O avanço do mar na Praia do Icaraí: promessas, lutas e desejos de uma comunidade costeira

por Andressa Gomes e Dávilla Morais

 

A praia do Icaraí, desde os meados dos anos 2000, foi referência por sediar diversos eventos culturais, como suas calorosas festas de carnaval e campeonatos de surf como o Circuito Cearense e Nordestino de Surf.

Fortemente associada à exploração de seus recursos naturais e à ocupação urbana acelerada na região, a praia passou a abrigar diversos condomínios residenciais, casas de veraneio, restaurantes, variedade de lojas, escolas, academias, supermercados e farmácias.

Aos poucos, a zona de pescadores formados por índios locais, no qual vivem da colheita e da pesca, foram perdendo espaço, sendo afastados do litoral e adentrando no interior da região. Já a extensa faixa de areia, deu espaços aos novos condomínios e casas de vilegiatura.

Nesse contexto, a praia do Icaraí sofre atualmente um intenso processo de erosão associado à falta de organização do desenvolvimento das atividades antrópicas, como urbanização acelerada e desordenada além de indústrias e turismo não sustentáveis.

Ponto Turístico

Aspecto de ponto na Praia do Icaraí. Foto: Andressa Gomes e Dávilla Morais

Com praias retas de areia branca e batida, a praia de Icaraí, no município de Caucaia no Estado do Ceará, se chamava praia do Caraçuí durante os anos de 1960 . Na época ela era frequentada apenas pelos índios de Caucaia. 

Localizada a 20km da capital cearense, as praias do município atraem diversos turistas. Os seus 28km de litoral abrangem as praias do Icaraí, Iparana, Pacheco, Tabuba e Cumbuco, no qual podemos encontrar diversos condomínios, casas de veraneio e vilas de pescadores. 

Entretanto, a partir dos anos 70/80, diante do desenvolvimento da região metropolitana, houve a necessidade de construções residenciais de veraneio para a população de Fortaleza nas praias do Litoral Oeste. Impulsionado pela criação de novas rodovias que interligam a capital com a cidade interiorana, o fluxo de turistas aumentou, fazendo com que as estruturas do espaço urbano sofressem modificações.

Nos anos de 1990 até 2000 ocorre uma explosão no imobiliário da região, contudo, devido à falta de uma legislação rígida no município de Caucaia, alguns imóveis na praia do Icaraí não respeitaram o limite da faixa de praia. Durante o período áureo de vilegiatura, condomínios super luxuosos foram construídos no perfil ativo da praia.

Estudos mostram que a erosão do Icaraí se iniciou na década de 50 com as intervenções no litoral de Fortaleza através da construção do Porto do Mucuripe. Este fator somado à exploração constante de seus recursos, à falta de cuidado da população local e a ausência de fiscalização mais rigorosa pelos órgãos ambientais, resultou em intenso processo de erosão e progradação costeira.

Degradação do ambiente

Imagem via satélite do mar da Praia do Icaraí indo de encontro com as construções. Fonte: Google Earth

Erosão costeira é o recuo da linha da costa para o interior do continente como resultado da ação do vento e da agitação das marés em condições de fraca disponibilidade de sedimentos, no qual são removidos pelas ondas e transportado lateralmente pelas correntes de deriva litoral. Afora as mutações que se processam ciclicamente na natureza, as intervenções humanas nesse impacto são decorrentes da ocupação irregular da zona de derma (faixa de praia onde ficam as barracas), das dunas e áreas de mangue, estruturas protetoras da costa contra a erosão.

​O fenômeno pode trazer diversas consequências, dentre elas, a redução na largura da faixa de areia (praia), perda e desequilíbrio de habitats naturais, aumento na frequência de inundações decorrentes das ressacas, aumento da intrusão salina no aquífero costeiro, destruição de estruturas construídas pelo homem e perda do valor paisagístico e do potencial turístico da região. Com o intuito de aumentar a faixa de areia da praia do Icaraí, em 2010, foi construído um muro de contenção “big bag wall”, que planejava barra o avanço do mar, evitando que inúmeras casas e condomínios fossem engolidos pelo mar.

Entretanto, a praia do Icaraí, desde a década de 90, perdeu cerca de 300m da sua faixa de praia, ou seja, 1.5m a cada ano. As inúmeras intervenções na orla de Fortaleza aceleraram o processo natural de erosão das praias de Caucaia. 

Em 1939, deu início ao canteiro de obras para implantação da infraestrutura do primeiro trecho de cais. As primeiras funções executadas pela Companhia Nacional de Construções Civis e Hidráulicas (CIVILHIDRO), resultou a incorporação de 426 metros de cais acostável ao novo Porto de Fortaleza. Mudando  definitivamente, o destino natural das praias situadas no município de Caucaia. 

Lixo encontrado na Praia do Icaraí. Foto: Andressa Gomes e Dávilla Morais

De acordo com o professor e coordenador do Laboratório de Geologia Marinha e Aplicada (LGMA), George Satander, as consequências dessa erosão costeira são diversas, pois todo um ecossistema pode mudar com a entrada de água mais salina, porém, essa introdução é algo gradual e o ambiente se modifica aos poucos. A água salgada do mar iria penetrar nos estuários (onde ocorre a transição da água doce com a salgada), em seguida, os manguezais iriam se fazer presentes continente adentro. “Não é que seja ruim, você tem impactos bons e também negativos. A bruma, esse spray salino, também iria penetrar mais na costa, já que o mar estaria mais próximo, havendo também inundações em áreas baixas da zona costeira. Já com o crescimento de manguezais, antigos níveis de lama iriam aparecer, como é o caso também de Parajuru, na costa leste do Ceará”, afirmou.

Uma luta contínua

Surfistas na praia. Foto: Andressa Gomes e Dávilla Morais

Contudo, na praia do Icaraí, ainda há movimentação de surfistas, tal como Michel Rone Lima (37), advogado que pratica o esporte na região há mais de 20 anos. Questionado sobre as alterações ocorridas na praia do icaraí ao longo dos anos, ele comenta sobre a “evolução” do mar em suas adjacências. “Não podemos falar nem de evolução, né? Isso é um retrocesso. Nós surfistas percebemos que o mar avançou não só aqui, no Icaraí, mas também na praia da Taíba, e até mesmo na praia de Iracema. Aqui era polo de surf, hoje, eu estou vindo só para nadar e tomar um banho de mar. Não tem mais as mesmas ondas que tinham antigamente, aqui era mais tranquilo, a água era mais limpa. Hoje, a gente percebe que vem uma água turva, acho que isso é influência das construções que devem estar trazendo barro ou algum resíduo de obra. Isso não é só da natureza”, ressaltou.

Mar contido pelo muro de concreto. Foto: Andressa Gomes e Dávilla Morais

Além disso, o surfista comenta sobre o descaso com o mar, principalmente devido aos lixos que encontra enquanto pratica o esporte. “Diversas vezes encontramos lixo industrial, não é só lixo residencial como garrafa pet ou sacos plásticos. E aqui, se você observar, as pedras que encontramos na faixa litorânea, muitas das vezes são pedras de construção. Diversas vezes eu já pisei em tijolos ou concretos, outras vezes encontrei até peças de ferro também. O que eu acredito é que tenha uma relação direta com o aterro e a construção do Pecém”, disse.

Sobre a construção do novo Aterro da Praia de Iracema, Michel afirma que, na sua opinião, isso pode influencia em diversas coisas, em especial, as correntes marinhas. “Talvez lá não irá ter um impacto tão forte, mas sim aqui, nas regiões limítrofes. Claro, eu sou surfista, sou a favor da natureza, da conservação do ambiente, mas eu também acredito que nós, como seres humanos, somos responsáveis pela conservação do ambiente, temos o direito de ter uma boa relação com a com a natureza. Eu, sinceramente, não sei dizer se os espigões diminuem a potência das correntezas, mas sei que, onde eles são construídos viram verdadeiras lagoas. Muito bonito, muito apropriado para o banho, mas eu sei que isso para o surf não é bom. No que você constrói um espigão, ele vai estar mudando toda a correnteza, todo o sentido da formação das ondas”, afirmou.

Mas eu aprendi a conviver com o mar, eu tenho conseguido conviver com ele. Porque com a natureza você tem que aprender a conviver, saber como ela age, e claro, você não pode agredir. Se agredir você vai perder pra ela (José Mauro Mota)

José Mauro Mota é administrador a mais de 25 anos do Condomínio Residencial Morada do Sol Nascente, construído por volta da década de 80. Para ele, conter o avanço do mar é uma luta diária que vem percorrendo a mais de 35 anos. Mauro afirma que já utilizou de diversas técnicas para conter a fúria do oceano, contudo, até hoje, nenhuma realizada de forma efetiva. 

José Mauro Mota. Foto: Andressa Gomes e Dávilla Morais

“Eu e alguns outros funcionários do hotel, plantamos umas 20 carnaúba de dois em dois metros, e o mar veio comendo devagarinho até zerar. Porque aqui quando você chegava você não via o mar tão de perto, era uns 50/ 60 metros da cerca, alí se encontrava uma duna muito alta que impossibilitava de ver o mar. Mas minha luta é aqui nesta casa, este é meu quintal. Às 06h da manhã eu já estou rodando pelo condomínio, a primeira coisa que faço é ir a praia, agradecer a Deus por tá vivo e vendo o mar”, afirmou. 

A administração do Condomínio, para evitar o avanço do mar e consequentemente futuros danos com a estruturas do residencial, optou por construir muros de proteção, com diversos blocos de pedra. “Nós estamos nos piores meses: de setembro até janeiro, temos as marés mais difíceis, mas quando ela termina eu faço o socorro e ponho mais pedra. Esse enrocamento nos protege, não é a solução, a solução seria os espigões, mas não tem outra maneira”, comentou. O administrador ainda afirma sobre como aprendeu a lidar com o mar durante todos esses anos. “É o que eu digo, se eu perder para o mar 1 cm, recuar minha cerca 1 cm, eu fico triste. Mas eu aprendi a conviver com o mar, eu tenho conseguido conviver com ele. Porque com a natureza você tem que aprender a conviver, saber como ela age, e claro, você não pode agredir. Se agredir você vai perder pra ela”, destacou.

Sobre os diversos impactos da praia de Iracema, com a construção de espigões e aterramentos feitos na orla, Mauro elabora as suas próprias conclusões lógicas. “Eu discuti isso com geólogo, pessoal do Ibama lá de Fortaleza, nos diversos dias em que fui para a Assembléia. Eles falam muito tecnicamente, e eu falo simples, por que vejo a realidade disso aqui. Se você pega o mar, e expulsar toda água para um outro canto, onde ela derrama? Pra direita e pra esquerda. Na hora que você empurrar a água pra frente, ela vai para um dos dois lados, então ela vazou muito para cá. Esses últimos espigões que fizeram na Barra e mais outros aterramento, isso é um absurdo. Somos nós que teremos que repor toda essa areia que eles tiraram. O mar vai querer ela de volta, então ele vai puxar de algum canto daqui, é a gente que sofre com tudo isso”, disse.

Espigões da Praia de Iracema e o Porto do Mucuripe

Seja para conter o avanço do mar ou para trazer opções de lazer como a prática de esportes e a pesca esportiva, os espigões fazem parte da paisagem da cidade e viraram ponto de encontro para amigos, famílias e casais. Da praia da Barra ao Serviluz, a orla de Fortaleza conta com 15 espigões. A Praia de Iracema, entretanto, sofreu com o avanço do mar após a construção do Porto do Mucuripe na década de 1950. 

Espigões em praia. Foto: Reprodução

O Porto do Mucuripe é um dos principais portos da navegação de cabotagem do Brasil em movimentação de cargas. Getúlio Vargas, com o Decreto-Lei 544 de 7 de julho de 1938, decidiu sobre a localização do novo porto de Fortaleza definindo a Enseada do Mucuripe como o novo local. No ano seguinte, 1939, foi instalado o canteiro de obras para construção do primeiro trecho de cais. Foram construídos 426 metros de cais acostável ao Porto de Fortaleza pela Companhia Nacional de Construções Civis e Hidráulicas.

Poder público

Em contato com a Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Caucaia, ficou estabelecido, por meio de uma nota de esclarecimento que, a gestão construiu uma barreira de contenção (a Big Bag Wall), com o intuito de conter o avanço do mar. O projeto têm evitado diversos desastres na região, contudo, essa estrutura sozinha, não soluciona o problema. Por ter ciência disso, a prefeitura procura viabilizar recursos federais para a construção de espigões, assim como pedem as reivindicações dos moradores do litoral. De acordo com a assessoria, a ideia é que sejam feitos seis equipamentos do tipo, contudo, o município aguarda a liberação do recursos pelo Governo Federal, para que assim, a obra possa ser iniciada.

Durante o período de construção dos condomínios e casas de veraneio no litoral de Caucaia, pouco se tinha conhecimento de leis específicas para o assunto. Sabe-se que, o município não era regido por um plano diretor, com o intuito de proteger sua área ambiental, em especial, as restingas. Existem três tipos de leis ambientais vigentes, com o objetivo de determinar ações nas diversas áreas que almejam ser ocupadas. 

Cartaz de campanha do Z.E.E. Foto: Divulgação

A primeira é “Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro”, trata-se de uma delineação da costa brasileira, que detalha todo o zoneamento ecológico e econômico da região. É um projeto que limita e define o que pode, ou não, ser articulado naquela área específica. Entretanto, sua efetividade é válida apenas para cada Estado em particular.   

De acordo com o João Alfredo, professor e presidente da Comissão de Direito Ambiental da OAB-CE, deve-se observar as diversas leis que abrangem o território brasileiro, o Estado do Ceará e o Município de Caucaia. “No Ceará há um atraso imenso. Agora que estamos começando a fazer Audiências Públicas para elaboração do Zoneamento Econômico Ecológico (Z.E.E) no litoral. O zoneamento é extremamente importante, independente de tê-lo ou não, é essencial para a obrigatoriedade de qualquer obra que será construída na zona costeira. Por isso, todas as construções a serem realizadas, devem passar por um estudo prévio de impacto ambiental, conhecido como ‘Estudo de Impacto Ambiental Relatório de Impacto do Meio Ambiente’(EIA/RIMA), para que assim, seja autorizado o licenciamento dessa obra”, argumentou.

Esta matéria foi produzida como trabalho da disciplina de Jornalismo Digital, para conferir a publicação original na íntegra acesse o link clicando na imagem abaixo.

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