“Ler é uma sensação divertida e emocionante”

Por Thomás Regueira

Durante os dias 16 a 25 de Agosto de 2019 acontece, em Fortaleza, a XIII Bienal Internacional do Livro, evento que reúne diversos livros para venda, escritores, debates, entre outras atividades culturais tendo a literatura como base. Entre os escritores presentes nesta edição, está o premiado cearense Tino Freitas, para compartilhar a experiência de 22 livros infantis publicados nos últimos 10 anos, o tempo que trabalha como escritor. Tino também é jornalista, formado pela UFC (Universidade Federal do Ceará) e músico, que vive em Brasília há mais de 20 anos. Durante a Bienal, ele irá lançar um novo livro em parceria com a ilustradora Luci Sacoleira, chamado “VERMELHO, LÁ VAI, VIOLETA”.

Entre seus principais reconhecimentos estão o Prêmio Jabuti de Literatura e o Selo Altamente Recomendável para Crianças, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). O livro que ganhou o Jabuti chama-se “Os Invisíveis” e trata das pessoas que os adultos normalmente “não veem”, como garis, porteiros e tantas profissões desvalorizadas pela sociedade.

As temáticas dos seus livros são voltadas para fortes questões sociais e são de caráter de formação de valores para crianças. Seu último livro publicado, Leila, feito em parceria com a ilustradora Thais Beltrame, conta a história de uma baleia jubarte que sofre abuso sexual. Apesar da temática delicada de “Leila”, a abordagem do livro é bastante sutil tanto no texto quanto nas ilustrações de Thais, mas, mesmo assim, é bastante impactante.

Desde 2006, participa de uma biblioteca comunitária em Ceilândia, região administrativa do Distrito Federal, chamada  “Roedores de Livros” que trabalha com incentivo à leitura e mediação para crianças. O Jornalismo NIC conversou com Tino sobre seus últimos trabalhos, sua participação na XIII Bienal Internacional do Livro de Fortaleza, cenário de literatura infantil e sobre seu processo criativo.

Jornalismo NIC – De onde veio a ideia de abordar a temática do abuso sxual infantil utilizada no seu mais novo trabalho, “Leila”? 

Tino Freitas – A maioria dos livros que eu escrevo têm uma inspiração muito forte no cotidiano, nas coisas que observo e com “Leila” não foi diferente disso. Eu viajo bastante com meu trabalho em literatura, são muitos eventos. Numa visita escolar, numa escola no sul do país, eu fui abraçar uma criança, comentei alguma coisa que não me recordo agora o que foi e essa criança me repeliu. Ela veio como as outras crianças que vão abraçar o escritor, todas felizes, mas ao mesmo tempo me largou e se escondeu atrás da professora. 

Eu senti que aquilo que falei – pode ter sido um elogio – remeteu essa criança a uma sensação ruim e me veio a impressão de que pudesse ser alguma coisa que tivesse relação com abuso sexual. Eu comuniquei isso à professora e segui, mas aquela sensação ficou na minha cabeça e me veio a necessidade de escrever sobre o tema, de dar voz àquilo que tá incomodando, que não se permite que façam com a gente. A Leila nasce desse momento, e isso estamos falando do final do ano de 2014. E em 2015, eu encontro esse mundo submarino, onde a personagem é uma baleia jubarte de longos cabelos e tem um polvo como antagonista. 

JN – Por que tratar de temas sociais em livros infantis? As crianças conseguem compreender melhor que os adultos dependendo da abordagem feita?

TF – A literatura reflete um tanto do que é a vida da gente, a humanidade se reconhece através das histórias, elas carregam o mundo pra gente. Eu posso saber de coisas que nem eu sabia sobre mim quando eu percebo que alguma outra pessoa escreveu sobre aquilo e permita me transformar.

Isso não pode ser diferente na literatura infantil, a Adélia Prado, poeta, diz que a diferença de escrever pra criança e pra adulto é a mesma diferença de fazer um vestido para uma mulher e para uma menina: os tamanhos são diferentes mas o tecido é o mesmo. Assim como a gente trata de temas difíceis como morte, abuso sexual e gênero no universo adulto, a gente também precisa apresentar isso pra esses leitores crianças, mas com um “corte que sirva bem”, que trate a criança com inteligência e apresente pra ela o mundo.

Não adianta esconder isso, porque uma hora elas vão pro mundo, e é muito melhor que a gente converse em casa ou nas escolas sobre esses temas, que são ambientes seguros, do que essa criança cresça e descubra sozinha sem o amparo de pessoas que se confia. Acho que é por isso que precisamos tratar de temas mais sensíveis ou difíceis de forma adequada no sentido de linguagem e a criança encontrar um lugar para essas histórias, ela vai precisar ouvi-las para se encontrar nelas, como acontece com a gente no mundo adulto.

JN – Você faz parte de uma biblioteca comunitária chamada Roedores de Livros. Qual a missão do projeto? O que é mediação de leitura? Existem iniciativas parecidas em outros locais do Brasil? Em Fortaleza existe?

TF – O projeto Roedores de Livros foi criado pela Ana Paula Bernardes em 2006, começamos com uma caixinha com 30 livros e hoje oferecemos ao público uma biblioteca comunitária com mais de 5000 livros infanto-juvenis. Fica na Ceilândia, próximo ao plano piloto de Brasília, e lá a gente trabalha muito com a mediação de leitura, que é você ser um porta voz da leitura. Pode ser de apenas você ler para uma criança que não possui domínio estético da leitura.

Além disso você pode debater em uma conversa, você pode pegar três livros que falam sobre a seca ou sobre a chuva, você vai ler essas histórias e debater sobre elas, ouvir o que as crianças têm a dizer. A gente pode falar sobre a relação de netos e avós e perguntar pras crianças ‘eai como é seu avô/avó?’, ‘eles brincavam de quê quando eram crianças?’, estender para além da leitura do livro, virar uma conversa. 

Quando as histórias viram conversas, elas começam a habitar no nosso cotidiano, se tornam mais afetivas para quem lê e quem ouve, se cria esse laço afetivo, essa criança vai querer imitar a forma que eu leio. A partir do afeto e das lembranças em conjunto, vamos transformando aquela criança num leitor, e quando nos transformamos em leitores, nos tornamos conscientes do nosso papel no mundo como cidadãos, é nisso que a gente acredita.

A mediação de leitura é uma fórmula para tornar as crianças mais leitores conscientes do seu papel como cidadão, algo que muitos governos entendem como uma coisa difícil de ser feita. Em Fortaleza, eu posso citar o pessoal do Curió, que possui a Biblioteca Comunitária Livro Livre, Anitta Moura faz um trabalho muito bacana de semear livros pela cidade. 

Antigamente, dizíamos que não tinha biblioteca, mas há um movimento muito grande no Brasil onde os livros estão se espalhando por meio das bibliotecas comunitárias, esse excesso tem transformado tanto crianças quanto jovens. A literatura transforma e a mediação de leitura é uma ferramenta para essa transformação.

JN – Qual a importância da leitura e da contação de histórias para as crianças e adultos?

TF – Acho que de certa forma já respondi. Mas são em importantes em hábitos distintos a narração de histórias e a mediação de leitura. As duas comportam esse lugar da gente se reconhecer como um ser que vive histórias que foram vividas outras vezes em diversos lugares e que nos livros, onde são retratadas, que a gente se identifica e reconhece nelas, aprende a ser ético, ser pai, ser uma criança criativa, ser esperto, essas histórias nos dão vidas e nos tornam mais humanos, esse é o grande prêmio por vivenciá-las.

As histórias têm o poder de nos fazer perceber o mundo de um jeito mais coletivo, pois são nossas histórias, é preciso ter o outro para que ela aconteça, só cria vida se encontra o leitor e ele se sentir transformado por ela. O mundo não é só meu, o mundo é nosso. Faltam leitores no Brasil, e acredito que a gente tem vivido um mundo muito egoísta, estamos nessa batalha para fazer as pessoas perceberem que somos plural e somos melhores juntos, o mundo é nosso.

JN – Como está o cenário da literatura infantil no Brasil e no Ceará?

TF – A literatura infantil tem um link muito próximo da linha pedagógica, e por ser destinada às crianças, vai estar muito nas escolas. Tenho um amigo escritor, Leo Cunha, que brinca dizendo que os livros dele são “órfãos” e precisam ser “adotados” pelas escolas nas listas de material para serem lidos. Ler é uma sensação divertida e emocionante, apesar de não passar nada de conteúdo de sala de aula, mas passa essa sensação gostosa de ser feliz através da leitura.

A gente está em um momento político em que as compras de livros para as escolas públicas estão quase que estagnando, não se tem pensado muito em levar essa literatura de qualidade para as escolas públicas, e o mercado sofre um tanto com isso. Essas compras de acervo diminuem desde 2015, influenciando o mercado no surgimento de novos autores e de publicações de livros com temáticas mais diferentes. 

Também costumamos dizer que literatura é resistência, tem tido o surgimento de novas editoras além das grandes que já existem, essas editoras vão trabalhar temas mais difíceis e mais sensíveis. No Ceará, isso acontece com o PAIC ( Programa de Alfabetização na Idade Certa), um programa de governo que distribui livros para escolas públicas e nisso vem se aperfeiçoando numa seleção de histórias, autores e ilustradores para compor esse cenário, espero que no futuro ele sobreviva sem a necessidade da compra do governo. 

Fico torcendo para que surjam mais editoras no Ceará que trabalhem com livros de qualidade e consigam emocionar os leitores, fazer disso um mercado, que é nosso maior desafio [se sustentar com arte]. A gente espera que esse caminho ocasionado pela falta de incentivo do governo possa mudar.

JN – Como será sua participação nessa bienal do livro que vai acontecer em Fortaleza?

TF – Fui convidado pela bienal para fazer a curadoria de algumas mesas de mediação de leitura, a Bienal do Ceará, nessa edição, tem como tema “As Cidades e os Livros”, uma relação que a literatura tem na transformação do habitante da cidade e como acontece esse diálogo com ela. As mesas se chamarão “A Palavra em Forma, Informa, Transforma”, para falar como a mediação de leitura pode modificar a vida das pessoas.

A partir disso, a gente construiu 4 mesas com convidados bem distintos, entre eles Bruninha Souza, que é de uma biblioteca comunitária chamada Caminhos da Leitura em Parelheiros (São Paulo), ela transformou a vida de muitos jovens e vai falar um pouco sobre isso. Também vamos ter Rômulo Silva e Nina Rizzi para a falar sobre a importância dos saraus para a juventude, espaço poético que acolhe as pessoas e vê o que elas têm a dizer. 

Vamos falar sobre local de fala, para termos mais mulheres, negros e pessoas de todos os gêneros na literatura escrevendo suas histórias e tendo livros publicados, fazendo o mercado olhar para outros espaços e escritores, como um espelho pro leitor. No final, vamos ter uma mesa com depoimentos de jovens que tiveram suas vidas transformadas pela leitura. Meu papel principal é coordenar essas mesas, criar esses espaços de diálogos sobre mediação de leitura e a transformação que a leitura tem nas nossas cidades.

07 – Como é feita essa parceria entre você (o escritor) e o ilustrador? Qual o processo criativo de vocês para elaborar as ilustrações?

A construção de um livro se dá das formas mais diversas possíveis, mas a que eu gosto e costumo fazer nos meus livros é uma construção de diálogo, entender que a mídia que eu trabalho, o livro para crianças, é o livro ilustrado. Essa leitura não se dá só para crianças e sim para a infância, que habita todos nós. No adulto ela pode estar mais latente ou mais guardadinha. 

A ilustração e o desenho têm o papel significante, é importante na comunicação que se quer dar a essa história. Eu tenho um livro que escrevi um roteiro mas não tem palavras, foi desenhado por um colega, Romont Willy, que se chama “Faz de Conta”, um livro sem texto mas todo ilustrado. O livro ilustrado parte da premissa que pelo menos vai ter ilustração.

Como eu escrevo a maioria dos livros, tenho só esse caso de livro que não tem texto dos meus 22 publicados, mas eu procuro deixar na minha escrita espaços para que coisas sejam ditas pela ilustração. Eu escrevo, deixo aquele espaço, converso com o ilustrador, ele conversa comigo, a gente vai construindo. No Leila, por exemplo, quando eu pensei no Barão, o antagonista da história, pensei ele como um tubarão, mas quando isso chegou para a ilustradora, a Thais, ela disse que não podia ser um tubarão porque na cabeça da gente ele já é um animal feroz e o Barão é de multifaces. Ela me sugeriu que fosse um polvo, porque ora ele é uma coisa mais legal ora ele pode ser assustador.

Na construção do Barão, sugeri também que ele tivesse cinco tentáculos ao invés de oito, para representar uma mão. A gente vai construindo o livro aos poucos, desde que a gente tenha tempo e que tenha um link de parceria com os ilustradores. São 10 anos de literatura infantil, 10 anos de construção de livros com ilustradores, acredito que meu livro ganha muito e o leitor ainda mais quando conseguimos fazer esse diálogo.

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