Greve Global denuncia o caos climático no planeta

Por Nataly Rodrigues

Nesta sexta-feira (20), acontece a greve global pelo clima em pelo menos 130 países e tem por objetivo cobrar por ações que evitem o caos climático. Esta é a terceira greve climática realizada mundialmente e é liderada pela a ativista ambiental Greta Thunberg, de apenas 16 anos. 

Em Fortaleza, foi realizado um ato nesta manhã, na praça Luíza Távora. O evento foi organizado por movimentos ambientais como Greenpeace, Ceará no Clima, Instituto Verde Luz e Fridays For Future (Sexta-feira pelo futuro), além de contar com a presenças de povos das comunidades tradicionais e indígenas.

Fatores climáticos

A crise climática não é uma realidade distópica, e sim um fato. A humanidade está sob efeito de suas próprias ações. 

Heráclito dizia que nada persiste e nem permanece o mesmo. Há uma relação dessa alegação do filósofo grego com a realidade do nosso planeta, já que as mudanças climáticas são inevitáveis e também, as causas de catástrofes naturais mais frequentes. 

Os cientistas avaliam que o limite administrável para evitar um clima inóspito, seja de um aquecimento global com aumento até 1,5ºC. O que está bem próximo de acontecer, pois há registros de 1,1ºC. Após esse limite, os problemas se multiplicam, culminando em um grave processo de desestabilização das condições ambientais em escala planetária.

Atualmente, a Terra “tem praticamente 50% a mais de CO2 (gás carbônico) na atmosfera do que há 200 anos, mais do dobro do metano e 30% a mais de óxido nitroso. Existe, então, uma enorme quantidade de gases de efeito estufa acumulados na atmosfera e isso provoca um desequilíbrio energético no planeta”, explica Alexandre Costa, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), doutor em Ciências Atmosféricas pela Colorado State University, com pós-doutorado na Universidade de Yale.

O professor explica que, devido a essa concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, ocorre uma alteração no equilíbrio de trocas de energia entre o planeta Terra e o espaço. E isso é resultado de um processo cumulativo que se iniciou desde a Revolução Industrial, período em que as ações humanas se intensificam para a modificação da natureza.

Infográfico: Rafaela Alves

 

“O planeta está acumulando calor a uma taxa equivalente à energia da explosão de 18 bombas de Hiroshima por segundo”, declara Alexandre Costa.

O planeta está com 1oC de aquecimento, um nível muito alto em relação aos níveis pré-industriais, que eram de aproximadamente 0,2oC, e a humanidade já sente as consequências dessas mudanças climáticas. As ondas de calor são mais letais e cinco vezes mais frequentes, alerta Alexandre Costa. Em 2015, por exemplo, mais de mil pessoas morreram no Paquistão devido às temperaturas superiores a 40 graus. Elel explica que as temporadas de furacões devastadores, tufões e as crises hídricas também são efeitos da emergência climática.

O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, órgão das Nações Unidas), divulgado em 2018, declara que só é possível manter o aquecimento global abaixo de 2ºC – e assim minimizar as catástrofes – com transformações radicais no modo como vivemos. 

“Os estudos mostram que precisamos cortar as emissões de gases de efeito estufa pela metade até 2030, além de descarbonizar completamente a economia por volta da década de 2050”, alerta o cientista Alexandre Costa. E ainda  revela que, para isso, é necessário manter 90% das reservas de petróleo, carvão e gás intactas no subsolo. “Isso implica revolucionar a matriz energética e a matriz de transporte. Requer também a redução da demanda energética global, que hoje, em sua maioria, vem pela produção de bens de consumo descartáveis, ou de baixa durabilidade”, complementa.

Emissões de gases no Brasil

O Brasil é o sétimo maior emissor de gases de efeito estufa na atmosfera. O relatório publicado em 2016 pelo Observatório do Clima, rede que reúne 40 organizações da sociedade civil, aponta que 69% desses gases são emitidos pelas práticas da agropecuária.

Já neste ano, os alertas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais), indicam que o desmatamento subiu 50% . Os incêndios na Amazônia, em agosto, queimaram 29.944 km², equivalente a 4,2 milhões de campos de futebol. As queimadas no Brasil aumentaram 82% comparados ao mesmo período de 2018. Foram 71.497 focos de incêndios neste ano, contra 39.194 no ano passado, destes, 52,5% estão na Amazônia. O Cerrado é responsável por 30,1%, seguido pela Mata Atlântica, com 10,9%. Este é o maior número registrado em em 7 anos, de acordo com o Inpe.

Focos de queimada no Brasil conforme dados gerados em 17 de setembro de 2019 — Foto: Reprodução/BD Queimadas/Inpe

Ceará

Com a emergência climática, o estado do Ceará, que em grande parte tem por característica um clima semiárido, sofre o efeito das grandes secas, como aquelas ocorridas em 2012 e 2016, Com o aquecimento global, estas tendem a se repetir de forma mais sistemática.

Outra consequência que atinge diretamente o Ceará na mutação do clima é a erosão costeira – processo de avanço do mar sob a costa do continente. O efeito já afeta 40% do litoral do estado. Pesquisadores da Rede Braspor, que reúne especialistas de 22 instituições brasileiras e internacionais, afirmam que, caso não haja planejamento adequado, os 60% restantes do litoral também serão submetidos aos impactos de erosão costeira. Ao todo, o estado do Ceará possui 573 km de costa.

Não obstante, o estado possui três usinas termelétricas, que são responsáveis pela alta emissão de CO2 na atmosfera. Essa grande quantidade de gás carbono altera a composição química do ar, e afeta diretamente a população ocasionando problemas respiratórios. 

Em Fortaleza, a situação tende ser a mesma, com o agravante do crescimento urbano desenfreado. É o que avalia Amando Candeira, professor do curso de Arquitetura da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). “A cidade não tem um clima quente úmido, quente seco, ela tem clima urbano. É tanta interferência que aquele clima se torna particular em relação ao entorno” .

Para o professor, os impactos sofridos nas grandes cidades são a criação de ilhas de calor com temperaturas cada vez mais altas, além do obstáculo de ventilação devido aos edifícios. “É a forma da cidade que modifica drasticamente o clima”, sentencia pessimista Amando Candeira.

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