Onda de manifestações faz história e apresenta uma face até então pouco conhecida do Chile

Por Alan Melo

Clima hostil e de muita repressão. Essa é a realidade chilena desde o dia 18 de outubro, quando ocorreu a primeira das várias manifestações que vêm assolando o país. Os protestos decorrem de uma grande indignação do povo chileno, que teve como estopim a medida governamental para o aumento da passagem do metrô em 30 pesos, atingindo um valor de 830 pesos (por volta de R$ 4,70). Mas isso foi apenas o estopim, o Chile já passava por graves problemas sociais. 

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o país é uma das nações mais desiguais do mundo. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística do Chile, metade dos trabalhadores recebe um salário igual ou inferior a 400 mil pesos (R$2.280). No país, os 5% mais ricos da população têm renda 830 vezes maior do que os 5% mais pobres, e um a cada três maiores de 18 anos não tem condições de financiar seu própio de custo de vida.  

Luciana Serafim. Foto: Arquivo Pessoal

“Quando fui para o Chile, no começo desse ano, percebi que o país era um barril de pólvora que poderia explodir a qualquer momento. Notei que os preços aumentaram de forma exorbitante em relação a outros anos que tinha viajado para o país como turista e que o clima de Santiago era muito nervoso”, afirmou a jornalista brasileira Luciana Serafim, 34, que se mudou para o país chileno no começo desse ano, mas já retornou ao Brasil em agosto. Para ela, os protestos são extremamente necessários devido ao colapso social que o Chile sofre. “As manifestações são totalmente válidas, se estivesse lá estaria participando de várias. O povo, inclusive, já conseguiu reverter algumas decisões do governo”, declarou. 

As manifestações vieram com intuito de expor ao mundo estes problemas que o povo chileno vem enfrentando. O número de manifestantes é histórico. No dia 25 de outubro, aconteceu o maior protesto desde o fim da ditadura de Pinochet, em 1990. Segundo a mídia local, mais de 1,2 milhão de pessoas se concentraram na Plaza Italia, em Santiago. A maior manifestação da história do Chile em um regime “democrático”.

Toda essa revolta teve como marco revolucionário a derrubada do monumento do colonizador espanhol Francisco de Aguirre e substituição pelo busto de Milanka, uma liderança indígena do povo Diaguita. O acontecimento pode ser interpretado como a insurgência do povo chileno, disposto a cortar as raízes coloniais que se perduram até os dias atuais no país. 

Confira o momento do acontecimento:

O Governo de Sebastián Piñera optou pelo enfrentamento aos manifestantes, causando um verdadeiro clima de guerra no país. De acordo com o Ministério da Justiça e Direitos Humanos chileno, mais de 20 mortes foram registradas, além de 500 feridos e 9 mil presos. Após as sequências de tragédias, o presidente se desculpou e anunciou uma série de medidas para amenizar o clima hostil do país, como a troca de oito ministros, mas até o momento tais medidas não surtiram efeito e o cenário de instabilidade não dá mostras que vá acabar tão cedo. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php