Ao volante: empoderamento feminino

Por Germano Bezerra, Isayane Sampaio, 

Karolina Maia, Natália Gonçalves 

e Rhaniel Lênim

Todo trabalho exige muita coragem e dedicação e, claro, com a motorista de ônibus Maria Socorro Gomes não seria diferente. De segunda à sábado, Socorro acorda 03:30 da manhã para iniciar sua jornada de trabalho como motorista da empresa Dragão do Mar, profissão que já exerce a 9 anos. A sua trajetória de trabalho começou em um escritório de marketing, mas se encontrou mesmo foi na profissão de motorista. Os dados obtidos com o Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN- CE), mostra que durante todo o ano de 2018 o número de carteiras de habilitação, destinadas a mulheres, na categoria D (para ônibus) foi de 111, enquanto durante apenas o primeiro semestre de 2019, foram 40. 

Segundo a socióloga Mikaelly Lira, o empoderamento feminino promove a equidade de gêneros, em todas as atividades. “Ele dá poder e fortalecimento às mulheres ajudando-as a assumir seu poder individual”, justifica. O número de motoristas homens e mulheres, é bastante desnivelado, como por exemplo na empresa em que Maria Socorro trabalha, onde tem 383 motoristas homens e apenas 2 mulheres. Para a socióloga, o pensamento de que a mulher não foi feita para serviços mais pesados ainda paira estagnado em boa parte da sociedade. “Isso acaba criando um preconceito não só do sexo masculino. Motorista de ônibus é visto como um trabalho masculino, então quando se tem uma mulher dirigindo, é possível ouvir suposições acerca daquela pessoa”.

Dados do Sindiônibus mostram em Fortaleza e Região Metropolitana que, atualmente, se tem um número de 21 motoristas do sexo feminino. Para Leninha, cobradora de ônibus há 14 anos,  o motivo de se ter poucas mulheres é porque ainda existe muito preconceito. “As pessoas acham que mulher nunca vai conseguir. Na escolinha que tô participando, de 50 participantes só tem eu de mulher.” Para ajudar a entender melhor os números de uma forma mais didática, nossa equipe fez um infográfico para cada informação sobre os dados.

Benemária 

 

 “Eu acredito que hoje em dia eu e meus passageiros já somos uma família”

Benemária Barbosa de Oliveira Sousa, 44.

Há 44 anos, nasceu em São Benedito, na Serra Grande, Benemária Barbosa de Oliveira Sousa. Motorista de transporte público, que trabalha desde os 16 anos de idade, tem um filho de 25 anos e acorda às 6:30 da manhã, todos os dias. Ainda tem suas práticas como chefe da casa antes de começar sua rotina no trânsito. “Meus hábitos pela manhã é varrendo, passando e fazendo almoço pra poder pegar a segunda jornada. A segunda jornada é cansativa e puxada, mas vale a pena”, firma Benemária.

O amor pela direção de ônibus é um afeto hereditário, seu pai é motorista, por isso, ela e seus irmãos seguiram a profissão do pai, apenas uma irmã não quis seguir o mesmo rumo profissional. Antes promotora de vendas, Benemária, hoje motorista, tem muito prazer pelo que faz, com um amor e gratidão que aumentam a cada dia pelo trabalho. Quando questionada sobre o momento mais especial vivido na profissão, ela nos conta que seu aniversário surpresa feito por passageiros diários foi o mais inesquecível. “No meu aniversário, que aconteceu às 17 horas do dia 31 de agosto de 2017, meus passageiros encheram o ônibus de balão, levaram torta e fizeram aqui meu aniversário, teve presente e foi bem gratificante para mim.”

Considerada uma dos motoristas mais generosas da linha, Benemária considera seus passageiros membros de sua família. A convivência diária já quebrou a barreira de “profissional e dependentes”. Ela sabe cada característica dos seus viajantes, inclusive, os pontos de partidas e de chegadas, principalmente dos idosos, que por conta de sua gentileza,  a esperam vir para poderem pegar o ônibus.

Socorro

“Eu fiz a escolha CERTA!”

Aos 47 anos, Socorro também se divide entre o trabalho e os cuidados com sua família. Ela relata que não recebeu muito apoio porque sua família tinha receio por ela, e que se surpreenderam com seu desejo de se tornar motorista. “Ninguém queria que eu fosse trabalhar como cobradora e se surpreenderam quando quis ser motorista, mas eles sabiam da minha garra”, contou.

Maria Socorro Gomes, 47.

Apesar de se dar bem com todos em seu trabalho, Socorro não nega a existência de preconceitos e machismos enfrentados por ela em sua profissão. A motorista revela que já passou situações complicadas e que já foi tratada com indiferença por colegas de trabalho, mas assume que as consequências não foram maior que seu desejo de seguir na profissão. “Eu fiz a escolha certa”, afirmou. Mesmo com as adversidades, é uma motorista que, em nove anos de trabalho, nunca sofreu colisões de trânsito. “Existe uma câmera dentro de cada ônibus e elas provam as inúmeras vezes que eu livrei meus passageiros de acidentes”.

Leninha

Antônia Lenir Sousa Da Silva, 46.

Há 14 anos, Antônia Lenir Sousa Da Silva, 46 anos, foi ao Serviço Nacional de Emprego (SINE) em busca de trabalho, foi chamada para uma seleção e, em seguida, foi aprovada para o seu novo emprego: o de cobradora de ônibus. Por sempre ter gostado de trabalhar com pessoas, Leninha, como é conhecida carinhosamente, passou a admirar a profissão de motorista de Ônibus. Ela então iniciou um curso, no SEST/SENAT, para entrar no ramo da profissão. “Eu admiro muito, apesar do estresse, é uma profissão muito importante e eu tenho muita admiração mesmo, aprendi a respeitar e admirar convivendo”, diz Leninha.

Questionada sobre a questão da pouca quantidade de mulheres na profissão, acrescentou que no curso que está, o número é quase nulo, e o motivo, é o mesmo: o preconceito. Apesar desse problema muito presente na profissão, a cobradora explica que isso só a motiva ainda mais. “Quanto mais me dizem isso, mais me motiva, mais eu tenho vontade de ser motorista’’.

Apesar do preconceito e de sempre ser uma das poucas mulheres no curso e na profissão, ela diz que nunca pensou em desistir, ao contrário, está muito perto de conseguir conquistar o objetivo. ‘’Se eu fosse desistir pelos ‘nãos’ que eu levei, eu já teria parado há muito tempo. Quanto mais me criticam, mais vontade de conseguir eu tenho.”

“Eu acho que a mulher não deve desistir do sonho, dos desafios, mesmo que você leve um não, não diga que não vai dar certo, você teime e diga sempre que vai dar certo.’’

NOTA:

As empresas Aliança Transportes e Viação Penha não responderam os emails com o pedido de números de homens motoristas. Em ligação, os funcionários comunicaram que só poderiam responder por e-mail, mas até a publicação desta matéria, não houve retorno das demais.  Em nota, a Empresa Santa Maria informou que está em discussão a contratação de mulheres motoristas e a Empresa Vitória esclareceu que não há pauta para contratação de mulheres motoristas. 

Esta matéria foi produzida na disciplina de Jornalismo Investigativo, confira o link original clicando na imagem abaixo:

 

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