“Porque ser um Ceará do conhecimento é ser um Ceará leitor também”

Por Isabella Campos

Desde a última sexta – feira (16) e até o dia 25 de agosto, Fortaleza recebe a XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, no Centro de Eventos do estado. A feira de livros que acontece a cada dois anos já se tornou tradicional e reúne, além do público apaixonado por livros e escritores, um série de atividades culturais, como debates e mesas-redondas, sempre tendo a literatura como base. 

Goreth Albuquerque é professora, graduada em Pedagogia, estudante de Psicologia, narradora oral e arteterapeuta, além de realizar diversas outras atividades na área da educação e cultura, assumiu nesta edição a Coordenação Geral da Bienal Internacional do Livro do Ceará. Goreth falou ao Jornalismo NIC sobre os desafios, prazeres e expectativas para os nove dias de evento.    

Jornalismo NIC : Como foi a escolha do tema “A cidade e os livros” ? Qual a relação das cidades com a literatura?

Goreth Albuquerque : A decisão de tema, ela vem de um diálogo. No gabinete, a gente tem a sorte de ter um Secretário da Cultura, que é poeta e escritor, um homem da cultura e isso facilita muito. E se você conhece um pouco o Fabiano [Piúba], ele já dialoga com essa temática, já a algum tempo. Então ele traz essa proposta, mas em um diálogo muito conjunto com a curadoria também. [As primeiras perguntas são] ‘Então, é essa a temática? É isso que a gente quer falar?’. E então nós tivemos uma Bienal anterior, que foi “Cada pessoa é uma biblioteca, é um livro, é um mundo” e a partir dessa temática, ela vai convidando a outros temas também, né? E dentro da literatura nós temos muitos autores que falam sobre as cidades, que a cidade é o plano de fundo da sua obra ou ela é o tema principal da obra. A cidade para alguns autores é um tema muito forte. A cidade também de uma certa forma um espaço que permite a gente criar todo um arquivo pessoal de narrativas. É onde a gente constrói uma série de narrativas a partir dos trajetos, dos percursos que a gente percorre no nosso cotidiano.

JN: A Bienal do Livro do Ceará, já está em sua 13ª edição. Como você enxerga a importância do evento para o estado?

GA: Essa é a 13ª edição da Bienal e a Bienal do Livro do Ceará é parte da política de livros, leitura, literatura e bibliotecas do Estado, então é um evento estruturante, um evento estratégico para essa política. Ela [Bienal] é fundamental porque é um espaço fruição, um espaço que está permeado por toda a cadeia do livro, da leitura e da literatura. É um espaço onde você tem encontros de mediadores de leitura, tanto mais jovens quanto mais experientes. Essa possibilidade de diálogo entre pessoas que já estão no caminho, dentro desse universo do livro a muito mais tempo, com quem está apaixonado e entrando para esse universo [agora] é fundamental, porque tem esse viés formativo. 

A gente tem também a dimensão do mercado, porque temos uma feira [de livros] e a Bienal do Ceará é a terceira maior bienal literária, do livro, do conhecimento, da informação que a gente tem no Brasil. Então vem se consolidando a muito tempo, como um evento dentro do campo do mercado editorial, que tem toda a sua cadeia produtiva. Um evento muito importante, porque não é só a dimensão estética da literatura como linguagem, como expressão, mas é também todo um campo da economia da cultura, da economia do livro, que se encontra nesse momento.

JN: O que vai ter nesta edição da bienal, referente a economia do livros e a esse importante encontro de gerações, citado anteriormente?

GA: Nesta edição especialmente, vai ter um encontro de três dias com mesas reflexivas para pensar esse mercado editorial e estaremos inaugurando uma rodada de negócios pela primeira vez na Bienal do Livro do Ceará.

A cadeia criativa está representada pelos escritores, e a gente tem gerações muito distintas de escritores que se encontram também. Isso é fundamental, os escritores mais experientes ouvirem o que as gerações novas então produzindo. E os mais jovens ouvirem também, um pouco dessa experiência, desse percurso dos mais experientes. É um evento fundamental para toda a cadeia do livro, leitura e literatura.

JN: Quais serão os grandes destaques e expectativas para a XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará?

GA: É tão difícil você apontar um destaque, em termos de um nome, porque muitas vezes nós somos surpreendidos por escritores, que são desconhecidos do grande público e que marcam uma presença muito positiva, seja por sua obra, quando encontra com o público ou também através da sua fala, do seu discurso ela surpreende e passa a ser um escritor ou uma escritora muito lido. Claro que hoje a gente tem as mídias, que já fazem um pouco desse papel de que quando o público chega, às vezes já chega sabendo quem quer ver, quem quer assistir. Mas é bom também às vezes ser surpreendido, né? Às vezes você “nossa eu não conheço esse escritor”, mas a temática, às vezes essa conjunção quando você propõe uma mesa, de colocar dois escritores, ou escritoras que você nunca viu juntos, esse diálogo promove uma possibilidade de convite a obra dessas pessoas, você tem uma surpresa né? Então eu acho uma pouco complicado falar de destaques, assim.

A gente pode falar um pouco de expectativas que temos com alguns espaços, por exemplo, os que já são espaços consolidados, que a gente já sabe que sempre tem um público. Como o da literatura geek, né? Que sabemos que tem um público cativo, que já espera, que gosta de se encontrar, de falar dessas obras. A gente tem um movimento dessa literatura jovem muito intenso, mas nós temos grandes autores já consolidados, que estão vindo pra cá e que tem muitas coisas para nos dizer. Tanto autores cearenses, quanto de fora do Ceará e do Brasil. 

JN: Como se deu essa parceria da Bienal do Livro com a Universidade de Fortaleza?

GA : A Universidade de Fortaleza já é uma parceira antiga da Bienal e nessa edição, dentro desses diálogos com curadoria, Secretaria da Cultura, os coordenadores dos espaços e das programações da Bienal, algo que tem sido muito comum nesses diálogos é a gente falar da necessidade do encontro, a necessidade de aproximar pessoas. Então decidimos que com todos os parceiros, todos os apoiadores, a gente queria fazer um diálogo muito próximo. Foi pensando em experiências, né? E de que forma a gente poderia estreitar essa experiência da Bienal também para um apoiador, um parceiro. E a Unifor é um apoiador importante, porque ela também é uma grande produtora de informação, de conhecimento. [Produtora] de um conteúdo que tem muita relação com o nosso evento. Então nós propusemos a realizar uma experiência, junto com um grupo de alunos e professores da universidade, que foi muito bem recebida. A professora Ana Quezado acolheu muito bem a ideia, levou essa provocação para os professores, que também acolheram muito bem a ideia.

O primeiro trabalho conjunto foi a elaboração de um cenografia para o espaço do Centro de Eventos. Nós temos esse ano, a nossa identidade visual da Bienal, feita pela Ana Dantes, que é editora e artista. Ela encontrou durante cinco dias de imersão, com esse grupo de alunos e professores. Nós caminhamos pela cidade, fizemos um passeio pela obras de Sérvulo Esmeraldo, que a gente está vivendo esse ano, o Ano Sérvulo Esmeraldo, e a identidade visual foi criada, pela Ana [Dantes], a partir da referência da obra Femme- Bateau do Sérvulo Esmeraldo. Esse passeio pela cidade, depois nesse grupo imersivo, foi criando aí outras linguagens, que também estarão no espaço da Bienal junto com os livros homenageados. Criando um espaço acolhedor, que tenha a cara do evento, que fale um pouco para quem chega lá que aquele é um espaço de encontro, de leitura. Uma experiência extremamente positiva. 

Depois disso o Núcleo Integrado de Comunicação da Unifor, também se aproximou e está criando junto com a gente algumas comunicações, algumas formas da gente chegar mais perto do público. Para que as pessoas cheguem na Unifor e na Bienal sabendo que a gente tá em parceria, juntos em torno desse livro e da literatura. Porque ser um Ceará do conhecimento é ser um Ceará leitor também, e uma universidade produz conhecimento. É importante esse encontro.

JN: Como é para você estar à frente de um evento como a Bienal Internacional do Livro, que já se tornou tradicional e de grande importância no Ceará? 

GA: É um desafio. Um desafio grande, porque eu cheguei há pouco tempo na Secretaria da Cultura, peguei a 13ª edição da Bienal já um pouco encaminhada. Já existia um tema e uma curadoria. Eu fui me integrando a esse grupo, e trazendo também um pouco do que é minha experiência com bienais passadas, trazendo um pouco do que é a minha expectativa também com a Bienal. Mas como esse é um evento da Secretaria da Cultura, ele [também] é um evento que tem que refletir também nosso Plano Estadual de Cultura, então é uma costura de muitos entrelaçamentos, são muitas tramas para que você consiga entregar um evento bonito.

Eu sou uma aprendiz de bienal, mas eu tenho uma sorte enorme, porque várias das outras edições foram realizadas com a Mileide Flores, que esteve  nesse mesmo lugar que eu estou hoje, na Coordenação Geral da Bienal e tem sido uma grande parceira, porque ela é quem coordena a programação de discussão de mercado editorial.  Então a gente tá sempre conversando. 

E a Bienal é feita por uma equipe muito grande também, além dessa equipe, desse grupo que pensa conceitualmente, que discute, que dialoga. [Temos] os coordenadores de programação, que também propõe programações, propõe caminhos, visões  sobre livro, leitura e literatura. A gente tem também uma equipe imensa de produtores. Então isso me deixa caminhando por um terreno um pouco mais seguro, né? Em caso de dúvida, pergunte. Peça orientação, pergunte. Mas é um desafio bom, porque eu sou apaixonada por livros e os livros me acompanham desde sempre. Acho que não consigo lembrar de mim mesma sem um livro, sem a leitura, então é um grande presente, na verdade. Um grande presente. Uma grande responsabilidade também. 

JN: Quem é  Goreth Albuquerque?   

GA:  É a pergunta que eu venho me fazendo a mais de 50 anos, né? É uma pergunta complexa. A gente na verdade, fala da gente a partir de muitos lugares, especialmente, acredito, que das coisas que a gente gosta e dos encontros que a gente tem ao longo da vida. Aquilo que a gente realiza no cotidiano, seja da coisa mais pequenina, que parece sem importância até algo que parece tão importante. Eu me percebo como alguém em movimento, o tempo inteiro. Como alguém que abraça os desafios, alguém que se repensa e aceita novas possibilidades.

Eu gosto muito disso dos encontros, de juntar grupos, de juntar pessoas e eu gosto de livros, gosto muito de história. Acho que a consciência de que uma só vida é muito pouco pra gente ser todas as vidas que gostariamos de ser, [isso] faz com que os livros sejam um lugar em que eu me encontro e que eu possa realizar todas essas outras Goreths possíveis.    

 

 

 

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