Projeto auxilia no combate à evasão escolar

Por Marcelo Teixeira e Nataly Rodrigues

Evasão escolar é um dos principais problemas da educação no Brasil. O país tem a terceira maior taxa do mundo: são 2 milhões de crianças e adolescentes fora da escola. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dizem que 11,8% dos jovens entre 15 e 17 anos estavam fora da escola em 2018, mas projetos sociais de combate à evasão têm tido bons resultados para manter jovens na escola. O Coral Canto da Casa é um exemplo disso. Desde 2016, o projeto transforma a vida de jovens e crianças em Fortaleza (CE). 

Profissionais responsáveis pelo Coral Canto da Casa. Foto: Arquivo Pessoal/Facebook

A iniciativa possibilita formação musical voltada para estudantes de escolas públicas da região de Messejana, em Fortaleza, com faixa etária entre 10 a 21 anos. É empreendido pelo projeto de extensão Casa da Voz, coordenado pela Associação de Amigos do Coral da UFC (ACUFC) em parceria com a Secretaria de Cultura Artística da UFC (SECUT-ARTE/UFC). A Casa da Voz disponibiliza aulas de letramento musical, técnica vocal, expressão corporal, cenografia, liderança social e inglês. Também conta com parcerias firmadas entre Enel Distribuição Ceará e EIM Instalações Industriais.

De acordo com Jéssica Santos, 29, professora de música e uma das regentes do Coral, direcionar os alunos exige todo uma preparação durante o ano. “É trabalho árduo, nós estudamos o ano inteiro. Nós temos aulas segunda, quarta e sexta, de 14h às 17h. No decorrer do ano, nós escolhemos as músicas, o tema, e eu como diretora geral, faço um roteiro, exibo um espetáculo e trabalhamos a partir disso. Então, basicamente, é a junção de todo um trabalho de estudo que culmina nesses espetáculos que não são só aqui (EIM Instalações Industriais), mas principalmente nas escolas públicas de onde eles vieram”. 

Ao longo do ano, o projeto objetiva proporcionar ensino de música para cerca de 55 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, regularmente matriculados na rede pública de ensino, do 1° ao 3° ano do Ensino Médio e Educação Básica, séries iniciais 3ª, 4ª e 5ª anos, três vezes por semana, no período da tarde. Propiciar, de forma significativa, espaços de experimentação artística e profissional, a partir das manifestações, criações e produções musicais nas formas de recitais, espetáculos e montagem de cenários e desenvolver o sentimento de grupo, comunidade e de cidadania, enquanto preenche o tempo ocioso e afasta os alunos das drogas, das facções criminosas e da violência das ruas. 

Isaac Silva, integrante do Coral Canto da Casa. Foto: Arquivo Pessoal

Isaac Silva, 20, finalizou o ensino médio em 2018 e conheceu o projeto por meio de uma visita de divulgação na escola durante o recrutamento dos novos coralistas. “O coral foi tudo o que eu precisei nesse processo de amadurecimento e reconhecimento pessoal, visto que eu estava em meio a [um processo de] tanta turbulência. Eu estava no primeiro ano do ensino médio, fazia curso, ajudava em casa… toda aquela pressão do vestibular, do Enem, do peso das expectativas criadas – minhas e dos outros -, dos problemas internos também. Era muito estressado. Eu costumo dizer que o coral foi o oásis que eu precisava”,  explicou a importância do coral na sua vida.  

Ele salienta a relevância do projeto no sentido de ajudar jovens que passam pelo o que ele passou. A arte é uma ferramenta muito significativa quando se trata da evasão escolar, pois aperfeiçoa a questão do respeito e da responsabilidade.“É totalmente voltado a tirar os adolescentes, na maioria das vezes, de perto da criminalidade e fazer com que os mesmos mantenham a mente ocupada com afazeres saudáveis. Além de trabalhar nossa postura e desenvoltura, nos ensina também a resolver conflitos”, detalha Isaac. 

Felipe Lima em ensaio do musical. Foto: Arquivo Pessoal

Felipe Lima, 18, também já conclui o ensino médio e o projeto chegou até ele por intermédio do Liceu de Messejana, escola onde estudava. Ele reconhece a influência do projeto a partir do contato direto com a música,  a influência não só em seus atos, mas também em suas ações perante a sociedade. “Isso me ajudou bastante diminuindo a timidez, assim como na postura corporal”. O coralista também falou de como o projeto ajuda com as adversidades diárias. “Uma vez você estando lá, você esquece totalmente do que está acontecendo ao seu redor. É uma espécie de terapia mental, onde a música lhe envolve e ajuda você”. 

Por que a grande Messejana?

A Chacina de Messejana, em novembro de 2015, é uma marca negativa para a memória do bairro. Além disso, no mesmo ano, 817 adolescentes foram assassinados no estado do Ceará, conforme o Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência (CCPHA). Jéssica explicou sobre a iniciativa: “O projeto começou no entorno da região por ser uma área de vulnerabilidade social, teve a chacina, logo após o acontecido, o projeto começou. O objetivo era tirar esses jovens da rua, dessas situações de risco, trazer para cá e oferecer um espaço seguro para que eles pudessem aprender algo novo”. 

Ademais, muitos jovens chegam ao Coral Canto da Casa com depressão, problemas de violência doméstica e a regente acredita que é importante para que eles saiam desses ambientes e comecem realmente a melhorar. “Eles melhoram na escola porque aqui nós incentivamos muito o estudo – essa coisa do Enem, do vestibular – e também, se eles quiserem seguir a carreira artística”. Renan Pablo, outro regente do coral, ratifica: “Música muda a sociedade. Educação muda a sociedade”. 

Box: Rafaela Alves

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