Consequências do uso de inibidor de apetite que causou a morte de jovem no Piauí

Por Gabriela Paiva, Lara Monteiro e Sarah Sousa

 

A morte repentina de uma jovem universitária, em novembro de 2018, no Piauí, chamou a atenção de grande parte dos consumidores deste medicamento. A jovem se chamava Luanna Raquel Eufrásio (de apenas 23 anos) e morreu com a suspeita de intoxicação alimentar de acordo com o atestado de óbito emitido pela unidade de saúde.

Embalagem do Redufite. Foto: Reprodução

Luanna estava consumindo o Redufite, um inibidor de apetite, que foi indicado como a principal causa da morte da jovem. A universitária de Oeiras, sul do Piauí, havia iniciado o uso do inibidor uma semana antes de vir a óbito e relatou a sua colega Marianny Carvalho que sentia diversos sintomas, como dores de cabeça, tontura e enjoo. Apesar dos efeitos colaterais, não suspendeu o uso,  pois eram sintomas previstos pelos revendedores do produto. Luana tomou o remédio por 7 dias e passou a relatar sintomas depois do quarto dia. Ao sétimo dia, faleceu. A família da estudante foi procurada, mas não pode dar mais detalhes sobre o episódio, pois o caso está em processo judicial.

Marianny Carvalho, colega da universitária, que também estava consumindo o medicamento, em uma entrevista concedida a nossa equipe relatou sentir diversos efeitos colaterais e conta que adquiriu uma trombose em decorrência do uso do produto e que busca tratamento até os dias atuais. “O Redufite mudou a minha vida completamente. Hoje, meu organismo não funciona mais como antes e eu associo tudo isso a ele.” Marianny conta que ao comprar o produto, recebeu dos revendedores uma lista de sintomas que seriam considerados normais, mas sofreu outros sintomas que não estavam na lista. “Eu cheguei a desmaiar diversas vezes e minha pressão baixava muito”, disse.

Pílulas. Foto: Reprodução

Assim como Luana Raquel e Marianny Carvalho, outros indivíduos na busca pelo emagrecimento rápido já fizeram o uso de inibidores de apetite e relatam em depoimento a experiência que tiveram quanto ao uso desses produtos. Em conversa com K.S (a entrevistada não quis se identificar), 29, a mulher conta que no hospital em que trabalhava observou de perto várias pessoas na UTI devido a estes remédios. “Eu trabalho em laboratório, e depois do médico somos os primeiros a chegar no paciente que chega com urgência. Eu ouvia a moça falar que a amiga estava tomando Redufit […] os médicos já entubam logo.”

A mulher confessa também que já fez uso do medicamento por 2 dias, mas que parou por medo. “Minha pressão baixou tanto que quase convulsionei, meus nervos começaram a enrolar, não conseguia falar. Minhas mãos e pés atrofiaram. Eu sabia que ia convulsionar.” Ela conta que depois de ver os casos no hospital não tomou mais. Ela estava certa que passou mal por conta do produto.

Entretanto, o problema dos inibidores de apetite vai muito além de um medicamento em específico. Arianne Cândido, 33, fez uso de um inibidor parecido com o anteriormente já citado. Este medicamento também promete um emagrecimento rápido, o que é cumprido com eficácia. Em contrapartida, os efeitos colaterais tendem a ser tão perigosos quanto. “Boca seca. Muita urina. Tontura. Me deixou mais deprimida, dando-me uma tristeza inexplicável e aceleração no coração. […] é uma faca de dois gumes.”, relata Arianne. 

Apesar do inibidor que causou a morte da jovem Luanna não estar mais em circulação, ainda existem outros produtos com outros nomes e rótulos sendo comercializados no mercado pelo mesmo fornecedor do antigo inibidor proibido pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Em conversas com os revendedores dos novos produtos, eles afirmam que o fornecedor é o mesmo e que efeitos no organismo são similares aos antigos.

Diálogo em uma rede social com uma página revendedora de um produto inibidor de apetite. Foto: Gabriela Paiva, Lara Monteiro e Sarah Sousa

Pressão social e venda de suplementos no Brasil

Na atualidade, com o advento das mídias sociais, é evidente a pressão social para ter um “corpo perfeito” (magro). Uma pesquisa divulgada em 2014 pela Casa do Adolescente, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, mostrou que 77% das adolescentes apresentavam predisposição a desenvolver algum distúrbio alimentar como anorexia, bulimia ou compulsão por comer. Dentre os outros dados, 85% afirmaram acreditar que existe um padrão de beleza socialmente imposto, 46% disseram que mulheres magras são mais felizes e 55% gostariam que fosse possível acordar magras. Logo, o imediatismo para estar dentro do “padrão”, leva muitos indivíduos a buscarem resultados rápidos, sem passar por um processo de reeducação alimentar. 

Na rotina de muitos brasileiros, no que se refere às dietas alimentares, 24% fazem regimes especiais enquanto 76% não fazem nenhuma dieta. 55% das mulheres que afirmam fazer alguma dieta a decisão é espontânea, dessas, 27% têm alguma orientação médica, o que faz com que mais da metade dos brasileiros, aproximadamente 54%, façam uso de suplementos. Esses dados foram indicados por uma pesquisa feita pela ABIAD (Associação Brasileira da Indústria Brasileira para Fins Especiais e Congêneres). Com isso, a venda de suplementos é impulsionada no país e de acordo com a Associação Brasileira dos Fabricantes de Suplementos Nutricionais e Alimentos para Fins Especiais, a Brasnutri, o Brasil tem hoje 8 mil pontos de vendas de suplementos. Para 2019, a expectativa é que o setor de suplementos cresça em 11%.

Diante disso, alguns produtos vendidos como suplementos naturais que funcionam como  inibidores de apetite atraem um grande público, principalmente por serem divulgados por meio de propagandas apelativas, as quais prometem a perda de até 13 quilos em 30 dias. Contudo, é um método de emagrecimento, que além de ineficaz, pode causar graves problemas de saúde na vida desses usuários.

Prejuízos para a saúde

Nutricionista Lucilia Medeiros. Foto: Gabriela Paiva, Lara Monteiro e Sarah Sousa

A perda de peso relacionada a esses produtos geralmente é muito rápida. Segundo a nutricionista Lucilia Medeiros, o emagrecimento imediato é ocasionado por inanição ou por desidratação. O consumidor reduz a quantidade de alimentos e carboidratos – responsáveis por armazenar água no organismo –  e automaticamente o corpo perde água e desidrata. A desidratação ocorre principalmente por meio da sudorese e pela urina. Além disso, a medicação pode causar diarreia, excesso de urina, suor e até mesmo distúrbios psiquiátricos mais graves, como delírio e depressão.

“Eu recebi muitos pacientes com sintomas de síndrome do pânico e depressão depois do uso do Redufite. Fora o reganho de peso de 100% dos pacientes que já utilizaram”, relata a nutricionista. Isso significa uma perda de peso ilusória, pois quando o usuário volta a se reidratar ele terá um ganho de peso rápido novamente, conhecido como efeito rebote.

De acordo com a nutricionista, esses medicamentos costumam agir no organismo das pessoas da seguinte forma: o corpo desidrata rapidamente com perda de eletrólitos, como sódio e potássio; geralmente, apresenta sintomas graves, como tontura, náusea, enxaqueca e até mesmo câimbra, todos estes relacionados à desidratação extrema, podendo ocasionar até a morte do indivíduo. “Tudo aquilo que desequilibra os nossos eletrólitos é incompatível com a vida”, acrescenta a nutricionista.

A nutricionista também alerta quanto ao uso de qualquer medicação que tenha como objetivo a perda de peso:

Em pleno século XXI ainda existem pessoas que acreditam em emagrecimentos milagrosos, sem que haja uma mudança nos hábitos alimentares ou mesmo no estilo de vida. Não existem milagres, é preciso fazer uma reeducação alimentar. Até as medicações fitoterápicas não têm resultados imediatos, a não ser que estejam causando algum efeito colateral. É importante que todos os produtos sejam fiscalizados pela Anvisa.Por mais que o site do produto pareça confiável é preciso verificar se ele é realmente aprovado pela Anvisa. 

Em um diálogo com a Anvisa, a agência informou que é preciso que haja um pedido de registro feito pelo laboratório produtor, a partir daí é feita uma análise avaliando a eficácia e segurança do produto, em que é decidido se o produto pode ou não está no mercado. Qualquer produto que não esteja dentro das normas da Anvisa pode apresentar risco de dano e ameaça à saúde, como é o caso do Redufite, inibidor de apetite produzido pela fábrica Forfarma e que não possui a aprovação da Anvisa.

Propaganda apelativa do um inibidor de apetite Redufite. Foto: Reprodução

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária acrescenta que “o conjunto de produtos irregulares inclui, entre outros, produtos sem registro ou notificação na Agência, produtos falsificados, roubados ou contrabandeados, produtos cuja propaganda é considerada inadequada e aqueles que apresentam desvios de qualidade em seu processo de fabricação.”

A farmacêutica Wellyda Galvão afirma que não tem como fazer uma apuração eficaz sem a certificação concreta dos verdadeiros componentes do produto. “O que tinha no Redufite que causou a morte dessas pessoas? Sem uma análise apurada do produto a gente não tem como saber. Se ele não tem registro, ele não existe. Se está ocorrendo a venda de um produto intitulado como ‘Redufite’, ‘Redufite Gold’ ou algum nome parecido que faça alusão ao Redufite, é um produto que continua irregular, pois continua sem registro.”, afirma a farmacêutica.

A solução

Assim sendo, o emagrecimento é o desejo de muitos indivíduos. Porém, antes da busca pela perda de peso, deve-se desenvolver uma rotina e uma alimentação saudável, pois essa alternativa constrói a melhor versão do nosso corpo. A aceitação das particularidades do nosso corpo é um caminho necessário para formação de uma boa consciência da limitação da nossa imagem, ou seja, devemos desejar a melhor versão de nós e essa versão não precisa está dentro do padrão.

Esta matéria foi produzida como trabalho da disciplina de Jornalismo Investigativo, para conferir o material original acesse o link clicando na imagem abaixo.

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