A ilustração infantil como espaço de liberdade

por Sarah Viana

Recheada de histórias mirabolantes e desenhos que provocam a imaginação até de adultos, a literatura infantil busca trazer um universo diferenciado para as crianças. As histórias contadas por meio das palavras começaram a ganhar uma nova dimensão, onde ilustrações, texturas e cheiros tornam maior a interação da criança com o livro. Porém, mesmo fazendo parte da construção da leitura, muitos ilustradores são deixados em segundo plano em relação ao autor do texto e perdem seu espaço no mercado literário.

Retrato de Luci Sacoleira. Foto: Matheus Castro

A literatura infantil é um dos universos em que muitos ilustradores podem transformar o processo de ilustração em um momento de experimentação e criação. Para a ilustradora cearense, Luci Sacoleira, essa maneira de trabalhar é uma das que mais utiliza no seu processo criativo, além da leitura do livro e da imaginação das cenas. A ilustradora revela também que, geralmente, a produção nos trabalhos acontece de forma rápida. 

Sacoleira começou a adentrar no universo infantil logo depois de ter seu filho, fortemente influenciada pelo artesanato e pela literatura. “Eu tinha muito a coisa do boneco de pano, tinha uns blogs portugueses que eu seguia e acompanhava, que eram a Ervilha Cor de Rosa, tinha a Ana Ventura, que eram tipo mães portuguesas artesãs, que viviam em casa e costuravam para os filhos. Isso me pautava muito a forma como eu queria conduzir a maternidade”, conta.

Luci explica que o desenho se tornou mais forte logo depois que teve a oportunidade de publicar o seu primeiro livro infantil somente com imagens, “Caçadora de Borboletas”, pela Edições Dummar. Ela nunca teve essa ambição de se tornar ilustradora e conta que as coisas tomaram seu rumo sozinhas. “Era tudo meio que acontecendo ao mesmo tempo, acabou que chegou um ponto em que os bonecos foram sendo deixados de lado e os desenhos foram tomando mais força”, completa. 

O espaço da ilustração infantil, mesmo oferecendo grande liberdade criativa, exige do profissional um trabalho que consiga atender tanto à criança quanto ao adulto que vai estar mediando a história. Os desenhos precisam trazer a interpretação para os dois públicos, contribuindo para uma contação de história mais produtiva. 

Retrato de Eduardo Azevedo. Foto: Lucas Plutarcho

Eduardo Azevedo é ilustrador, cearense e com dezenas de livros infantis ao longo de sua carreira, incluindo capas de cordel para a Editora Tupynanquim, ilustrações para coleções de livros do Programa Alfabetização na Idade Certa (PAIC) e para a Editora IMEPH. “O meu primeiro livro infantil foi ‘A Festa no Céu’, o texto era do Klévisson Viana e eu fiz as ilustrações, foi um dos livros mais difíceis que eu fiz, porque desenhar para criança não é fácil”, comenta.  

Azevedo comenta que o trabalho de ilustração para livros infantis demanda de alguns cuidados, “para não colocar coisas que a criança, de repente, não vá entender”. Ele argumenta que para livros infantis, é necessário saber para qual público é direcionado e qual a faixa etária. O processo criativo começa logo depois de conversar com o autor e da leitura do texto. “Eu separo o que vai ser das cenas, geralmente eu já converso com o autor quais são as cenas que a gente vai trabalhar no texto”, explica. Confira abaixo um pequeno vídeo da entrevista com Eduardo feito em parceria com o Foto NIC:

Edição e Filmagem: Lucas Plutarcho

As dificuldades da profissão no Ceará

Eduardo Azevedo conta que um dos empecilhos para a profissão é o mercado cearense, onde “as editoras grandes ou algumas editoras que trabalhavam aqui fecharam as portas. E era o que mantinha muita gente aqui, os contatos”. Grande parte das editoras, atualmente, usam seus próprios ilustradores ou recebem indicações dos autores.

Luci Sacoleira acredita que o mercado interno limita muitos ilustradores cearenses, em parte tirando a liberdade de criar no espaço da literatura infantil. “De um modo geral, eu acho muito fraco [o mercado], é tanto que você vê as auto publicações como um lugar em que se explora a potência do que se pode ser feito com mais liberdade. Eu acho que pode evoluir muito”, argumenta. 

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