7 de Setembro: o Brasil é realmente independente?

Por Alan Melo

O dia 7 de Setembro é celebrado como um marco histórico brasileiro: a independência do Brasil do reino de Portugal. A ruptura se deu em 1822 e resultou na chegada de Dom Pedro I ao poder. Os livros de história dão conta que o príncipe, às margens do Rio Ipiranga, ergueu sua espada e conclamou: “Independência ou morte”.

Mas nem tudo é o que parece ser. Romper com Portugal e elevar um português ao poder,  se autodeclarar soberano subordinando-se à Inglaterra e, anos depois, abolir a escravidão e não combater o tráfico de escravos. Estas são algumas contradições que encadearam um série de questionamentos que se perduram até hoje. O principal deles é se o Brasil, mesmo tendo proclamado a “independência”, é independente de fato.  

O que os historiadores pensam 

Pádua Santiago. Foto: Alan Melo

Para o historiador Pádua Santiago, 59,  é necessário separar a independência do 7 de Setembro da independência atual do Brasil, para ele, o que aconteceu na época foi a independência do Brasil colonial. “A independência do Brasil significou deixar de ser colônia. Houve, de fato. Transformou o Brasil em uma nação autônoma, não mais colonial. Hoje, a realidade é outra: todos os países estão interligados, todos são dependentes uns dos outros. Não podemos falar, na atualidade, em independência, o que há hoje é interdependência”, explica. 

Hermano Flávio. Foto: Alan Melo

Pensamento similar tem o historiador Hermano Flávio, 58. Para ele, o Brasil realmente rompeu com Portugal em 1822, mas as raízes coloniais persistem até os dias atuais, o que torna a independência questionável. “O Brasil sofreu uma colonização de exploração, tinha características de escravidão e produção para consumo externo. Rompemos com com Portugal. Houve uma mudança formal da estrutura, mas na essência tudo continua similar, continuamos produzindo para exportação, estrutura de terra continua a mesma, a escravidão tomou um novo molde através do racismo. O DNA histórico brasileiro é colonial. Nos dias atuais, mais do que nunca, é necessário questionarmos nossa independência” , desafia.

João Julio. Foto: Alan Melo

Para o historiador João Julio, 35, o Brasil é estruturalmente independente, mas ao decorrer do tempo sua autonomia foi sendo decomposta.“O Brasil é de fato independente desde 1822, fez uma grande guerra pela independência para se tornar uma unidade soberana, mas ao longo desse processo, a soberania tendeu a ser questionada ou relativizada por diversos momentos da história brasileira devida diversas intervenções estrangeiras, como ocorreu na revolta armada e no golpe de 1964. O Brasil em si é um país independente, mas o conceito de soberania nem sempre foi respeitado”, lamenta.

O que as pessoas pensam 

Guilherme Santiago. Foto: Alan Melo

Os não-historiadores, por sua vez, têm posicionamentos conflitantes. Vão da crença absoluta de que a dependência política de Portugal aconteceu até aqueles que acreditam que a independência é uma farsa e continuamos colônia dos países hegemônicos. O estudante de Engenharia Guilherme Santiago, 19, acredita que o Brasil rompeu com Portugal, em 1822, e realmente é independente. “Sim, eu acho que o Brasil é um país independente, pois na quebra do pacto colonial, apesar do imperador ter sido português, a dependência política em relação a Portugal teve fim”.

Martins Felipe. Foto: Alan Melo

Para o papeleiro Martins Felipe, 55, o Brasil sofre dependência tecnológica de outros países, não tem autonomia, não é independente. “Na minha opinião o Brasil não é um país independente. Hoje o mundo gira em torno da tecnologia, e nosso país ainda é muito atrasado tecnologicamente, depende muito de países de primeiro mundo. Não temos autonomia”.

Ester Andrade. Foto: Alan Melo

Para a estudante de Psicologia Ester Andrade, 19, a independência de 1822 ocorreu, mas foi uma grande farsa.“A nossa independência, de 1822, foi diferente dos outros países, todos tinham ideais, a nossa foi comprada, o que resultou, hoje, no nosso espírito de vira-lata. Nós não respeitamos a nossa independência”, declara taxativa.

Apesar de todas as contradições e contestações de legitimidade, não se pode negar que o dia 7 de Setembro é de fato simbólico na história do Brasil, em 2019  se celebra 197 anos da “independência” brasileira. Data de tal relevância que será realizada comemorações por todo país. Em Fortaleza, a concentração do desfile cívico-militar será realizado na Av. Pessoa Anta às 9h, com previsão de 9 mil militares, civis, colégios e associações.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php