“Esse corpo fala e incomoda dentro do espaço que a gente está”

Por Thomás Regueira

Mesmo que a maioria da população brasileira seja composta por pretos e pardos, cerca de 54,6%, de acordo com o censo demográfico do IBGE de 2010, muitas pessoas ainda não se reconhecem como negras. Essa pesquisa é também bastante imprecisa. Os dados são preenchidos de acordo com o que a pessoa acredita que se enquadra em seu perfil e, no caso da identificação étnica, ela pode preencher qualquer uma das cinco lacunas disponíveis: branco, negro, pardo, indígena e amarelo.

Outro fator que dificulta a autodeclaração de uma pessoa como negra é o racismo presente na sociedade. Há mais de 130 anos a escravidão foi abolida e considerada uma prática ilegal. No entanto, o Brasil ainda apresenta vários reflexos do racismo estrutural que permeia a sociedade em diversos setores. De acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNDA), os brancos têm maiores salários que os negros (quase o dobro), a taxa de desemprego é maior entre negros (5% maior) e, na porcentagem de mortes entre 2015 e 2016, 78% eram de pessoas negras.

Dentro dessa temática, o Jornalismo NIC conversou com Cristiane Sousa da Silva, 37, mulher negra graduada em Educação Física, mestra e doutora em Educação pela UFC (Universidade Federal do Ceará) e, atualmente, é professora no IFCE (Instituto Federal do Ceará), campus Jaguaribe, e é coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI). Ela falou sobre sua história de vida como mulher negra e sua carreira na área da educação e dentro do ativismo negro.

Escola

Cristiane nasceu em Fortaleza e é a mais velha de quatro filhos, sendo uma mulher e dois homens. Ela e os irmãos foram todos educados somente pela mãe, uma mulher que estudou até a sexta série (o que hoje seria o sexto ano do fundamental), começou a trabalhar aos sete anos como doméstica e teve que desempenhar tanto o papel de mãe quanto o de pai. Pelo fato de não ter continuado seus estudos, a mãe de Cristiane sempre batalhou para que ela e os irmãos tivessem oportunidade de estudar. “Acho que é uma história comum de quase todas as famílias negras, que, por meio do estudo, acredita-se nessa ascensão social”, constata.

Cris, como é chamada, sempre estudou em escola particular por meio de bolsa de estudo, e para mantê-la, teve que procurar ser a melhor da sala, o que a levou a se esforçar para ter boas notas. Terminou o ensino médio em 2000 e já pensava em ingressar no ensino superior pelo ambiente em que estava, porque a ideia de sua mãe era que Cris e seus irmãos terminassem o ensino médio e fossem trabalhar, mas acabou obedecendo a vontade da mãe. Trabalhou em caixa de uma farmácia por dois anos, mas não se sentia satisfeita lá. Depois que saiu do emprego, prestou vestibular para Educação Física por sempre ter afinidade com esportes. Ingressou na universidade e se formou em 2006.

Além de ser pressionada para sempre ser a melhor aluna, ela ainda sofria racismo na escola. E como não era orientada por ninguém sobre a temática, não entendia a gravidade do assunto. “Me chamavam de ‘nega do cabelo pichaim’. Aí, eu ia brigar, porque é uma, digamos, uma reação à violência, porque o racismo é uma violência. Não tinha consciência e aí brigava. Não recomendo, mas era uma reação natural. E minha mãe não me educou para isso, porque ela também não sabia”, explica.

“Brincadeiras que ainda hoje existem e que as pessoas dizem e naturalizam como não sendo ruim para a construção da identidade de uma criança negra” – Cristiane Souza

O reconhecimento como negra

Depois que Cristiane terminou a graduação, ela vai trabalhar na Secretaria Municipal de Esporte, onde participou de políticas públicas voltadas para esporte e lazer. Ela ajudava a levar esporte e lazer nas periferias da cidade. Nesse período, percebeu que era a única mulher negra ocupando um cargo na secretaria.

Em 2010, começou seu mestrado na Universidade Federal do Ceará (UFC), focado na linha de pesquisa vinculada a movimentos sociais, educação popular e escola no eixo de relações étnico-raciais. Cristiane começa a entender como o racismo é manifestado na sociedade. “Não desconsidero o antes, pois para entender isso precisaram vir outras coisas para que pudesse compreender o quanto o racismo é sutil. É sutil nas brincadeiras, na forma que entra na casa das pessoas por causa dessa invisibilidade da mídia. Ou então o extermínio da população negra retratado nos programas policiais”.

Sítio Veiga

Depois que terminou o mestrado, em 2012, iniciou sua trajetória como docente em instituições de ensino superior privadas, uma em Sobral e outra em Quixadá, nas quais era a única professora negra, dentre mais de 100 professores. Em Quixadá, ela resolveu criar um grupo de estudo sobre relações étnico-raciais na perspectiva de querer cumprir a Lei nº 10.639, que torna obrigatório do ensino básico ao superior a história e cultura africana. “Escolas públicas e particulares têm esse dever, quando na realidade não se cumpre. Reúno seis áreas diferentes: Direito, Fisioterapia, Psicologia, Educação Física, Arquitetura e Odontologia. Ninguém sabia o que era raça, racismo e genocídio da população negra”, comenta.

Na tentativa de colocar o conhecimento dos alunos desse grupo de estudo em prática, Cristiane propõe visitas a uma comunidade quilombola de Quixadá, chamada de Sítio Veiga, para que os estudantes trabalhassem de forma interdisciplinar as relações étnico-raciais. Através dessas atividades de extensão, a comunidade passou a desfrutar de serviços básicos oferecidos pela universidade, como tratamentos dentários e exames de Papanicolau, algo que antes as pessoas não tinham acesso.

Além de mudar a relação da comunidade com a sociedade, o projeto idealizado por Cristiane também ajudou a desenvolver um olhar mais sensível, tanto dos alunos quanto dos professores acerca da temática racial. “Foram feitos 7 trabalhos de conclusão de curso com recorte racial, algo que nunca tinha acontecido com cerca de 12 anos da universidade. Até mesmo dentro da Odontologia, que sabemos que é um curso hegemonicamente branco e onde a população negra não adentra, mesmo com as cotas, além de outros cursos que não chegamos por conta dessa hegemonia e privilégio. E ter um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) de odontologia falando de saúde pública dentro da comunidade quilombola, para mim foi uma vitória, assim como o curso de psicologia falando sobre isso”, relata.

Por conta desse projeto, muitas vezes ela chegou a ser questionada se não estaria fazendo muita coisa dentro dessa temática.“É muita coisa para quem não sabia de nada sobre questão étnico racial. Digo que o espaço onde eu estou, é também um espaço de luta, estar na sala de aula é um espaço de luta, estar no Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas é um espaço de luta, assim como no IFCE (Instituto Federal do Ceará), a gente sempre tem que trazer essa questão racial. Se a gente tá comprometido com essa pauta para que mais negros e negras estejam no ensino superior, permaneçam e fortalecer esses espaços, também contribuindo mesmo que indiretamente”.

“O espaço onde eu estou, é também um espaço de luta” – Cristiane Souza

A importância da representatividade

Nessa perspectiva de querer fortalecer os espaços em que a população negra ocupa, Cristiane compartilhou também o seu processo de aceitação do seu cabelo cacheado. “Alisava os cabelos durante o ensino médio, queria estar dentro do padrão. Parei de alisar também em 2011, quando me descobri negra, mas eu só andava com ele preso. Professora de educação física, às vezes, tem que prender o cabelo, foi onde eu comecei a andar com ele solto entendendo que esse corpo fala e incomoda dentro do espaço que a gente está.  Depois que eu iniciei minha vida acadêmica como professora, eu sempre fui com cabelo solto, porque era com essa pessoa que eu queria que os outros se identificassem”, relata.

Para sua alegria, uma ex-aluna sua de educação física lhe surpreendeu um dia. “Quando eu fui contar minha história, essa aluna ficou só ouvindo. Ela tinha o cabelo muito alisado, aquele famoso esticado à força. Às vezes, você conta uma história e pensa que ninguém vai ouvir, mas quando é no outro dia ela vem com o cabelo bem curto. Perguntei: ‘o que aconteceu?’ E ela disse: ‘vou passar pela transição capilar. Desde que eu tinha 8 anos, minha mãe alisa meu cabelo. Meu olho chega a ficar puxado de tanto minha mãe puxar meu cabelo para ele não ir solto para escola’. Tu tem noção de uma pessoa que, desde os 8 anos, alisa o cabelo, passar por um processo de auto-negação a vida inteira . E, aí, quando tu olha na tua professora negra com cabelo solto, uma identificação e fazendo com que outras pessoas se reconheçam?”, indaga.

“Esse corpo fala e incomoda dentro do espaço que a gente está” – Cristiane Souza

Hoje, Cristiane contribui para a construção de muitas outras identidades negras e luta por uma educação cada vez mais inclusiva e anti-racista. “Hoje tem pretos e brancos discutindo a questão racial, todos devem discutir. Quando a filósofa Djamila Ribeiro fala sobre local de fala é que o branco precisa entender o lugar de privilégio que ele ocupa dentro da sociedade, isso não impede que a gente discuta sobre isso. Também é importante estudar para que os conceitos fiquem evidenciados e claros para que não cometermos erros”.

Para conferir um pouco de como foi a entrevista, confira o vídeo abaixo: 

Créditos e edição e filmagem: Humberto Lopes

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