Gordofobia : Um padrão pra quem?

Por Alexandre Bessa e Cadu Vasconcelos

A gordofobia é o estigma social preconceituoso atribuído a pessoas com sobrepeso ou obesidade. Devido ao padrão de beleza imposto pela sociedade, no qual o corpo ideal possui características de ser alto, magro, com curvas e sem celulite. O preconceito em relação a pessoas gordas faz parte do cotidiano de muitos. Em uma pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope)  e encomendada pela Skol Diálogos, foi revelado que a gordofobia está presente no cotidiano de 92% dos brasileiros. Porém, apenas 10% das pessoas que manifestaram algum tipo de preconceito contra pessoas com sobrepeso ou obesidade, assumem que são gordofóbicas.

Frases como “Ele é bonito, mas é muito gordinho”, “Casou com mulher gorda? Vai ter que trabalhar em dobro!”, ou ainda “Seu rosto é bonito, mas ficaria ainda mais se fosse magro” são disseminadas diariamente. O preconceito contra pessoas gordas é forte e atinge até mesmo atletas e celebridades. Recentemente, o ex-jogador de futebol Ronaldo “Fenômeno”, revelou nunca ter se sentido representado enquanto era vítima de comentários pejorativos devido a sua aparência física. “Não lembro de me defenderem quando me chamavam de gordo”, afirmou em entrevista ao jornal Financial Times.

O estigma social preconceituoso acompanha as pessoas vítimas de gordofobia, criando mitos como o de que se alguém é gordo, necessariamente não está saudável. Mesmo com a obesidade sendo considerada doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 2013, esse ainda é um assunto muito discutido. Para que uma pessoa seja considerada “obesa”, deve ser feito um cálculo utilizando aspectos como peso e altura para encontrar um número denominado Índice de Massa Corporal (IMC).

Porém, muitos nutricionistas acreditam que o IMC analisado isoladamente, não pode ser determinante para saber se uma pessoa é saudável ou não. Fatores como não determinar a composição corporal (distribuição de gordura e músculo), nem o valor da glicemia, ou não refletir a função renal, hepática, nem tireoidiana contribuem para esse argumento. “É o estereótipo que afirma que o saudável é o magro. Você pode achar que aquele ‘gordinho’ está doente, mas na verdade ele não está”, afirma o médico do esporte Thiago Schutte em entrevista para o portal Globo Esporte.

Resistência em foco

Ao perceber a realidade discriminatória de que muitas pessoas são diariamente vítimas, a jornalista Joseanne Nery, 23, resolveu produzir e dirigir o documentário “Gordofobia NÃO”, que busca questionar o preconceito e desmistificar questões pertinentes sobre a gordofobia. Entre os fatores que a motivaram a produzir o documentário está o relato de uma amiga que se inscreveu em um aplicativo de relacionamento para encontrar um par, porém, acabou sendo vítima da gordofobia.

“Minha amiga compartilhou comigo esse relato de que entrou no aplicativo para encontrar um parceiro, porém, acabou sendo motivo de chacota para um indivíduo. O rapaz em questão perguntou o que ela estava fazendo ali, pois era muito gorda e ninguém iria querer sair com ela. Também sempre percebi como as pessoas a olhavam em locais públicos. As próprias cadeiras desses locais não a comportam de forma confortável, pois até elas – as cadeiras – são feitas para acolher apenas um padrão imposto pela sociedade.”

Ela explica que o preconceito ainda é muito perceptível, entretanto, vive disfarçado em uma sociedade que finge se preocupar. “No documentário, a Bia, uma das entrevistadas, cita muito isso de que os exames médicos delas estão ótimos, porém, as pessoas insistem em dizer que ela precisa emagrecer para ficar saudável”, relata.

Jornalista Joseanne Nery, 23, produtora e diretora do documentário “Gordofobia NÃO”

De acordo com Joseanne, um outro estigma social é o de que pessoas gordas são assim por questões de escolha, desleixo, preguiça ou apenas a vontade de comer muito. No entanto, ela explica que essa não é a realidade. “Questões de genética e de tireóide também podem influenciar no sobrepeso de um indivíduo. Ou seja, a saúde não está diretamente ligada à magreza. Esse ainda é um estigma social existente”, completa.

 

Para a jornalista, é necessário trazer o tema para debate, que médicos  pesquisem mais sobre o assunto e que sejam pensadas formas de ajudar as vítimas de gordofobia. E finaliza: “Entender o preconceito é o primeiro passo para desmistificá-lo. Opiniões de médicos e profissionais da área são de muita importância, pois oficializam o debate. Uma outra grande ferramenta são as redes sociais, que dão voz àqueles que são vítimas da gordofobia”.

As consequências da gordofobia

Um estudo publicado na edição de junho de 2015 da Social & Personality Psychology Compass indica que pessoas que sofrem gordofobia têm maior probabilidade de desenvolver depressão, ansiedade, dependência química e baixa autoestima. “Muitas pessoas se isolam para lidar com a ansiedade. Essas manifestações podem ficar mais rigorosas quando sintomas físicos começam a aparecer, como dor de cabeça, gastrite e a imunidade enfraquecida”, explica Terezinha Façanha, 58, professora do curso de Psicologia da Unifor.

Maria (nome fictício), 23, relata as dificuldades sofridas durante sua adolescência. Ela conta que desenvolveu sérios problemas por conta da reprovação que recebia na escola. “Na minha passagem pelo ensino médio, quando eu tinha 16 anos, muitos me criticaram por estar gorda demais e isso me abalava muito por dentro, pois eu não demonstrava e guardava tudo para mim. Com um tempo comecei a desenvolver problemas sérios até ser diagnosticada com bulimia”, afirma.

Na minha passagem pelo ensino médio, quando eu tinha 16 anos, muitos me criticaram por estar gorda demais e isso me abalava muito por dentro, pois eu não demonstrava e guardava tudo para mim. Com um tempo comecei a desenvolver problemas sérios até ser diagnosticada com bulimia. – Maria (nome fictício)

Kaique leite, 23, estudante, conta que ainda é tabu falar de gordofobia. Ele acredita que as mulheres lutam cada dia mais para naturalizar o orgulho de seus corpos.  “O modelo de corpo ideal colocado pela indústria é algo que já está na cabeça das pessoas há muito tempo. Então é um trabalho duro para se desconstruir. Acho que com a internet, a informação circula mais rápido e pessoas dispostas a mostrar quem elas são é uma boa arma feita para se quebrar esses estigmas. Hoje em dia, me sinto bem mais a vontade e confortável para ser e mostrar quem eu sou do que antes”, considera Kaique.

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