A resistência do povo negro diante de sua história negada

Por Nataly Rodrigues

No poema “Vozes-mulheres”, Conceição Evaristo alude à sua ancestralidade e da população negra do nosso país:

A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida.

O poema da escritora traz à tona memórias de um passado doloroso e intrínseco à história do Brasil. O sangue derramado, as lutas e a resistência do povo negro é o marco da formação do nosso país. A negritude constitui a sociedade brasileira não em pequena parcela, mas em sua grande maioria. No entanto, por séculos foram negados essa influência. Por 300 anos negros e negras foram escravizados, contudo, mesmo quando abolida a escravidão, continuaram sendo oprimidos.

O lugar do preto foi ditado na margem, sair desta posição e se colocar no centro para assim serem vistos, só foi possível através de luta e resistência. Todavia, apesar de estarmos no século XXI, os pretos ainda são majoritariamente marginalizados e poucos são vistos como referência no Brasil.

Davi Silva, estudante de Geografia e militante do Movimento Negro Unificado (MNU). Foto: Arquivo Pessoal

“O racismo está enraizado na nossa sociedade, e [em] todo nosso processo de construção  social. A partir da colonização, há mais de 500 anos, o nosso povo vem sendo apagado, a nossa história vem sendo negada, desde que nossos ancestrais foram tirados da África e trazidos para as terras da América”, relata Davi Silva, 20, estudante de Geografia e militante do Movimento Negro Unificado (MNU).

A realidade do Brasil ainda é definida pela desigualdade, as estatísticas refletem a contínua marginalização de mais da metade dos brasileiros, dado que negros representam 54% da população do país, segundo dados divulgados este ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública analisou 5.896 boletins de ocorrência por mortes decorrentes de intervenções policiais, entre os anos de 2015 e 2016, o que representa 78% do total das mortes no período, e identificou que 76,2% das vítimas desse tipo de crime são negras. Casos recentes, como de Ágatha Félix, criança de 8 anos que foi morta por tiros da polícia militar e Elvaldo Rosa dos Santos, que foi morto após o exército disparar 80 tiros no carro que estava sua família, transformam os números em nomes.

O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, com 726 mil presos, destes 64% são pessoas negras. De acordo com o IBGE, o rendimento médio domiciliar por pessoa, mostra que o de pretos e pardos era de R$ 934 em 2018. No mesmo ano, os brancos ganhavam, em média, R$ 1.846 – quase o dobro.  

Todos esses fatos sociais têm um fundamento, não são meras estatísticas baseada em coincidências. Como disse Angela Davis, filósofa estadunidense. “Em uma sociedade racista, não ser racista não é o bastante. Temos que ser antirracista”.

Infografia: Rafaela Alves e Aldeci Tomaz

Novembro Negro

O significado do Novembro Negro testifica uma continuidade na obstinação por ocupar espaços antes negados e pela luta por equidade. O professor de Geografia do ensino médio, Diego Lima, 27, fundamenta sobre esta data. “Muitas pessoas questionam o porquê de falar sobre a Consciência Negra, é porque tem gente que morre por ser preto(a)”.

O mês da Consciência Negra evoca as narrativas do povo negro, elucida suas lutas e constante resistência, uma delas é a história de Zumbi e Dandara dos Palmares, que são considerados heróis da história da sociedade brasileira. Líderes do Quilombo Palmares – comunidade livre formada por escravos fugitivos das fazendas – lutaram contra o regime escravista e resistiram juntos com aproximadamente trinta mil habitantes.

Quilombo dos Palmares. Foto: Reprodução

Dandara suicidou-se depois de ser presa, em 6 de fevereiro de 1694, para não retornar à condição de escrava. O ataque do bandeirante Domingos Jorge Velho ao Quilombo dos Palmares causou uma intensa batalha que destruiu a sede do quilombo. Mesmo ferido, Zumbi consegue fugir. Porém, é traído e entregue às tropas do bandeirante. No dia 20 de novembro de 1695, Zumbi foi degolado, data esta que simboliza a Consciência Negra.

Davi ratifica a importância desta data para retomar a história da população negra. “É importantíssimo ter um mês de Consciência Negra, principalmente que seja de lembrança de que estamos resistindo. Mesmo com toda injustiça que foi feita, e que ainda é causada ao povo negro, a gente tem essa voz. Estamos lutando para buscar aquilo que foi nos tirado”.

Diego Lima, professor de geografia. Foto: Reprodução

Resistência e luta estão presentes na história do povo negro desde a época do regime escravocrata, contudo, a dor não é o ínicio de suas narrativas. Nos primórdios civilizatórios, todo o continente Africano já carregava a riqueza de suas culturas e saberes tradicionais. O Egito é um dos exemplos de civilização mais avançada para a época. 

Diego conta que é preciso ir além de resistir. “Se não resistimos, nós morremos. Mas nós temos também que existir, praticar nossas culturas, manter nossas relações sociais e ocupar os espaços. Os nossos ancestrais resistiram, porém, temos que dar um passo à frente, existindo, produzindo nossas culturas”.

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