Ser “mãe solo” aumenta as responsabilidades e desafios

Por Ariadna Medeiros

Uma realidade muito comum no Brasil é a configuração familiar quando apenas uma pessoa é responsável pelo cuidado dos filhos gerados ou adotados. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 5,5 milhões de crianças não tem o nome do pai em seu registro de nascimento. 

A falta de um dos genitores na criação pode resultar em diversas situações e estereótipos, um deles é o termo “mãe solteira”, usado pejorativamente para falar das mães que, por algum motivo, se tornaram a chefe da família, sem uma presença masculina. Tentando acabar com esse termo, recentemente foi criada a expressão “mãe solo”, que busca superar o preconceito na hora de se referir a uma mãe que cuida de seus filhos sem a ajuda do outro genitor. 

A pedagoga Maria Luiza, 32, é mãe solo e compartilha com seus mais de 14 mil seguidores do Instagram a sua rotina de trabalho e de vida. Durante todo o dia, Malu, como gosta de ser chamada, exibe sua realidade na rede social. Ser mãe solo exige diversas responsabilidades, entre elas, a de conciliar a rotina corrida com a responsabilidade de cuidar da sua filha de apenas dois anos. Por sorte, Malu pode contar com a ajuda de seus pais. “A rede de apoio me ajuda muito sim, mas é apenas um suporte. Quem faz tudo, quem responde pela criança, quem cria, sou eu”, explica. 

Malu e sua filha. Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com a psicologia de desenvolvimento infantil, Raquel Rocha, a presença de ambos os genitores é de extrema importância para a criança, pois ela tem a necessidade de sentir-se segura e protegida. Ela alerta que, quando um dos responsáveis pela criação não está presente no cotidiano, aquela criança pode ser diretamente afetada com um sentimento de rejeição e insegurança. “A criança tem a necessidade de estar próxima àquela figura de vínculo e tem a necessidade de se sentir segura e protegida. Quem tem a função de garantir isso, são ambos os pais”, reforça a psicóloga. 

Estresse

Além de afetar a vida dos filhos, as mães também são facilmente afetadas por ter que arcar com toda essa responsabilidade. “Quem cria minha filha sou eu. Abdico do social, eu abdico do treino, eu monto minha rotina em função da dela para dar conta de tudo”, conta. Mas não é só a rotina que pode ser afetada, de acordo com a psicóloga Raquel, vai muito além disso. A sobrecarga sobre um dos genitores, mais especificamente da mãe nesse caso, pode causar altos níveis de desgaste emocional diante da responsabilidade de cuidar sozinha dos filhos. “Isso pode afetar o outro genitor que fica com a responsabilidade, gerando sobrecarga e estresse”, afirma. 

O preconceito com as mães que levam consigo a responsabilidade de cuidar de seus filhos sozinhas ainda está presente na sociedade, mas com a onda de empoderamento feminino e o posicionamento que a mulher está conquistando nos dias atuais, já é possível perceber uma melhora. “As pessoas falam muito para mim: ‘Já, já você vai encontrar alguém’, sem saber se é isso que eu quero”, diz a pedagoga. Por ser mãe solo, as pessoas têm a ideia de que não estar em um relacionamento torna a relação mãe-filha como não sendo uma família. “Alguns não nos veem como família, pois não é a tradicional, a esperada”, acrescenta. 

A psicóloga Raquel Rocha deixa claro que, com o crescimento da independência feminina, essa idéia de que a mulher é o sexo frágil e de que elas precisam depender de um homem vem diminuindo consideravelmente. “Eu percebo que cada vez mais ela [a mulher] tem rompido alguns estigmas, alguns estereótipos”, afirma. 

Posso adotar sozinha? 

Advogada Milene Fernandes. Foto: Arquivo Pessoal

A advogada especializada em direito da família, Milene Fernandes, 53, afirma que no artigo 42 do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) privilegia a criança quando se trata do seu bem-estar. De forma alguma alguém não pode adotar uma criança por conta seu estado civil. “Ela não disponibiliza nenhuma disciplina que diga que você tem que estar casada para adotar uma criança”, esclarece. 

E também deixa claro que a orientação sexual não implica no processo de adoção, já que agora a união estável entre pessoas do mesmo sexo é aceita no Brasil. “Isso também não é impedimento para que se adote uma criança. Então, independe de ter alguém eu posso adotar? Posso, sem problema algum”, responde a advogada. 

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