Ensaio sobre recomeços

Por Lara Montezuma

O Grupo Mirante de Teatro Unifor surgiu como um recurso didático para as aulas e acabou se tornando um “oásis cultural” em meio à vida acadêmica. Com 15 integrantes, dentre eles alunos, ex-alunos e convidados, o coletivo cria produções que ficam em cartaz tanto na Universidade de Fortaleza (Unifor), quanto nos demais teatros da cidade. Em 2019, o  Grupo Mirante de Teatro Unifor comemora 35 anos de formação com um repertório extenso e bem sucedido.

Entre os projetos, destacam-se as peças, que têm temporadas fixas no Teatro Celina Queiroz durante as férias, e o “Arte com Arte”, uma sessão de contação de histórias que acontece aos sábados no Espaço Cultural da Unifor. Quem está no comando é Hertenha Glauce, diretora do Grupo desde 2015. O Jornalismo NIC conversou com a profissional que é guiada pela arte para conhecer um pouco mais de sua história.

Artes cênicas

A vida de Hertenha é feita de recomeços. Nascida e criada em Fortaleza, ela iniciou a trajetória no teatro ainda na faculdade, quando conciliou o curso de extensão de artes cênicas com a graduação em História pela Universidade Federal do Ceará (UFC). “Meu foco já estava totalmente voltado para o teatro (…) Era um curso bem rigoroso, de 2000 horas”, relembra. 

A então estudante passou dois anos conciliando o curso e a sua mais nova profissão de professora. A sua primeira grande mudança apareceu nesta época. A turma de formação de artes cênicas iria viajar em turnê com o espetáculo de conclusão, “A Cantora Careca”, e ela não conseguiu liberação da escola em que trabalhava para ir com a trupe. Decidiu largar o emprego para viver o seu sonho.

Desde então, a profissional trilhou o seu caminho na atuação. Hertenha fez especialização em Arte e Educação pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) e mestrado em Arte e Educação pela Universidade Aberta de Lisboa. Em 1997, foi convidada para participar do elenco do Grupo Mirante na peça “As Anjas”, com a qual ficou em cartaz durante três anos. 

Herança artística

Talvez a afinidade de Hertenha com a arte tenha sido predestinada. O seu nome é a mistura dos nomes de seu pai, HERmano, e de sua mãe, TEreziNHA, de quem afirma ter puxado, respectivamente, o lado artístico e o jeito de “ir atrás e conseguir”. Já Glauce foi sugerido pelo seu pai, cantor de rádio do Trio Jangadeiro durante os anos 50, em homenagem à atriz Glauce Rocha. “Nos eventos familiares, sempre tinha uma roda com violão e ele cantava lindamente”, conta saudosa. 

Foi com essa bagagem artística e perseverança que Hertenha conseguiu o papel de diretora em 2001, após um processo seletivo, no qual ficou até 2010. Ela reassume o seu posto em 2015, após passar um período na Holanda. Desta vez, casada e mãe. Hertenha afirme que ser diretora é um desafio por ter que gerenciar muitas pessoas e as suas necessidades individuais. 

“A minha pesquisa é muito maior no sentido de dar condições para que o elenco construa comigo o espetáculo, tanto que eu costumo chamar o elenco de ator-criador”, explica. A recompensa profissional e pessoal vem quando a temporada de peça inicia, os teatros lotam e as pessoas gostam. 

Arte que transforma

Quando questionada sobre o cenário artístico cearense, Hertenha destaca a atividade de grupo, o que avalia como uma especificidade do Ceará. Segundo a diretora, existe um trabalho árduo de grupos de teatro que se dedicam para movimentar a cultura local e manter pulsante o teatro no Estado. “É uma batalha diária, é preciso entender que você precisa correr atrás, que viver de bilheteria é quase impossível. Você pode viver de teatro, mas não dá para viver sendo atriz ou diretora”, discorre. 

Por isso, é importante produzir e consumir arte de todas as formas possíveis, considerando que ela também tem o potencial de transformar o público. Diante do cenário político, social e econômico atual, a artista afirma que esta forma de expressão chega como um respiro de alívio. “A arte suscita alguma reflexão, ela é muito mais simbólica (…)  Essa reflexão se torna uma transformação que te tira de uma posição de paralisação e te leva à ação”, defende. 

É este o intuito que está por trás das criações do Grupo Mirante. A principal pergunta que ecoa durante a produção de alguma peça é: “o que nós queremos com este espetáculo?”. Hertenha exemplifica este processo com alguns dos espetáculos do coletivo. Com “Dom Quixote”, o objetivo era fazer com que os espectadores acreditassem que sonhar é possível. Já “O Pequeno Príncipe” conseguiu comover o público e  os levou à reflexão sobre valores e laços de amizade. A mais nova produção “A Flauta Mágica”, de Mozart, está sendo montada sob o recorte da travessia. “Não é o bem, nem o mal, é o percurso, a travessia”, destaca Hertenha.

“Não é o bem, nem o mal, é o percurso, a travessia” – Hertenha Glauce, diretora do Grupo Mirante de Teatro Unifor

Sonhos e afetos

Nas poucas folgas que tem, Hertenha se reabastece em seu lar. Casada há 10 anos, a diretora é mãe de Sofia, de 8. A menina a enche de orgulho e é com quem mantém uma relação muito próxima. Para que não falte carinho no cotidiano, elas criaram o “chamego time” e preservam um tempo de qualidade em família. “A gente nutre muito afeto na relação, de dizer e demonstrar diariamente que se ama”, conta.

Nos demais momentos livres, Hertenha se diverte como plateia e busca assistir os espetáculos que estão em cartaz na cidade. Leva a leitura, principalmente as de biografia, como hobby e diz que não consegue viver sem música, principalmente sem as canções de Cazuza, Cássia Eller e Oswaldo Montenegro, alguma de suas paixões. Para o futuro, ela deixa os planos de lado. Sua filosofia é construir a vida no presente e se sentir realizada no  “aqui e agora”. Seu único sonho à longo prazo é viver para ver Sofia trilhando o seu caminho nos seus próprios recomeços.  

Um comentário em “Ensaio sobre recomeços

  • 18 de julho de 2019 em 13:57
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    Linda! Maravilhosa, inteligente e excelente profissional!

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