Sinal Vermelho: acidentes de trânsito são considerados epidemia mundial

Por Marcos Viana e Beatriz Lima

Você conhece alguém que já tenha sofrido algum tipo de acidente de trânsito? É provável que sim. Segundo o Relatório Global sobre o Estado de Segurança Viária de 2015 publicada pela OMS (Organização Mundial de Saúde), aproximadamente 1,25 milhões de pessoas morrem vítimas de acidentes de trânsito, ou seja, 1 pessoa a cada 25 segundos. No Brasil, de acordo com o DATASUS (departamento de informática do Sistema Único de Saúde do Brasil responsável por coleta de dados referentes a saúde) em 2016, 38.265 foi o número de pessoas que morreram em decorrência de acidentes de trânsito.

Em Fortaleza, capital do Ceará e 5ª maior cidade do país, 20.309 acidentes foram registrados pelo SIAT (Sistema de Informação de Acidentes de Trânsito de Fortaleza), sendo a colisão a maior causa de ocorrências, representando um total de 79,4%. Os números representam uma realidade bastante assustadora e comprovam que os acidentes de trânsito se tornaram uma epidemia mundial.

Infográfico: Marcos Viana e Beatriz Lima
Principais tipos de acidente. Fonte: Relatório Anual de Segurança Viária de 2017 (Prefeitura de Fortaleza)

Mudança de Paradigma

Diante desses fatos, fica a pergunta: porque tanta imprudência na hora de dirigir? Para Beatriz Rodrigues, Coordenadora de Desenho Urbano da Iniciativa Bloomberg em Fortaleza, o problema pode estar relacionado ao conforto de possuir um veículo próprio e a facilidade de se deslocar de forma mais rápida.

“É sempre difícil mudar um paradigma. Se você vive em Fortaleza ainda há um paradigma de todo mundo querer usar seu carro para chegar em determinado lugar porque é mais confortável, porque se sente mais seguro. Então é muito difícil mudarmos a cabeça das pessoas. Na verdade, trabalhando com infraestrutura você percebe que é muito mais fácil construir do que mudar essa mentalidade”, explica.

Beatriz aponta como principais causas de acidentes no trânsito o consumo de álcool antes de dirigir, a alta velocidade e uso incorreto do capacete por parte dos motociclistas, principal grupo de risco. Beatriz Rodrigues conta o que está sendo feito para minimizar os acidentes de trânsito:

Ela explica ainda que a iniciativa é trabalhar com desenho urbano, dados, comunicação e fiscalização, que são os quatro pilares de infraestrutura para tentar mudar um pouco esse paradigma. “Estamos trazendo novos elementos que, claro, não serão aceitos de um dia para o outro, como não foi em qualquer outro lugar do mundo, e que a gente espera que aos poucos, as pessoas absorvam essa mentalidade e tragam pro seu dia a dia”, diz ela.

Fortaleza reduz índice de mortalidade em 2019

Taxa de mortalidade no trânsito em Fortaleza. Fonte: Relatório de Vítimas Fatais no Trânsito de 2018 (SIAT)

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, as mortes por acidente de transporte terrestre estão entre as 10 principais causas de mortalidade em Fortaleza, apesar de apresentarem continuamente uma diminuição ano após ano. Entretanto, para jovens na faixa de 15 a 29, essa já é a principal causa de morte de acordo com a OMS.

A taxa de mortalidade no trânsito em 2017, em Fortaleza, foi de 9,7 mortes/100 mil habitantes, o que mostra uma significativa diminuição em comparação ao ano de 2016, mas apresenta uma mudança no grupo que mais provoca esses acidentes, que são os motociclistas.

Ezequiel Dantas, Coordenador do Observatório de Segurança Viária e também Coordenador de Dados em Acidentes de Trânsito pela Iniciativa Bloomberg na Prefeitura de Fortaleza, fala que além da infraestrutura, a fiscalização e a comunicação são importantíssimas aliadas nas campanhas de conscientização no trânsito, mas atenta para a educação.

O gráfico mostra que os motociclistas são as principais vítimas de acidentes de trânsito, com 45,6%.Os pedestres aparecem em seguida. Fonte: Relatório de Vítimas Fatais no Trânsito de 2018 (SIAT)

“A educação, eu diria que é a parte mais tímida que a prefeitura trabalha hoje, porque ela não recebe o apoio direto da Iniciativa Bloomberg. No entanto, tem a Escolinha de Mobilidade e o Centro de Treinamento para Motociclistas, inaugurado em abril de 2019 para abordar essa questão específica. Fortaleza hoje atua em todas essas frentes de forma paralela e simultânea, porque hoje a prefeitura entende que em um acidente de trânsito você não tem como agir só em uma causa pontual, é uma ocorrência multifatorial e tem que agir ao mesmo tempo em tudo, por ser uma epidemia”, declara.

Ezequiel Dantas. Foto: Marcos Viana e Beatriz Lima

Ele ainda destaca que Fortaleza teve uma redução de 40% no número absoluto de mortes devido a ações que foram implantadas entre 2014 e 2018, sendo que de 2017 a 2018 a redução foi de 12% de mortalidade. Assim, Fortaleza se tornou uma das poucas cidades que teve quatro quedas consecutivas na redução de mortalidade no trânsito.

“Isso tudo vem de uma década de ações para segurança viária lançada pela ONU lá em 2010, para trabalhar de 2011 a 2020, focando na redução pela metade do número de mortes no trânsito. A maioria dos países e cidades não estão conseguindo avançar, e Fortaleza é uma das poucas cidades que vai conseguir chegar em 2020, ao que tudo indica, com 50% de redução que é justamente a redução pela metade”, pontua Ezequiel.

Maio Amarelo

A Assembleia-Geral das Nações Unidas editou, em março de 2010, uma resolução definindo o período de 2011 a 2020 como a “Década de Ações para a Segurança no Trânsito”. O documento foi elaborado com base em um estudo da OMS (Organização Mundial da Saúde) que contabilizou, em 2009, cerca de 1,3 milhão de mortes por acidente de trânsito em 178 países. Aproximadamente 50 milhões de pessoas sobreviveram com sequelas.

Com esses dados tão alarmantes, foi criado o Maio Amarelo, uma iniciativa que tem um único objetivo específico: conscientizar e chamar a atenção para o alto índice de mortes no trânsito em todo o mundo. A intenção é colocar em pauta o tema da segurança viária e mobilizar toda a sociedade e envolver os mais diversos segmentos como órgãos de governo, empresas, associações, federações e sociedade civil.

A intenção da ONU com a “Década de Ação para a Segurança no Trânsito” é poupar, por meio de planos nacionais, regionais e mundial, cinco milhões de vidas até 2020.

Símbolo da campanha do Maio Amarelo. Foto: reprodução.

Fortaleza é referência mundial em mobilidade urbana

A preocupação e dedicação em prevenir e conscientizar a sociedade em relação aos acidentes de trânsito rendeu a Fortaleza o prêmio mundial de mobilidade urbana do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) pela implementação de boas práticas em suas ruas desde de 2014. O prêmio foi anunciado em junho de 2018 em Dar es Salaam, na Tanzânia, pelo ITDP, durante a última edição da MOBILIZE, maior cúpula internacional sobre transportes sustentáveis.

Quando perguntada sobre as novas tecnologias aplicadas nas vias urbanas, Beatriz Rodrigues conta que eles apostam em medidas simples para facilitar a locomoção e proteção dos usuários: “No geral a gente trabalha na Secretaria com projetos mais simples, não grandes projetos de infraestrutura porque acreditamos que com obras de curto prazo e menos custosas, também conseguimos grandes resultados”.

Ela fala que trazer mais ciclovias, ciclofaixas protegidas com balizadores e outros elementos, protegem ainda mais o ciclista e traz a sensação de segurança para as pessoas que pedalam na cidade. E complementa: “Tem muitos projetos de inovação não no sentido tecnológico, mas no sentido de ser criativo, e por isso vem rendendo muitos frutos”. Ela destaca, citando o Mini Bicicletar, um sistema que existe em poucos lugares do mundo, assim como o “Bicicleta Integrada” que é um sistema integrado ao transporte público.

Fortaleza recebeu o prêmio mundial de mobilidade urbana na última edição do MOBILIZE

Campanhas de conscientização

Um dos métodos para estimular a conscientização no trânsito são projetos e programas criados para chamar a atenção de usuários para este problema tão sério, e Fortaleza atualmente está colocando em prática alguns deles. Um desses projetos se chama Cidade da Gente, e a Beatriz Rodrigues explica como ele funciona:

Projetos

  • Patinete como meio de transporte – Sobre a implantação do patinete, que já está em uso em algumas capitais do Brasil, Ezequiel comenta que já foi aberto um edital para receber empresas interessadas em micro mobilidade que envolve a questão do patinete e seu possível uso nas vias urbanas de Fortaleza. Apesar do patinete surgir como uma solução em questão de mobilidade, é necessário pensar em medidas preventivas, já que o transporte entraria em conflito e disputaria espaço nas calçadas com os pedestres. Ezequiel explica a questão:

  • Projeto Cidade da Gente no entorno do Centro Cultural Dragão do Mar. Fonte: Observatório de Segurança Viária (UNIFOR)

    Cidade da Gente – A ideia é demonstrar, com um novo exemplo, como é possível dar um outro uso ao espaço público disponível nas ruas, além do trânsito de veículos. Na Praia de Iracema, o Projeto Cidade da Gente vai oferecer apresentações de grupos musicais e outras intervenções artísticas, oficinas, doação de mudas de plantas regionais, exames e orientações de saúde, além de outros serviços públicos disponibilizados pelas unidades móveis da Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza e pela Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania, como solicitação do Bilhete Único, cartão de gratuidade para portadores de necessidades especiais, cartão do idoso e emissão de credenciais para vagas especiais. As atividades culturais têm apoio da Secretaria de Cultura de Fortaleza, Instituto Iracema, Porto Iracema das Artes e do Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura.

  • Caminhos da Escola – Dentro deste programa temos o Escola da Gente, que é uma adaptação do Cidade da Gente para áreas escolares. A ideia é trazer esse elemento lúdico para as áreas escolares, e que também ajude a proteger os usuários que são ainda mais vulneráveis, que são as crianças e que atualmente no mundo todo, a mortalidade no trânsito é a maior causa de morte entre crianças.

Reportagem produzida para a disciplina de Jornalismo Digital 2019.1 da Universidade de Fortaleza. Para conferir o link original clique na imagem abaixo:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php