Conjunto Ceará, uma cidade na periferia

Beatriz Irineu, Jéssica Alves e Everton Lacerda

As ruas são divididas por números, as avenidas por letras e as regiões por etapas. O que mais parece uma cidade é um dos bairros mais conhecidos de Fortaleza – o Conjunto Ceará. Recheado de gerações, de orgulho e muita história. O conjunto habitacional foi inaugurado em 1977 e era alocado dentro do bairro Granja Portugal.

Neste especial, contaremos a história do bairro afastado, os números iniciais, e o histórico de lutas. O bairro agrega festividades e particularidades próprias. Entrevistamos personagens da comunidade que possuem pontos de vista diferentes desde sua criação. 

O projeto para gerações

O Conjunto Ceará é um bairro localizado na região sudoeste de Fortaleza. Em 1977, o governo entregou a primeira etapa do bairro, com 996 casas, estruturadas no modelo de Unidade Vizinhança, de Clarence Perry. O bairro foi inaugurado pelo, então, governador Adauto Bezerra. As casas possuíam um padrão especificado pela Companhia de Habitação (COHAB) sendo diferenciados pelas letras A, B, C, D e E. Atualmente são 390,7 hectares, 11 avenidas, mais de 300 ruas e aproximadamente 43.000 moradores (segundo o Censo do IBGE – 2010).

Dados de habitantes do Conjunto Ceará. Infográfico: Reprodução

Para o historiador e professor, Evaldo Lima, a implantação do Conjunto Ceará seria uma das formas de resolver o problema do déficit habitacional da região da Estiva até à Veneza (bairros Jurema e Granja Portugal, respectivamente). “O que é muito interessante é que o projeto é de 1970, mas as primeiras unidades só vão ser entregues mesmo em 1978, durante o governo estadual do Adauto Bezerra, aqui no Ceará. O projeto é vanguardista, porque o projeto de Unidade de Vizinhança quer dizer o conceito de cidade policêntrica”, comentou.

“O projeto é vanguardista, porque o projeto de Unidade de Vizinhança quer dizer o conceito de cidade policêntrica” Evaldo Lima

Diferente de muitas regiões da cidade, o bairro Conjunto Ceará nem sempre foi independente. Ele fazia parte da Granja Portugal até que, em 1980, o presidente do conselho de moradores e o dono da primeira farmácia do bairro, José Barros Crisóstomo, 61, (ou Seu Crisóstomo – como é conhecido), tomou a frente dessa luta por independência local e exigiu ao então prefeito, Ciro Gomes, a desvinculação do bairro. A Lei 6.504 de 11/10/89, de iniciativa dos vereadores da época, Gorete Pereira, Inácio Arruda e Sérgio Novais, deu o título oficial de bairro ao Conjunto Ceará.

Uma boa vizinhança

“Ele conhece e ama o seu bairro”, Evaldo Lima sobre os moradores do Conjunto Ceará. Foto: Everton Lacerda

As Unidades de Vizinhança (UV) surgem como forma de conectar a comunidade e as cidades que as usufruem. Idealizadas pelo arquiteto e urbanista americano Clarence Perry, em 1920, o modelo foi desenhado para uma cidade que prioriza o pedestre. O intuito do arquiteto era fazer com que áreas residências fossem autônomas, abrigando assim, todas necessidades e comodidades dos moradores.

É nesta proposta que o Conjunto Ceará é projetado, no projeto intitulado “Projeto Ceará”. O bairro conta com doze Unidades de Vizinhança (UVs), com escolas no centro de cada unidade. Nas UVs, também há dois espaços, de 400 m² cada, destinados para Convívio Social, chamados de Centrinhos e Espaço comercial.

Plínio Leitão Neto é diretor do Prodecom (Projeto de Desenvolvimento Comunitário do Conjunto Ceará) e comenta em seu estudo que, mesmo não havendo alcançado tudo que o projeto almejou, o Conjunto Ceará é uma das experiências habitacionais mais populares no Estado do Ceará. Mesmo com a falta de medidas que não foram alcançadas, é importante lembrar que houve uma distribuição lógica de equipamentos e serviços do bairro, além do fornecimento de um sistema de proteção à criança e ao idoso.

Inez é professora da rede municipal de Fortaleza e começou a morar na terceira etapa do bairro desde 1979. Foi uma das primeiras residentes da etapa e uma das primeiras funcionárias da Escola de Ensino Médio José Maria Campos de Oliveira, também conhecida como UV8. Ela foi de agente administrativo à direção da escola, sendo professora de muitos moradores do bairro. Naquela época, o UV8 era uma das poucas escolas de nível médio da região. “Era a única escola de ensino médio. Tivemos época que tivemos mais de 3 mil alunos nos três turnos da escola. Muitos doutores, professores, até mesmo do resto da cidade de Fortaleza, passaram pelo UV8, do Conjunto Ceará”, comenta.

“Muitos doutores, professores, até mesmo do resto da cidade de Fortaleza, passaram pelo UV8, no Conjunto Ceará” Inez Ferreira

A proximidade das ruas, avenidas e casas nas UVs faziam com que seus moradores levassem uma vida de moradores de cidades menores. “O bairro era formado por muitos estudantes universitários, pessoas de diversos interiores e jovens casais. Tinha tudo dentro do bairro, escola, posto de saúde, a única coisa que faltava [nos primeiros anos de bairro] era mais acesso ao centro”, conta Inez.

Mesmo com adversidades, o bairro conseguia manter uma estrutura de comunidade. O vereador e historiador, Evaldo Lima, comenta que uma das maiores riquezas afetivas do bairro é o conceito de Unidade de Vizinhança, trazendo o costume “de pessoas nas calçadas, dessa tradição interiorana, na verdade é uma tradição boa de se viver. É o conceito de cidade pras pessoas. Isso é muito importante.”

Os serviços foram acompanhando o crescimento populacional, adequaram-se a tecnologia e tornaram-se diversificados. Confira abaixo alguns destes serviços de utilidade pública

 

Casas engraçadas 

A Companhia de Habitação (COHAB) construiu 8105 casas em cinco modelos no início da história do Conjunto Ceará, sendo elas casa A, B, C, D e E. Os primeiros habitantes do bairro foram sorteados pela COHAB e, dependendo da renda familiar, ficariam alocados em algumas das residências, com quantidade de compartimentos diferentes.

A professora Inez Ferreira comenta, “Fomos sorteados [pela COHAB] com a Casa A. Éramos onze filhos, papai e mamãe, nossa casa tinha apenas uma sala, uma cozinha e um banheiro.” Ela continua: “Meu pai resolveu ampliar, e em um ano construiu dois quartos, e nos anos 1990, eu construí mais um. Eu acredito que todo mundo reformulou suas casas, alguns construíram prédios, outros casas mais espaçosas.”

Estas residências tiveram evoluções ao longo dos anos. Em 2008, segundo o Prodecom, só havia cerca de 42% das famílias originais morando no Conjunto Ceará. No entanto, 88% das moradias haviam sido ampliadas

Cultura é para todos

O bairro é marcado por eventos como festas juninas, réveillons, pré-carnavais, paixão de Cristo e as comemorações de seus aniversários. O principal ponto de encontro destas festividades é o Pólo de Lazer Luiz Gonzaga, localizado na conhecida Avenida Central. O  Pólo de Lazer, além de sempre receber os principais eventos festivos do bairro, ao longo do ano todo, é local de encontro de jovens e famílias.

A esteticista Nathália Sousa, 19, é uma moradora que frequenta bastante pontos de encontro e eventos no bairro. “Quando tem paredão (carros aparelhados com som alto), a gente se encontra na Areninha do Conjunto Ceará. Também tem a pracinha da Caixa Econômica. O lado ruim é a falta de segurança”, comenta. 

O antigo conjunto habitacional também conta, desde os seus primeiros anos, com o  festival junino. Nesta festa é reunido equipes de quadrilha de vários bairros, e até mesmo de cidades do interior.

O Conjunto Ceará possui batalhas de Hip Hop que reverberam até hoje. O movimento foi nomeado de Movimento Hip Hop Organizado do Ceará (MH2O), era organizado por membros do Grêmio Estudantil da Escola Estadual de Ensino Médio, Profº José Maria Campos de Oliveira (UV8) e grupos culturais como a crew Strayking, grupo the break do Conjunto Ceará. 

Outra opção cultural para os moradores do bairro é a Biblioteca Pública Herbênia Gurgel, inaugurada em 2017 pela Prefeitura de Fortaleza. Foi a primeira biblioteca pública infantil da cidade, e dispõe de computadores com acesso livre, brinquedoteca, além de um parque infantil no jardim. “O Monteiro Lobato dizia que o sonho dele era escrever um livro onde as crianças morassem dentro. O que eu queria muito era que as crianças do Conjunto Ceará lessem. A biblioteca Herbênia Gurgel é um caso de sucesso, de organização, e de como a cultura pode ter um espaço realmente estratégico na formação da identidade de um local”.

 

A luta do povo do Conjunto Ceará

Em 1988, a eleição para prefeitura de Fortaleza foi bastante acirrada. O eleito foi o economista Ciro Gomes. Na época, o grande responsável por isso foi o Conjunto Ceará. Esse foi apenas o início de uma conquista do bairro. O vereador e professor Evaldo Lima comenta, “o Conjunto Ceará é um bairro que tem a característica da luta, da organização comunitária. É um conjunto, na melhor expressão do termo. É um espaço que normalmente tem representação política.”

Evaldo analisa o cidadão do bairro e considera que este “ama e conhece bem os seus 43 mil habitantes. Ele conhece e ama o seu bairro, mas ao mesmo tempo ele é sensível às questões locais e as questões da conjuntura nacional, enfim, do cenário político. Então, ele não é apegado somente a essa dimensão política territorial. Ele está aberto à perspectivas outras. É um bairro que eu tenho muito respeito. Na verdade é um movimento que tem essa característica da resistência, mas uma força marcante da militância da organização do Conjunto Ceará são os movimentos culturais do Conjunto Ceará.”

Uma das atrações do bairro, é o Centro Cultural Patativa do Assaré. Espaço de arte e cultura, localizado no centro do bairro, próximo ao Pólo de Lazer. Em 2016, o prédio, de responsabilidade da COHAB, poderia ir a leilão. Artistas e produtores culturais do bairro se organizaram e ocuparam o local em protesto para evitar essa venda. “Nesta época, eu estava na presidência do Conselho Municipal de Política Cultural da cidade de Fortaleza, era o presidente do conselho de cultura de Fortaleza. E, foi uma grande representação do Conjunto Ceará para defender a importância do Centro Cultural Patativa do Assaré para o Conjunto Ceará e pra cultura.”, afirma o vereador.

 

Esta matéria foi produzida na disciplina de Jornalismo Digital, confira o link original clicando na imagem abaixo:

 

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