Coringa: um possível vilão?

Por Rafaela Alves

Imprevisível, insano e psicologicamente perturbado, Coringa, um dos vilões mais conhecidos dos quadrinhos, chegou nos cinemas no dia 3 de outubro e já conseguiu a maior bilheteria de estreia do mês.

O filme conta a história de Arthur Fleck ( interpretado por Joaquin Phoenix, ator e produtor com três indicações ao Oscar), um homem com uma vida solitária e miserável que sofre de um distúrbio emocional chamado Afeto Pseudobulbar, PBA, que o faz ter manifestações de risadas incontroláveis em momentos inapropriados. O personagem sofre também de psicose ilusória e transtorno de personalidade narcisista, sempre fantasiando a realização dos seus desejos mais pessoais. 

Cartaz do Filme “Coringa”. Foto: Divulgação

A história se passa em Gotham City, cidade fictícia criada pela DC Comics. O nome da metrópole que foi escolhido por Bill Finger, criador do personagem Batman, e lembra um apelido que era dado a antiga Nova York. A cidade de Gotham do filme lembra a crise sofrida por Nova York, em 2018, metrópole que produz cerca de 10 mil toneladas de lixo por dia, com ruas sujas, cheias de ratos e  poluição. 

Antes de se tornar o conhecido Coringa, Arthur Fleck passa por diversas situações que ajudam na construção do seu papel de vilão. Outro fator muito abordado no enredo e que contribui fortemente para o surgimento do vilão é a corrupção. A cidade de Gotham passa por um momento em que há uma briga de classes em que o sistema político privilegia somente os poderosos,  o que cria uma enorme desigualdade social na capital. A população mais pobre da metrópole é deixada de lado pelos governantes, que não dão nenhuma esperança de melhoras. Durante toda essa situação, Thomas Wayne, pai de Bruce Wayne ( alter ego de Batman), tenta se eleger para prefeito com um discurso de manutenção da ordem, mas tendo em vista as pessoas ricas e privilegiadas. 

Com toda essa situação de desigualdade, a cidade passa a ter várias greves, uma delas dos recolhedores de lixo, e cortes em investimentos sociais, o que torna Gotham um lugar sujo e à beira do caos. A revolta de Arthur surge a partir do abandono do governo para os cidadãos. Quando o Serviço Social passa a ser cortado, as consultas psiquiátricas e remédios para o seu distúrbio param de lhe serem fornecidos, deixando-o ainda mais indignado e revoltado. 

A partir desse ponto, podemos perceber com mais nitidez o surgimento do vilão e os motivos pelo qual ele tornou-se o conhecido Coringa.

Crítica

O filme dirigido por Todd Phillips, roteirista e diretor de cinema estadunidense, não é totalmente relacionado com as HQ’s do Universo DC. A obra cinematográfica é mais focada na dramaticidade da história da vida do Coringa e no realismo psicológico do que na ação em si. Ir para o cinema achando que vai encontrar várias cenas de ação no filme é um equívoco. O personagem é trabalhado e elaborado a partir da doença mental que ele possui. 

O longa metragem faz uma relação quase que imediata com o filme Taxi Driver, em que o motorista de táxi de Nova York Travis Bickle reflete sobre a corrupção da vida ao seu redor, sentindo-se perturbado por ser solitário e alienado. Muito semelhante com o que acontece com Arthur e sua dificuldade de se relacionar com as pessoas, levando a sua ascensão à loucura. 

A interpretação de Joaquin Phoenix é uma obra prima, o ator consegue transmitir bem todas as emoções que o personagem sente durante o filme. Há momentos em que ele vive situações angustiantes e é possível sentir a mesma angústia que ele sente. É incrível como o ator consegue trazer essa aproximação do personagem com o espectador. Em alguns momentos, trazendo até um sentimento de pena para com o vilão. 

Cena do filme em que o Coringa começa a dançar. Foto: Reprodução

O filme trouxe uma construção complexa do personagem, o que tornou mais fascinante cada detalhe inserido nele. Joaquin estudou muito para poder trazer mais realidade nas ações e construção do seu papel no filme. Para interpretar Coringa, o ator precisou emagrecer 23 quilos em 4 meses. Como o personagem sofre de uma doença mental, ele precisou ver vídeos de pessoas que sofriam na vida real com o distúrbio, para trazer mais realidade do estado psicológico perturbado do vilão.

Além de  estudar diferentes psicopatas para  se inspirar, ele foi influenciado pela atuação de Ray Bolger (ator mais conhecido por sua participação como espantalho em “O mágico de Oz”), Phoenix afirmou em uma entrevista para Associated Press dizendo: “acho que o que mais me influenciou foi Ray Bolger. Há uma música chamada ‘The Old Soft Shoe’ e eu vi um vídeo em que há esta estranha arrogância nos movimentos dele e eu completamente roubei isso”.

Coringa não é um personagem insano sem propósito, sua loucura é derivada de um colapso da sociedade e do caos que ela se tornou por conta da desigualdade, abandono, solidão e corrupção. O vilão não surgiu do nada, foi feita uma construção ao longo do tempo em que os fatores externos provenientes da sociedade, contribuíram grandemente para a o nascimento do Coringa. 

O filme mexe muito com o psicológico de quem o assiste, e não é para menos, a abordagem da história do personagem,  mostrando todo o sofrimento que ele passou, vem com esse intuito. No final do filme é possível que surja o questionamento: será que o vilão é mesmo o vilão? Ou é somente uma consequência de uma sociedade conturbada?

Confira o trailer de “Coringa” abaixo:

Ficha técnica 

Título Original: Joker

Ano: 2019

País: EUA

Duração: 2h 2 min

Direção: Todd Phillips

Roteiro: Todd Phillips, Scott Silver

Um comentário em “Coringa: um possível vilão?

  • 8 de outubro de 2019 em 22:22
    Permalink

    Sem palavras para este filme, não podemos esquecer da brilhante direção que focou em trechos longos de tirar o ar.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php