Pessoas invisíveis na margem da sociedade

Por Victor Lima, Sabrina Esteves, Luan Viana e Mariana Quariguasi

Segundo uma pesquisa realizada em 2015 pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Defesa Social de Fortaleza, a cidade conta com 1.718 pessoas que vivem em situação de rua e cerca de 50% desse total passou a viver nessa situação após problemas familiares.

“Eu vim de Manaus atrás de melhorias de vida […] tive algumas desavenças com a família aí preferi ir embora”, relembra Alexandre Taumaturgo, um ex-morador de rua. Após sair de Manaus, ele seguiu para Belém e depois chegou em Fortaleza, onde passou mais de um ano em situação de rua. “Minha situação não foi das piores, graças a Deus, porque eu não usava drogas […] na rua você pode ver de tudo, no meu caso eu não via muita coisa, pois eu não ia pro fluxo”.

O que leva uma pessoa a essa situação?

Para o sociólogo Davi Moreno, professor do Instituto Federal do Ceará (IFCE) e estudioso do que leva pessoas a ficarem em situação de rua, os conflitos são reflexos de uma desestrutura familiar que acarreta diversos desequilíbrios, desde os emocionais aos econômicos, mas que não se limitam apenas a visão estereotipada sobre os modelos familiares. “Uma família estruturada não é necessariamente desenhada por pai, mãe e filhos. Para ser estruturada, depende de um conjunto de outros elementos que envolvem desde a atenção devida de trabalho da pessoa. Ou seja, uma boa relação entre os familiares, e a educação é primordial para isso” ressalta.

Além da questão do rompimento dos laços familiares e comunitários, a drogadição também é muito sistemática e facilitadora nesse processo de desabrigo. O financeiro se torna também um fator de potencialização deste número. Ademais, outras questões podem levar as pessoas a esse quadro, abrangendo mais a questão sentimental, como desilusões amorosas ou problemas de saúde mental.

Qual o papel do município?

Claudio Ricardo, atual Presidente da Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação (Citinova), desempenhou diversas atividades junto com a Prefeitura de Fortaleza em busca de melhorar as condições das diversas pessoas que se encontravam sem uma residência e alheias às ruas da capital cearense. “Quando fui eleito à época presidente do Conselho dos Gestores da Assistência Social (Coegemas), o objetivo era realizar uma política popular mais aprofundada e mais abrangente para as pessoas em situação de rua em Fortaleza. Começamos o trabalho, abrimos mais um Centro POP, no Benfica, criamos uma Pousada Social para abrigar as pessoas por pernoite, um Centro de Convivência para pessoas em situação de rua, programas de desenvolvimento das Artes, um abrigo para famílias com crianças, entre outros”, comenta o presidente da Citinova.

Vereadora Larissa Gaspar, foto: Genilson de Lima

Mas para entender a situação, é preciso ter uma estudo para que depois políticas-públicas sejam realizadas. Para a vereadora de Fortaleza Larissa Gaspar, presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara Municipal de Fortaleza, esse índice de pessoas na rua deve ter triplicado nos últimos quatro anos. “Com o aumento do desemprego, com os desmonte das políticas-públicas, com corte dos investimento em saúde, educação, assistência e direitos humanos, isso tem um reflexo nas pessoas que vivem nas ruas”, enfatiza.

A vereadora lembra que existe um trabalho em conjunto com a Defensoria Pública na fiscalização dos abrigos sociais. “Nós recebemos muitas denúncias, a falta de infraestrutura é a principal delas. Pra você ter uma noção, algumas casas de passagens não possuem banheiros separados, ou seja, homens e mulheres dividem os mesmos espaços, e em algum deles, faltava inclusive portas. A gente quer garantir os direitos dessas pessoas”.

Após Larissa Gaspar escrever e detalhar o projeto, ele precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça, e depois de aprovado pelo relator, vai para a Comissão Temática (Direitos Humanos), só após essas etapas é que o projeto vai para votação no plenário. “A gente tenta agilizar o máximo possível, mas não depende só da gente, pra você ter uma ideia, existem alguns projetos na área de infraestrutura que demora menos de duas semanas para serem aprovados pelos vereadores”, ressalta.

Existe um projeto tramitando também relacionado a locação social. Hoje, o benefício é deferido pela Habitafor e pela Defesa Social, mas a vereadora acredita que a Secretaria de Direitos Humanos é quem deveria ser a ordenadora desses alugueis. “Existem pessoas nas ruas e que demandam desses alugueis. Além disso o número de benefícios e abrigos deveriam ser aumentados”.

Além dos abrigos oferecidos pela prefeitura, Organizações Não Governamentais também prestam apoio a pessoas em situação de Rua. Vários grupos oferecem sopões, nos mais diversos bairros da Capital, principalmente, na praça do Ferreira, local que abriga centenas deles.

“A gente tem o poder de fazer o mínimo e o máximo, isso é da gente, sempre vamos ter…” Alexandre Taumaturgo, técnico de enfermagem e ex-morador de rua

Pastoral da rua

“Uma pastoral social sempre vai nascer de uma realidade gritante, uma realidade que desafia vidas, que destrói vidas e a pastoral reconstrói.” A Pastoral do Povo da Rua é um trabalho social mediado pela Igreja Católica desde 2002 e idealizado pelo padre Junior Aquino, que conheceu o projeto em Belo Horizonte e começou sua luta para trazer para cá.

Para iniciar o trabalho, começaram com visitas às ruas, conhecendo a realidade. Após muito estudo, em 2004, oficializaram a pastoral. O trabalho consiste em estar junto ao povo da rua, caminhando ao lado deles e, juntamente com eles, desenvolvem ações, projetos para transformação de vida. O trabalho social é totalmente voluntário. Às segundas tem uma parceria com o curso de psicologia da Unifor em que tratam toda a questão do resgate da pessoa e sua integração na sociedade. Às quartas são as políticas públicas e, na sexta, oração com ação.

Movimento de rua

“Enquanto a minoria decidir pela maioria, nunca vamos pra frente. O povo tem voz, mas não tem poder de decisão. Mas vamos continuar na luta, vai ser difícil alcançar nossa vitória, mas vamos conseguir”. “Paixão” e José Carlos, ex moradores de rua, fizeram parte do Movimento de Rua por 10 anos, de 2009 até 2019, e agora estão fazendo reuniões para novas lideranças.

Reunião dos ativistas do movimento de rua, foto: Victor Lima, Sabrina Esteves, Luan Viana e Mariana Quariguasi.

Os moradores de rua participam e debatem diretamente com as secretárias de assistência social, da saúde e da educação para conseguirem o básico. As conquistas são poucas e com muita luta, somente 2% das pessoas em situação de rua foram beneficiadas com moradia e com emprego.

Morar na rua é tão viciante quanto o álcool ou as drogas, porque vira um ciclo vicioso. Paixão relata que, se um indivíduo sentar na Praça do Ferreira para comer, passará melhor do que muita gente que trabalha. Na rua, existe a possibilidade de comer a todo instante. Existe também fácil acesso às drogas e ao sexo, consideradas maneiras de conseguir dinheiro e viver “livre”. Muitos moradores de rua não têm vontade de voltar para casa, porque essa forma de viver condiciona a só se querer mais, afinal, sentem-se livres e podem ter acesso ao que quiserem, como drogas, sexo e comida.

Em contrapartida, Zé Carlos explica há muitos desabrigados que só estão esperando uma oportunidade para sair da rua, e os equipamentos de habitação que a Prefeitura disponibiliza não demonstram serem efetivos. “Mesmo nos equipamentos, a população é oprimida, é um espaço de permanência mas não dão oportunidade de emprego para as pessoas em situação de rua. Imagine você, nos seus 20-35 anos, vivendo uma vida ativa em todos os aspectos, iria querer perder sua liberdade para ficar dentro de um espaço fechado que só lhe oferece comida e um lugar para dormir?” Para Zé Carlos e Paixão, os equipamentos devem promover uma oficina sócio-educativa e um trabalho psicológico para que os moradores de rua reestruturem suas relações interpessoais, sejam elas na forma de amizade ou na forma matrimonial.

Centros Pops

  • Benfica

               –  Av. Universidade, 3215

  • Centro

             – Rua: Jaime Benévolo, 1059 (funcionamento de 8h às17hrs)

Acolhimento Masculino

  • AV. Francisco Sá, 1833, Jacarecanga (funciona 24hrs)

Acolhimento Feminino

  • Rua: Osvaldo Aranha, 31, Parangaba (funciona 24hrs)

Esta matéria foi produzida na disciplina de Jornalismo Investigativo, confira o link original clicando na imagem abaixo:

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