Deficientes visuais sofrem com mobilidade urbana em Fortaleza

Por Gabriel Lopes

A perda de visão, seja ela total ou parcial, dificulta a vida dos deficientes visuais e impacta negativamente na forma em que estes transitam.  Apesar da Lei Brasileira de Inclusão prever uma acessibilidade plena para todas as pessoas, o cenário atual não mostra isso. No ano de 2017, 430 notificações foram emitidas pela Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis) por conta de problemas nas calçadas. Apenas 10,3% dos semáforos são sonoros e auxiliam a travessia de rua dos deficientes visuais, segundo a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC).

Calçada nivelada. Foto: Kaio Machado.

O aposentado José Paes de Oliveira, 73, é deficiente visual e critica a situação das calçadas de Fortaleza. Ele afirma que estes locais dificultam a sua mobilidade pela cidade. “As calçadas são um negócio fora do sério. Para andar, só acompanhado mesmo, porque sozinho é muito difícil. E ainda tem aquelas plaquinhas, aqueles toldos, que a gente bate a cabeça, é um negócio sério”, reclama.

Em relação à situação dos poucos sinais sonoros, Paes prefere não se arriscar sozinho nas ruas de Fortaleza. “Eu ando muito pouco, mas quando tem o sinal sonoro facilita bastante. Quando não tem o sinal, eu tenho que andar com alguém, alguém tem que me ajudar a atravessar a rua”, explica.

Institutos para deficientes visuais

Instituto Hélio Góes. Foto: Reprodução.

Apesar disso, algumas organizações filantrópicas, como o Instituto Hélio Góes, buscam preparar os deficientes visuais para os desafios que eles irão encontrar nas ruas da capital cearense. O Instituto também pleiteia por implementações na acessibilidade nas vias, visando pressionar o Poder Público a tomar postura ativa nesta situação.

Andrea Barros, 42, professora e psicopedagoga, trabalha no instituto há 22 anos e elogia as recentes execuções de mobilidade feitas em Fortaleza em relação à acessibilidade dos deficientes visuais, mas ainda se diz insatisfeita. “Nós queremos que a cidade toda esteja acessível para as pessoas com deficiência visual ou mobilidade reduzida (idosos, obesos, pessoas machucadas). Isto é, direito para todas as pessoas,  o direito de ir e vir”, reivindica.

O Instituto Hélio Góes, localizado no bairro São Gerardo, oferece amparo aos cegos e também tem papel importante na reivindicação de melhorias nas vias fortalezenses, por meio do requerimento de obras que facilite o tráfego destas pessoas no cotidiano. Enquanto essas mudanças não são implementadas, o Instituto oferece aulas de orientação de mobilidade urbana para os deficientes visuais, com professores qualificados no tema que acompanham os alunos para que eles se acostumem minimamente com a locomoção na cidade.

Eficácia da acessibilidade

Andrea critica a falta de funcionalidade estruturais na cidade para cegos e afirma que “existe a acessibilidade, mas ela não é eficaz”. Sobre a questão legal, a psicopedagoga diz que existem muitas leis e projetos de lei que suprem as necessidades dos deficientes visuais no Brasil. Para ela, o problema está em sua aplicabilidade, que é bastante precária. A fiscalização é fundamental para que elas sejam eficazes.

Além do Instituto Hélio Góes, que possui uma escola e uma clínica, existem outros poucos centros de apoio aos cegos em Fortaleza, como a Associação de Cegos do Estado do Ceará (ACEC), localizada no bairro Farias Brito, e o EEF Instituto dos Cegos, localizado no bairro Antônio Bezerra. Apesar de escassos, esses centros são de fundamental importância para que os deficientes visuais possam ter mais acessibilidade na cidade de Fortaleza.

O Jornalismo NIC entrou em contato com a AMC para a réplica das queixas mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

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