Poço da Draga: 113 anos de luta

Por Letícia Feitosa, Gustavo Queiroz, 

Dávilla Morais e Sarah de Queiroz

Antiga Praia da Formosa, onde hoje é a praia do Poço da Draga. Foto: Arquivos Nirez

O Poço da Draga, localizado na Praia de Iracema, resiste há 113 anos no litoral de Fortaleza. O referencial do local é a Ponte Metálica, construção inaugurada em 1906 com o objetivo de ser o primeiro porto da capital. A comunidade reúne mais de 505 famílias, contabilizando 2.029 habitantes, distribuídos em uma área de 5,45 km², além de relatos de resistência, união e solidariedade.

Diariamente, os moradores enfrentam problemas de saneamento básico e de segregação urbana. Lutam para não terem as terras retiradas e resistem ao preconceito vindo da parte de fora da comunidade. Há 113 anos, o Poço tem seu povo, sua voz e sua história.

Dê um play no podcast abaixo para saber como a comunidade surgiu:

 

O poder público

A região faz parte dos segmentos que constituem a história do povo cearense. Com a modernização e o crescimento da Praia de Iracema, novas construções foram feitas no entorno da comunidade, como o Estaleiro Naval do Ceará (Inace), a Caixa Cultural Fortaleza e o Centro Cultural Dragão do Mar. 

Segundo a doutora em Planejamento Urbano e Regional Joísa Barroso, a estigmatização e a falta de inclusão e de integração social contribuíram para a invisibilidade da região. Na última década, a promessa do Acquario de Fortaleza, planejado para ser instalado nos arredores do Poço da Draga, trouxe indignação aos moradores. Sobre as diversas formas de resistência existentes no Poço, Joísa comenta:

“São centenas de momentos de possíveis remoção, várias vezes foi certo deles saírem. Eles [moradores] convivem com essa realidade há muito tempo e resistem bravamente.”

Medidas públicas

Em entrevista com a diretora de Planejamento do Iplanfor – Instituto de Planejamento de Fortaleza, Lia Parente, foi esclarecido que para que problemas da população sejam sanados e o Poço da Draga seja integrado à cidade, é necessário que três forças estejam alinhadas: governo, assessoria técnica e conselheiros da comunidade. 

No primeiro momento, a demanda das melhorias a serem realizadas surge dos conselheiros que são escolhidos na própria comunidade como representantes. Depois, as questões são repassadas para a assessoria técnica, quando é feito um laudo do local, para caso seja necessário o desenvolvimento de um projeto que comporte as medidas necessárias. 

Indagada sobre qual parte deste processo está em andamento, Lia Parente responde: “Está sendo exatamente feita a contratação das assessorias técnicas, que são essas três universidades: A Unifor, Universidade Estadual (UECE) e a Universidade Federal (UFC). A Unifor já havia sido contratada, está se resolvendo a questão da UFC e UECE, porque precisa, às vezes, de decreto de lei para poder aprovar esses contratos. A burocracia é maior. Então, assim, está se equacionando essa burocracia. Deve estar findando esses últimos dias. Já tem equipes montadas”, esclarece.

ONG VELAUMAR

Placa com a história da ONG Velaumar. Foto: Leíssa Feitosa

A união é muito forte na região do Poço da Draga. Comunidades vizinhas se aproximam e frequentam as programações e as ações desenvolvidas pela Organização não Governamental (ONG) Velaumar, uma entidade criada em 2004 por um grupo de moradores sem patrocínio financeiro externo, tanto público quanto privado. 

Na ONG é possível encontrar diversos serviços que são ofertados para a comunidade, tais como atendimentos médicos variados, consultoria jurídica, cursos, oficinas, eventos festivos, cafés da manhã, palestras e programas educativos. Alguns serviços da ONG são itinerantes, assim, outras comunidades de Fortaleza recebem sua visita, como a comunidade da Graviola, Moura Brasil, Barroso e Che Guevara por exemplo. “O intuito é atingir as comunidades que não têm acesso aos serviços e às políticas públicas, independente de comunidade A ou B ou de político A ou B. Nós queremos o melhor comunitário. Essa é a intenção” explica Marilac Lima, uma das presidentes da ONG.

A Velaumar se tornou uma espécie de porta voz dos moradores e, juntamente a comunidade, participam das denúncias e das reivindicações ao poder público perante os descasos com a região. “No final do mês de maio fizemos um movimento para chamar a atenção do poder público sobre o descaso com o poço da draga. Por exemplo, não temos uma creche que atenda a demanda da nossa região”, comentou Isabel Cristina, educadora social e também presidente da ONG. “Falta o básico, falta saneamento básico e a creche mais próxima daqui, na Tabajara, só comporta 40 crianças”, completa Marilac, também presidente da Velaumar.

ONG Velaumar. Foto: Leíssa Feitosa

Este evento se refere à comemoração dos 113 anos da comunidade Poço da Draga, ocorrido no dia 26 de maio. O Movimento ProPoço, em parceria com a ONG Velaumar, comemorou a data trazendo prestação de serviços sociais aos membros da comunidade, como a realização de exames odontológicos e emissão de documentos, além de atividades para as crianças e shows de humor com Lairtinho Brega e outros Djs.

A ONG também participa de atividades pertinentes à regularização da Zona Especial de Interesse Social (ZEIS). Nesta condição, também é possível observar a relação da ONG e da comunidade com a obra do Acquário Ceará, um empreendimento do Governo do Estado, que antes estava sob responsabilidade da Secretaria de Turismo do Estado (SETUR) e agora é da Secretaria da Infraestrutura (Seinfra).

O medo de perderem seu espaço é constante, mas a luta pelo direito da terra se torna necessária. Marilac é uma referência de liderança comunitária no local e afirma que de lá ela não sai. “Como eu vou morar em outro canto se aqui é a minha casa? Aqui que eu vivi com a minha mãe. Quem vai me dar isso de novo? E a minha identidade que está aqui? Não é questão de não ter para onde ir nem como se manter. Aqui é o meu lugar, onde eu nasci e onde eu quero morrer. As pessoas acham que dinheiro é tudo. Para mim, tudo é a gente mesmo. As pessoas se ligaram tanto ao bem material que se esqueceram quem são. Tudo muda com amor”, declara.

Projetos Esportivos

Educação nem sempre é dada por meio de lápis e livros, por isso, a comunidade também utiliza dos esportes como uma forma de ensinar responsabilidade, companheirismo e disciplina aos jovens. Um projeto pouco planejado pela prefeitura disponibilizou apenas uma quadra próxima à ponte metálica. O espaço não recebe manutenção e hoje encontra-se depravado, sendo entregue aos moradores para que eles mesmos façam os cuidados. É dentro de ferrugens, piso rachado e redes rasgadas que a quadra é usada para algumas partidas de futebol nos finais de semana e local, também, de uma escolinha de futsal. Washington dos Santos, coordenador do projeto desafaba:

“Além da escolinha, também é possível encontrar grupos de capoeira que são orientados por Thiago da Silva há seis anos”. Ele explica:

“Os encontros se dão nas segundas, quartas e sextas das 18h às 21h, sempre com o intuito de promover a paz e o diálogo entre a comunidade por meio do ensino inovador da capoeira. Eu peço aos meus alunos apenas bom comportamento nos treinos e boas notas na escola, basicamente”

Os encontros se dão no pavilhão atlântico, sem nenhuma ajuda do governo. “Não temos apoio público nem privado. Quando eu comecei, não havia ninguém dando aula na comunidade. Porém, existem outras pessoas que já fizeram algo semelhante outrora e que ainda fazem” completa. Thiago ainda conta que arca sozinho com despesas, como fardamentos, instrumentos, lanches de vez em quando, xerox e literatura para os jovens.

“Desenvolvo a escolinha já há 27 anos, e sempre foi desenvolvida por mim, sem nenhum parceiro. Nunca olharam para nós! Vivemos de doações que peço, como chuteira e bola usada. Nossa maior dificuldade é ter uma parceria que ajude e que banque, pois tudo vem de mim. Eu deixo de trabalhar às vezes para estar com os meus alunos e abro para qualquer um que esteja interessado em fazer parte. Eu só peço que elas passem de ano e respeitem o próximo”.

Esta matéria foi produzida na disciplina de Jornalismo Investigativo, confira a matéria na integra no link original, clicando na imagem abaixo:

 

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