Aterramento da Beira Mar é contrário a onda de um futuro sustentável

Por Nataly Rodrigues, Vinicius Lima e Lívia Mariáh

Beira-Mar antigamente. Foto: Reprodução

Eternizada por Belchior na música Mucuripe, a Avenida Beira Mar, um dos principais cartões postais  da cidade de Fortaleza, é tão famosa quanto polêmica.

Antes conhecida por ser o lar de pescadores e em seguida por conter luxuosas casas de veraneio, a Avenida, inicialmente chamada de Presidente Kennedy, começou a ser construída no ano de 1961, no governo do prefeito Manoel Cordeiro Neto. A construção impactou diretamente a comunidade de pescadores da época, já que suas casas foram transferidas para outros bairros como Varjota.

Desde então as reformas e requalificação da orla são motivos de controvérsia, pois a ocupação da avenida tem causado consequências socioambientais, sofridos tanto pela população mais pobre – que logo nas primeiras intervenções, passaram pela mudança de suas casas e consequentemente em suas subsistências –  como também pela vasta diversidade dos ecossistemas aquáticos. 

No ano de 2012, uma faixa de terra foi acrescentada, na época questionamentos foram levantados mediante o que a obra poderia acarretar no cotidiano da praia. Entretanto, é sobre a requalificação de 2019 que a contestação, com relação às problemática das obras surge com mais força.

Aterramento 2019

Local das obras de aterramento da Beira-Mar. Foto: Vinicius Lima

O projeto apoiado pelo atual governador Camilo Santana está incluso no programa “Juntos por Fortaleza”, parceria da Prefeitura com o Governo do Estado, que tem como objetivo alavancar investimentos públicos em diversas áreas, como de infraestrutura, educação, segurança e turismo.

A obra do novo aterro prevê que a faixa de areia entre os espigões da Avenida Rui Barbosa e a Avenida Desembargador Moreira aumente em mais 40 metros para dentro do mar, totalizando 80 metros de areia, para isso deverão ser colocados cerca de um milhão de metros cúbicos (m³) de sedimentos no mar.

Entenda processo do aterramento aqui.

Prevista para ser concluída em 2020, as obras fazem parte do complexo de requalificação da Avenida Beira Mar e está orçada em cerca de R$ 68 milhões, de acordo com site do governo do Estado.

O projeto idealizado pela prefeitura propõe que a partir da engorda do aterro serão construídos um amplo calçadão com via paisagística de acesso a veículos, ciclovia, pista para corrida, equipamentos esportivos, parque infantil, quiosques de alimentação, além de nova iluminação e paisagismo.

Vídeo da maquete eletrônica 

Pedro Tavares, 24, que faz parte do movimento “Aterrar pra quê”, manifesta que apesar da promessa do aterramento poder trazer investimento econômico, a nossa cidade litorânea é prejudicada. “Acreditamos que nenhum lucro é suficiente para que uma agressão a natureza dessas proporções seja realizada. Fortaleza só perde quando insiste em reproduzir um sistema de cidade medieval que não entende o meio ambiente como bem comum a ser preservado”, afirma voluntário do Greenpeace Fortaleza.

Propor projetos sustentáveis e ecológicos é um dos principais fundamentos pregados na agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). Com o objetivo de conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos, a ONU indica que 40% dos oceanos do mundo são altamente afetados pelas atividades humanas, incluindo poluição, diminuição de pesca e perda de habitats costeiros. O projeto de requalificação da avenida Beira-Mar torna-se contrário a estes objetivos já que a obra acarreta impactos negativos ao corais – recém descobertos – que serão aterrados.

Foto: Vinicius Lima

Problemáticas da obra

Movimentos ambientalistas como o Instituto Verdeluz contestam a proposta da Nova Beira-Mar. “Esse aterramento é um crime ambiental com consequências graves ao ambiente marinho e à própria sociedade, efeitos ainda incalculáveis uma vez que nenhum estudo de impacto ambiental à fauna marinha foi realizado antes do início das obras – estudos de impacto biológico tanto da área aterrada como da jazida  de sedimento utilizada”, afirma Ícaro Ben Hur, 21, voluntário do Instituto Verdeluz. 

Placa da Prefeitura de Fortaleza informando sobre as obras na área. Foto: Vinicius Lima

Diante do posicionamento contrário, das organizações ambientalistas, e alerta a respeito das problemática do novo aterro, o Ministério Público Federal (MPF) fez uma análise técnica do estudo realizado em 2009 pelo Laboratório de Gestão Integrada da Zona Costeira (Lagizc) da Universidade Estadual do Ceará (Uece). O documento de dez anos atrás indica que não haverá impactos negativos significativos da obra dos aterros sobre o meio ambiente marinho.

Após análise técnica, o MPF constata a evolução positiva na proposta de gestão ambiental da obra de engorda das praias de Iracema e Meireles. Apesar que ainda assim recomenda um serviço de monitoramento – que não inclui as tartarugas marinhas – que deve ser realizado pela Prefeitura de Fortaleza em parceria com a Universidade Estadual do Ceará (Uece), Universidade Federal do Ceará (UFC) e o Instituto Aquasis. 

Impacto ambiental

O estudante de oceanografia Ícaro Ben Hur, alerta sobre as consequências que a obra pode causar. “Os ambientes recifais são de extrema importância para diversos processos que, quando abalados, geram um efeito cascata, tanto no equilíbrio ambiental da área afetada e de áreas adjacentes, como também em atividades econômicas e sociais”, ele ainda ressalta que é possível haver uma erradicação parcial ou total da biodiversidade local, que consequentemente afeta também a pesca artesanal, além das espécies como tartarugas marinhas e o boto-cinza, patrimônio natural do município de Fortaleza.

O Geógrafo, Pedro Tavares, também explica o prejuízo ambiental que o novo aterro causa. “O processo de dragagem para o aterro é um processo muito violento para o ecossistema local. O aterramento dos corais que existiam na área têm impacto direto no habitat de tartarugas, golfinhos e muitos outros animais que se alimentam e reproduzem na região”.

Impacto Socioeconômico

Luz Agnaldo, 31, trabalha na feirinha da Beira Mar há 12 anos, ele conta da dificuldade o que está enfrentando com a obra do novo aterro. “As vendas caíram, porque houve a mudança de local e a gente não conhece tão bem aqui [a feirinha da Beira-mar foi reposicionada do intervalo entre as ruas Visconde de Mauá e Oswaldo Cruz para o Aterro em frente ao Ideal Clube, entre as ruas Rui Barbosa e Carlos Vasconcelos] além de não ter sido divulgado. Lá tinha ponto mais comerciais, aqui a gente não ver nada”, ele relata que suas vendas diminuíram em mais de 50% por conta da obra. 

Apesar dos transtornos econômicos – dos comerciantes locais –  causados pela obra, a expectativa por melhorias e maior rendimento dá esperanças a Francisco Eudes, 50. Ele conta que 90% de suas vendas baixaram, mas espera que a obra, ao ser concluída, traga benefícios. “Depois que tudo estiver pronto a tendência é melhorar. A gente deseja que seja assim”.

Esta matéria foi produzida na disciplina de Jornalismo Digital, confira a matéria na íntegra no link original, clicando na imagem abaixo:

 

 

 

 

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