Estudo acadêmico auxilia no combate à intolerância religiosa

Por Cadu Vasconcelos e Fayher Lima

O Ministério da Família, da Mulher e dos Direitos Humanos (MDH) – a partir das ligações que foram efetuadas ao disque 100 – divulgou resultado da pesquisa que aponta registro de 210 denúncias de intolerância religiosa no Brasil somente no primeiro semestre de 2018. As religiões de matriz africana são as principais vítimas de discriminação. A umbanda liderou o ranking com 34 denúncias, seguida do candomblé, com 20.

Mas essas não são as duas únicas religiões afro-brasileiras. Além delas, existem outras menos conhecidas, como catimbó, macumba, tambor de mina, dentre tantas. A principal diferença entre as duas religiões que mais sofrem preconceito no Brasil é que, no candomblé, os médiuns incorporam os orixás – deuses maiores da religião, abaixo apenas de Deus – e, na umbanda, são incorporadas entidades em posição subsequente aos orixás, mas que também os representam.

Palestra “Desmistificação da umbanda: um novo olhar para o religioso no campo acadêmico”, ministrada por Elita Cavalcante. Foto: Mabel Freitas

Os números de preconceito religioso justificam a importância da existência do Laboratório de Investigação em Corpo, Cultura e Comunicação (LINCCC) da Universidade de Fortaleza (Unifor). O grupo de estudo pesquisa as religiões de matriz africana, a partir da manifestação de interesse dos alunos.

 

Sob orientação da professora doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), Kalu Chaves, estudantes dos cursos de Comunicação da Unifor realizam encontros para debater, pesquisar e escrever artigos científicos sobre as religiões afro-brasileiras.

A professora fala sobre o surgimento e estudos do grupo. “Nosso grupo se reúne há bastante tempo e temos trabalhos bem legais. A ex-aluna Elita Cavalcante defendeu o mestrado na Universidade Federal do Ceará (UFC) sobre a performance da Pombagira. Nosso grupo não fica só no campo da religiosidade, mas sempre é voltado para a questão das culturas afro-brasileiras”.

Kalu Chaves. Foto: FotoNIC

Kalu Chaves relembra o caso de uma estudante que desconstruiu o preconceito acerca das religiões de matriz africana a partir dos estudos feitos pelo grupo. “Na universidade existem várias investigações que combatem à intolerância religiosa. Uma ex-aluna minha revelou sempre ter ouvido falar que ‘essas religiões eram coisa do demônio’, mas após ter lido o livro ‘Encruzilhadas da cultura’, de Tadeu Mourão, entendeu que essas entidades eram sujeitos marginalizados, da borda da sociedade”.

Rebeca Dodt, graduanda em Publicidade e Propaganda da Unifor, revela a experiência de participar do grupo. “Você tem a oportunidade de debater os olhares. Se eu possuir um olhar mais fixo nas artes plásticas ou na antropologia, vai existir alguém mais focado na performance ou na própria religião e isso é muito interessante. Mudei minha percepção enquanto pessoa e entendo a importância desses estudos”.

A origem e a persistência do preconceito religioso

O preconceito contra a umbanda é histórico. Segundo Elita Cavalcante, mestre em Comunicação pela UFC, a intolerância existe antes  da umbanda surgir como religião oficial. “Vem do preconceito racial e escravocrata. A umbanda não nasceu da elite social, não era representada pela camada branca, rica e escolarizada, ela nasceu nos quintais dos negros que não podiam se expressar fora de suas casas. Os que não a aceitavam, a associavam com o mal e com o demônio”, conta.

Ao responder sobre a persistência da intolerância, a mestre afirma que um dos motivos é o desconhecimento acerca da religião. “Relaciono a questão da ignorância com [o fato de] não se permitir conhecer além do que se ouviu falar. Ainda existe a associação da umbanda com o mal, mas o ser humano é quem vai ditar o [tipo de indivíduo] religioso que é. Existem pessoas boas e ruins em todas as religiões. O que não pode, em religião alguma, é generalizar”.

“Existem pessoas boas e ruins em todas as religiões. O que não pode, em religião alguma, é generalizar”. – Elita Cavalcante  

A pesquisadora produz artigos que apresenta em congressos e debates, com o objetivo de esclarecer mais pessoas com publicações de livros e textos sobre a umbanda. Nestes estudos, explica quais atitudes seguir para cessar o preconceito contra matizes afro-descendentes. “A partir de estudos, divulgação e apresentações da religião em ruas e eventos governamentais, [os frequentadores de ] terreiros de pais e mães de santos mostrariam para o mundo que a umbanda é maior que a fama histórica que ganhou. Quanto mais gente ouvir falar sobre a ela, mais forte o combate à intolerância religiosa fica”.

Menos estigmas

Cintia Martins sendo premiada no XXIII Encontro de Iniciação à Pesquisa da Unifor. Foto: Ares Soares

A integrante do grupo de pesquisa LINCCC, Cíntia Martins, foi premiada em primeiro lugar no XXIII Encontro de Iniciação à Pesquisa da Unifor, com o artigo ‘Quando homens incorporam as Pomba Giras: sobre a performance ritual na umbanda’. Ela, que também é estudante de Jornalismo da Unifor, conta sobre o estudo. Nosso objetivo desde o ínicio, era abordar a religião dentro de uma perspectiva menos estigmatizante para esses homens”.

 

 

Iara Pereira com seu prêmio do Expocom 2017. Foto: Pedro Vidal

 

A estudante de Publicidade e Propaganda da Unifor, Iara Pereira, a convite de Elita Cavalcante, fotografou um evento no terreiro Centro Espírita de Umbanda Rei Dragão do Mar. A foto intitulada “O Atabaque de Ogã” foi premiada na Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom), em 2017.  A fotógrafa relata o reconhecimento do trabalho religioso na premiação. Estou muito feliz de ter levado a beleza da umbanda para o Brasil. O ritual e a fotografia são comunicação e história. Eu queria marcar, de uma forma mais sensível, por meio do artístico, todo o festejo e movimento do ritual”.

 

 

 

Confira o ensaio de Iara Pereira:

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