não só em equipe também, é sim possível desenvolver um jogo sozinho, desde que não seja grande nem complexo. Não há limites para ser um desenvolvedor, e o conhecimento é o responsável por abrir portas em meio aos tempos difíceis que vivemos hoje.

Esta matéria foi produzida na disciplina de Jornalismo Digital, confira a matéria na íntegra no link original, clicando na imagem abaixo:

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