Endometriose: a doença que as mulheres desconhecem

Por Clariana Matias

A endometriose é uma doença na qual o endométrio cresce fora do útero, havendo uma formação de tecido em regiões como ovários, nervo ciático, intestino, reto e/ou bexiga. Essa doença atinge de 15 a 20% das mulheres, sendo a maior causa da infertilidade feminina. De acordo com a ginecologista especializada em endometriose, Dra. Raquel Mattos, 30% das mulheres ainda não sabem o que é endometriose. “A endometriose é uma doença recente, no ponto de vista de diagnóstico da medicina. Nos últimos quinze anos, mais ou menos, é que começou a ter um olho clínico maior para a endometriose que antes a gente não tinha”, explica. 

Vários fatores podem influenciar o surgimento da endometriose. Um deles é a menstruação retrógrada, como explica a Dra. Raquel Mattos: “Toda vez que a gente vai menstruar, a camada de dentro do útero descama e vai sair sangue pela vagina mas, juntamente, vai sair pelas trompas também e vai cair na cavidade pélvica, causando os focos de endometriose”.

Sintomas

Infografia: Gustavo Ricarte, Rafaela Alves e Halleyxon Augusto.

A publicitária Alana Goes, 26, conta que um dos sintomas mais evidentes que sentia, antes de iniciar o tratamento, era a dor na região pélvica. “Era uma dor muito intensa. Não era aquela dor que mulheres costumam sentir todos os meses: um incômodo, uma dor de cólica. A minha pode-se dizer que era uma dor fora do normal”. Alana também se queixava de dores intensas nas costas antes, durante e após o período menstrual. Dores nos quadris, pernas dormentes, vômitos e diarréia também eram sintomas frequentes. “Eu já passei por momentos bem ruins de não conseguir ficar em pé. Dores de eu rolar no chão, de eu ficar fora de mim”, relata. Alana sentia essas dores porque a endometriose havia atingido o seu nervo ciático, um nervo que começa na lombar e se entende pela perna e vai até o pé. 

Alana Goes. Foto: Arquivo Pessoal.

As cólicas fortes também faziam parte da vida da estudante de Publicidade e Propaganda Rânata Saunders, 18. Ela conta que, além disso, sofria de dores de cabeça muito intensas, assim como dores durante a relação sexual. Um ciclo menstrual desregulado também é um dos sintomas dos quais as pacientes de endometriose se deparam, como foi o caso da dona de casa Flávia Maciel, 43. “Algumas pessoas não entendiam, achavam exageros. Só sabe quem tem”, afirma.

Diagnóstico

Atualmente, o diagnóstico da endometriose é clínico, sendo assim detectado pelo médico especializado na doença após obter todo um histórico clínico da paciente. “Eu vou conversar com a paciente para saber os sintomas, há quanto tempo ela tem, o que está associado, a duração e, principalmente, o exame físico. Diante de uma suspeita de exame físico e exame clínico positivo, eu já posso dizer que ela tem endometriose”, explica a dra Raquel Motta, enfatizando que os exames servem como complemento do diagnóstico clínico para detectar o local em que a endometriose está.   

Rânata Saunders. Foto: Arquivo Pessoal

O diagnóstico da endometriose pode durar até sete anos para ser feito, segundo um estudo do Departamento de Saúde Pública da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Algumas mulheres estão acostumadas a acreditar que é normal sentir dores de cólica e não procuram um médico para tratar disso. Existem também os profissionais da saúde que ignoram os sintomas relatados pelas pacientes, o que contribui para o atraso do diagnóstico. 

Rânata Saunders explica que ouviu a palavra endometriose pela primeira vez quando foi fazer uma consulta com a nutricionista e lhe contou os sintomas que sentia. “Ela disse que tinha (endometriose), aí eu fui atrás de médico. Eu fui primeiro na minha ginecologista, só que ela disse que não tinha nada, que era besteira. Eu fiquei com aquela coisa na minha cabeça de que ‘eu tenho, eu tenho’. Eu pedi para a minha mãe me levar no [outro] médico,  fiz o exame específico e descobri realmente que eu tenho endometriose”. 

Tratamento

Raquel Motta. Foto: Arquivo Pessoal.

O tratamento da endometriose varia de mulher para mulher. A paciente pode escolher o tratamento desejado a partir do objetivo que ela deseja atingir. Por exemplo, a Dra Raquel Motta explica que, se a mulher quiser engravidar, o profissional precisa saber se o caso dela é cirúrgico ou não, para poder seguir com o procedimento correto. Como a paciente que não deseja engravidar precisa parar de menstruar, o tratamento pode ser feito por meio de pílulas anticoncepcionais, remédios que impeçam a produção de estrogênio pelos ovários, DIU ou cirurgia. 

As pacientes com endometriose podem ter subfertilidade, que é a dificuldade para engravidar, ou infertilidade, quando realmente não podem engravidar. “Vai depender dos sintomas da paciente e, principalmente, do tipo de lesão que ela tem. É possível, sim, engravidar tendo endometriose, mas os estudos mostram que a maior chance dessas pacientes é na fertilização in vitro.”

Qualidade de Vida

E, por falar em qualidade de vida, as entrevistadas falam com muita alegria o quanto um tratamento adequado pode mudar a vida de uma pessoa. A ausência de dores, as saídas sem imprevistos desagradáveis e a liberdade de poder fazer o que quiser todos os dias do mês são os principais benefícios de um tratamento correto.

Flávia Maciel. Foto: Arquivo Pessoal.

“Eu fiz a cirurgia no ano passado, foi no mês de junho e a minha qualidade de vida mudou muito. Porque, antes da cirurgia, eu ia todos os meses para o hospital. Teve até um momento, no começo do ano passado, que eu senti tanta dor na faculdade que eu fui levada de ambulância para o hospital”, relata Alana, que toma um comprimido para não  menstruar. 

Flávia teve sensação de alívio após receber o diagnóstico e iniciar o tratamento. “Já vinha sofrendo há um tempo. O médico acertou no tratamento imediato e depois indicou um tratamento prolongado, o DIU Mirena, que fez uma grande diferença na minha qualidade de vida”, conta com satisfação.

Rânata conta que ficou tensa por ter que tomar remédio todos dias, mas que depois percebeu o quanto isso se mostrava mais positivo do que negativo. “Eu tomo todos os dias e eu não menstruo mais. No começo estava funcionando [para todas as dores] só que, depois de um tempo, as dores [específicas] começaram a voltar e aí eu comecei a fazer fisioterapia [para contê-las]”. 

Alerta

Segundo a Dra. Raquel Motta, se na família tem histórico de endometriose, a mulher deve ficar alerta e prestar atenção aos sintomas semelhantes ou, se ainda não os têm, ficar em alerta. Ela também explica que é importante ficar atenta às cólicas e que não é normal que elas sejam intensas. “Cólica nenhuma é para ser normal. Se eu vou menstruar e a menstruação, para mim, é uma doença onde eu fico de cama, tenho que bater no hospital, tenho tomar remédio na veia ou eu não consigo fazer nada na minha vida porque tudo dói, vá procurar ajuda porque isso não está normal”, explica. Ainda, segundo a ginecologista, a cólica normal é aquela que avisa que o ciclo menstrual está iniciando, quando a mulher apenas precisa tomar um remédio para se sentir melhor. 

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