Os novos rostos do investimento

Por Natália Coelho e Larissa Carvalho

Casar, sair de casa, pagar pelos estudos, viver fora ou até ficar rico. Esses são alguns dos objetivos que permeiam os pensamentos dos jovens do século XXI. Entretanto, essas metas entram em conflito com um obstáculo: o capital.

Segundo pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) de 2019 sobre jovens de 18 a 24 anos, 53% dessa geração já realiza controle das finanças pessoais, ao passo que 78% já tem alguma fonte de renda. Nesse cenário, é possível observar um número relevante de jovens que já ganha dinheiro e já o administra.

Ainda segundo a análise, 52,8% dos integrantes desse grupo que consegue guardar algum dinheiro no final do mês, ainda mantém o dinheiro em poupanças. 24,6% guardam em casa e 20,2% em contas-corrente. Essas formas mais tradicionais de economia não só facilitam o acesso ao dinheiro – o que dificulta no objetivo de economizá-lo -, mas têm rendimento baixo ou até nulo.

Mas seja para um novo celular, casar ou até garantir a aposentadoria, o fato é que a educação financeira, aliada com a facilidade do processo de investimento, tem feito aumentar o número de jovens que resolve colocar parte de seu dinheiro em formas menos tradicionais. 

“Eu queria ser rico”

“Nunca coloque os ovos na mesma cesta”, é o pensamento de Wellington Prata, 23, quando se fala de investimentos. Nunca apostar em somente um tipo de renda, seja título ou ação. O estudante de Engenharia Mecânica investe por meio da empresa Focus Investimentos, a qual é sócio, e opera com diferentes tipos de transações, entre renda fixa e variável. Mas, antes mesmo de começar a investir, ele já tinha em mente diversos objetivos que o levaram por esse rumo.

Wellington Prata, foto: Natália Coelho e Larissa Carvalho

“Eu queria ser rico, desde criança. E queria saber como uma pessoa de vinte e poucos anos consegue ter uma Ferrari”, explica. Com essa mentalidade, Wellington revela que seu primeiro passo foi começar a pesquisar sobre o assunto e a buscar uma educação financeira. O pouco que sabia tinha vindo principalmente de videogames. “GTA (série de videogame), por exemplo [risos]. Tem determinada parte que você compra propriedades e, geralmente, elas não estão muito boas. Você vai reformando e melhorando o rendimento da empresa”.

Com mais dois amigos, e já com certa experiência no mercado após ter trabalhado em outra empresa de investimentos, Wellington abriu a Focus em novembro de 2018, ainda na perspectiva de acumular riqueza. A empresa, que utiliza corretoras para suas transações, trabalha com renda variável por meio do mercado de ações e a troca de câmbio, mas o estudante garante que opera com o máximo de segurança possível.

O determinante para um bom investidor, segundo Wellington, é a busca da educação financeira, principalmente por meio da internet, entre canais de Youtube e contas de Instagram. Para ele, não adianta começar a ganhar dinheiro se não souber como administrá-lo. “O jovem é muito ansioso. Não é a toa que o brasileiro gosta de parcelar”, alega.

​”Não quero acumular riquezas”

A segurança é o principal objetivo de Mateus Carneiro, 20, quando questionado sobre o motivo de investir. O estudante de Administração detalha que já investe há mais de um ano e que a necessidade surgiu de se manter seguro caso haja algum imprevisto.

“Eu já tinha na cabeça que eu precisava economizar, caso necessitasse de dinheiro. Se saísse do estágio, como eu iria me manter?”. Essa foi a principal motivação de Mateus para buscar formas alternativas de gerar dinheiro. Ele explica que mantinha certa quantia em conta poupança, mas que o rendimento não era o esperado, nem satisfatório.

O estudante afirma que, antes de tirar o primeiro centavo do bolso, seu primeiro passo foi pesquisar sobre o assunto. A insegurança sobre seus investimentos era o principal empecilho, mas o acesso à educação financeira foi essencial. “Na faculdade, já tenho acesso ao mercado financeiro. Mas busquei também na internet, em canais de Youtube. Foi depois de muita pesquisa que fiz o primeiro depósito. É um meio que todos conseguem ter acesso”.

Com o aumento das aplicações, ao mesmo tempo do rendimento, Mateus resolveu, então, pensar mais alto. Além de manter dinheiro na reserva, viver em outro país começou a fazer parte da finalidade desse capital. “Hoje em dia, eu poupo porque tenho a intenção de estudar fora, em Portugal. Eu não quero ser rico, mas sim ter um padrão de vida estável. Não quero acumular riquezas, mas sim experiências”.  

“O ser humano é movido a propósito”

“Nem sempre você consegue ser plena nos seus gastos”, foram as primeiras palavras da jornalista Clara Marques, 24. Depois que quitou suas dívidas quando ficou desempregada em um momento, ela se viu motivada a planejar sua vida nos próximos anos em conjunto com o namorado, João Victor Soares, 23. “O ser humano é movido a propósito”, disse Clara. Hoje, eles já estão próximos de alcançar o primeiro objetivo: adquirir um apartamento para morar juntos. O que antes parecia mais difícil de alcançar.  

Ela lembra que estava endividada antes de começar a trabalhar no Instituto do Câncer do Ceará (ICC), quando ingressou no Programa de Trainee, no ano passado. Com os relatos dos colegas de trabalho, ouviu falar da corretora de investimentos, Warren.

A Warren é uma fintech (startup de inovação) de investimentos, cujo rendimento é direcionado para ações e renda fixa. A plataforma existe desde 2014, onde a ideia nascido nos Estados Unidos da América (EUA) e criada no Brasil. Seu principal propósito é simplificar esse processo de investir o próprio dinheiro. Antes de tudo, o robô conversa com o usuário para traçar um tipo de perfil de investidor e sugerir o que será melhor para a situação, mostrando cenários diversos. Depois, a plataforma oferece quatro tipos de objetivos: “emergência”, “renda mensal”, “meta” e “livre”. Cabe um pode escolher no que vai aplicar e quanto será a quantia, a partir de R$ 100 reais.

“Gastar melhor e investir é um processo natural e muito gratificante”

Ulle faz investimentos em bancos digitais, o BTG Pactual e Modalmais.
Foto: Arquivo pessoal

“Não espere até ‘ter dinheiro’ para começar a investir”, é o que pensa a graduada em Ciência Política e Relações Internacionais, Ulle Campos, 24. Ela começou a pesquisar sobre planejamento financeiro há pouco mais de um ano. “Senti a necessidade de estudar e investir. Foi uma progressão natural”, diz Ulle ao apontar que “os primeiros passos podem ser tomados antes de você ter um centavo sequer”. Essa é uma de suas reflexões quando o assunto é gestão financeira pessoal. Estudar gastos, fazer orçamentos e aprender sobre investimentos são exemplos expostos pela mestranda da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). 

Investimentos em bancos digitais?

Os bancos digitais têm ganhado espaço no mercado de investimentos e tem sido bem atrativos para os jovens, na visão do professor e pesquisador em finanças pessoais da Universidade Federal do Ceará (UFC), Érico Veras, 52. “Eles são mais baratos e oferecem uma rentabilidade do dinheiro que é deixado lá”.

Conforme orienta, o professor destaca sobre a necessidade de entender como funcionam as tarifas desses bancos e quais os serviços que eles disponibilizam. “Vão surgir vários bancos nessa modalidade e alguns jovens vão conseguir navegar muito bem nesse ambiente das fintechs. Nós vamos ter nos próximos anos o surgimento de várias fintechs com várias oportunidades. Será preciso entender qual o benefício e serviço de cada uma. É uma boa alternativa para os jovens“, projeta.

Esta matéria foi produzida na disciplina de Jornalismo Digital, confira o link original:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php