Valorização do maquiador possibilita realização de sonhos

Por Thomás Regueira

Ao longo dos últimos anos, o setor da beleza cresceu de maneira exorbitante. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse setor está entre os 10 principais no segmento de varejo. Além disso, também de acordo com o IBGE, o brasileiro já gasta mais com beleza do que com comida, só para cuidar do cabelo e unhas, uma pessoa com renda de dois a dez salários mínimos gasta 1,3% do que ganha no mês, quase o dobro das despesas com alimentos básicos, como arroz e feijão (0,68%).

Segundo a empresa Euromonitor Internacional, o Brasil detém o 3º maior mercado na área de beleza do mundo, ficando atrás apenas do Japão e Estados Unidos. Mesmo em tempos de crise econômica, os brasileiros não abrem mão de cuidados pessoais com a aparência.

Com essa grande evolução de mercado, surgem mais oportunidades de trabalho para profissionais dessa área e também cursos profissionalizantes. De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), mais de 600.000 salões de beleza do país estão investindo na formação de seus funcionários para atender essa enorme demanda.

Levando em consideração este cenário, o Jornalismo NIC conversou com três maquiadoras para ouvir seus depoimentos como profissionais da área da beleza e quais suas perspectivas dentro desse mercado que tanto cresce.

Luana Gomes

Luana Gomes. Foto: Arquivo pessoal

Luana Gomes dos Santos, 19, maquiadora e professora de inglês, começou a se interessar por maquiagem desde criança, quando via sua irmã mais velha se maquiando e tentava reproduzir o que ela fazia. Atualmente ela maquia pessoas para eventos sociais, como casamentos e aniversários.

Uma das principais razões que levou Luana a começar a maquiar profissionalmente foi o grande crescimento no mercado da beleza e a valorização do maquiador, embora, segundo ela, ainda não é a ideal. “Como essa indústria de beleza cresceu, as pessoas mostram mais interesse e reconhecimento. Conheço pessoas que largaram seus empregos para serem chefes do próprio negócio nessa área. Isso abriu meus olhos”, comenta.

O seu público é variado, porém a maioria são mulheres jovens. E mesmo ganhando dinheiro como maquiadora, sua renda não vem somente disso, mas também das aulas de inglês que dá. Apesar de também ser professora, ela revela que pretende investir na sua carreira no ramo da maquiagem. “Quero investir em produtos melhores, fazer mais cursos e aprender técnicas novas com maquiadores que admiro. Também tenho vontade de dar cursos e formar outros maquiadores.”

Maquiagem por Luana Gomes. Foto: Arquivo pessoal

Raina Basttos e a Umakeup

Raina Basttos em seu ambiente de trabalho. Foto: Thomás Regueira

Raina Basttos tem 23 anos e é graduada em publicidade, empreendedora e maquiadora. Desde muito nova apresentava facilidade em mexer com maquiagem. Maquiava as amigas desde a época do colégio, porém sua trajetória como maquiadora profissional começou há mais ou menos dois anos, quando não estava satisfeita com seu trabalho. Seu pai sugeriu que fizesse um curso de maquiagem, já que era algo que sempre gostou. Acabou fazendo três cursos nesse período: maquiagem profissional, cabelo e penteado e design de sobrancelhas.

Ela começou atendendo tanto em sua casa quanto no domicílio da cliente, teve um investimento inicial alto em produtos de qualidade e em espaço. E para divulgar seu trabalho, criou uma conta no Instagram. Raina conta que nunca teve vontade de trabalhar em salão de beleza, por ser muito perfeccionista. “Nunca quis trabalhar em salão pelo ritmo. Em salão você não tem muito [tempo] pro perfeccionismo, tem que ir lá fazer e [já passa para] próxima, muito corrido”. Com o tempo, ela conseguiu visibilidade, aumentar os valores de suas maquiagens e a ver que tinha como viver em função desse trabalho.

Além de maquiadora, ela também é criadora de uma startup (empresa jovem), a Umakeup, empresa de serviços de maquiagem voltada para pessoas com deficiência e impacto social. Esse projeto começou quando descobriu que sua avó, que sempre foi muito vaidosa e ativa, estava com Alzheimer e perdendo progressivamente a visão. “Ela ficou muito debilitada e consequentemente parou de se cuidar. Víamos que ela estava muito cabisbaixa, muito triste e não sabíamos o que era. E um dia ela comentou que queria passar batom e poder secar o cabelo. Eu pensei, ‘se minha avó tá com esse problema, imagina pra quem nunca enxergou na vida? Como é a auto estima de uma pessoa cega ou que depende dos outros?’”.

Depois que ensinou as enfermeiras cuidadoras de sua avó a maquiarem ela, decidiu que queria fazer um trabalho voluntário em alguma associação para cegos, o que levou Raina a Associação de Cegos do Estado do Ceará (ACEC). Começou então a visitar o local durante a semana, para conhecer a vivência destas pessoas com deficiência visual. A maioria das mulheres ganhavam muito pouco e não tinham dinheiro para bancar um curso de automaquiagem, então Raina resolveu ensinar a essas mulheres com o seu próprio material. “Fui ensinando só falando como elas iam se maquiar, não peguei em nenhum momento na mão delas, fui só ditando ‘ó, esse produto faz isso e você vai passar assim’. No final conseguiram se maquiar perfeitamente, como se já soubessem há anos, e aí vi que a auto estima delas melhorou muito.”

A Umakeup surgiu como uma forma de extensão desse trabalho, que acabou indo adiante e inserindo Raina no meio do empreendedorismo, levando ela a finalmente se sentir satisfeita com seu trabalho. “Às vezes eu esqueço que é trabalho, porque eu trabalhei muito tempo pros outros, pros sonhos dos outros, aguentando muita coisa que eu sabia que não era certa. Eu tenho ética e empatia e as pessoas não tinham. Não adianta eu ganhar ‘x’ reais por mês, com uma coisa que eu não acredito. Acho que vou querer morrer fazendo maquiagem, porque eu amo isso, se tiver que passar 10 horas em pé fazendo maquiagem eu faço e saio morta de feliz”,desabafa.

A “Senhorita Chic”

Ana Paula Gomes. Foto: Thomás Regueira

Ana Paula Gomes, 44, também conhecida como “Senhorita Chic”, está há 15 anos atuando na área de maquiagem e cabelo e é presidente da Associação de Maquiadores do Ceará (AMC). Desde sempre foi obcecada pelo mundo da beleza, mas por ser de uma família de classe média alta, a sua expectativa era de que fosse jornalista. “A área da beleza não era vista com os [bons] olhos que é hoje. Esse sonho de trabalhar com o glamour, auto-estima e beleza ficou adormecido por muitos anos”, comenta.

Ela entrou no mercado cedo, quando se separou do pai de seus filhos e estava financeiramente organizada. Criou coragem para abraçar o mundo dos pincéis e das makes, investindo em capacitação profissional e produtos. “Me senti preparada pra me entregar 100% a isso e me qualificar. Fiz curso de maquiagem profissional, os cursos avançados na época tanto no Serviço Nacional de Aprendizagem comercial (Senac) quanto na associação dos cabeleireiros. O céu é o limite. Comecei a ir para Argentina, Uruguai, Dubai, Jordânia, Jerusalém para fazer cursos e perseguindo meus ídolos nesse segmento porque capacitação nunca é demais”.

Ela começou como autônoma atendendo a domicílio, ainda com maquiagens mais baratas e preços mais baixos. Só depois de sete anos, conseguiu o primeiro espaço próprio, a “Escola de Beleza Senhorita Chic”, num bairro da periferia de Fortaleza.

Atualmente a maquiadora trabalha em um grande salão de beleza no Eusébio, onde é especialista na área de noivas. Ela conta que seu trabalho no Ceará foi afunilando para essa área, que é sua grande paixão. “Deixar a mulher em sua melhor versão, plena e confiante para chegar no altar e celebrar em grande estilo, é a minha grande paixão”.

Ana Paula também é presidente da Associação de Maquiadores do Ceará, sendo a segunda associação da categoria no Brasil, existente há dois anos. O intuito dela é divulgar informação sobre a valorização e direitos do profissional maquiador. “A nossa categoria ainda está muito na informalidade, queremos mobilizar as pessoas sobre o benefício que isso pode trazer, para cobrar valores mais justos e banalizar o mercado. Queremos ter uma força como os médicos e advogados, que têm os honorários mínimos e máximos padronizados”.

Ela comenta que no estado existe um grande potencial para o mercado da beleza. “Aqui no Nordeste nós ainda somos profissionais que precisamos fazer múltiplos serviços, mas em contrapartida, onde quer que chegamos, temos portas escancaradas para profissionais cearenses. O mercado de festas e eventos no Ceará tem um potencial enorme. Igrejas e buffets são lotados de segunda a segunda, isso promove uma grande procura nos serviços de maquiagem nos salões de beleza.”

Segue abaixo galeria de um processo de maquiagem que Ana Paula realizou após a entrevista, na digital influencer Anna Victória (@delegadaannavictoria):

Serviço

  • Luana Gomes dos Santos: (85) 99998 – 8421 (telefone para contato);
  • Ana Paula Gomes: Loft Beauty Salon (@loftbeautysalon, Av. Eusébio de Queiroz 4808, Eusébio);
  • Raina Basttos: @rainabasttos / @umakeupbr / (85) 98165 – 3807 (telefone para contato).

 

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