“Eu me sinto feminino com o meu bigode”

Por Fayher Lima

A luta da comunidade LGBTQ+ por respeito se justifica nos números. Lésbicas, gays, bis, transgêneros e queer’s registraram 107 casos de LGBTfobia no Ceará em 2017, um aumento de 69,84% em relação a 2016. Os dados são os mais recentes fornecidos pelo Ministério dos Direitos Humanos (MDH), com base nas ligações realizadas para o Disque 100.  

A mesma pesquisa constatou que o Ceará registrou 22 casos de discriminação por identidade de gênero em 2017. Entre as vítimas dessa categoria estão as pessoas  não-binárias, aquelas que não se identificam com os gêneros masculino e feminino.

Gênero não-binário

Chate, 19, nasceu com a designação biológica ao sexo masculino, mas nunca se reconheceu nas definições do gênero. Hoje, se denomina como não-binário. A adoção de um nome neutro para compor sua identificação aconteceu aos 17 anos.  “Eu peguei o nome Chate como uma identidade artística para assinar minhas artes, mas virou mais que isso, virou minha expressão de identidade”, relata Chate que é estudante de jornalismo.

Desde a infância, Chate questionava as imposições de gêneros. Mais que brincar de bonecas ou carrinhos, aquela criança queria validar sua imagem além dos padrões definidos como feminino ou masculino. “Eu sempre via minhas irmãs de cabelo grande, com umas roupinhas que eu não podia usar e eu tinha que ir por um caminho muito inverso. Quando você é criança, as roupas são muito binárias. Não que eu queria ser menina, mas eu queria usar coisas que minhas irmãs usavam”, revela.

Definições de gêneros

A mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Stéphanie Pinheiro, explica sobre o surgimento dos conceitos de gênero. “O conceito de gênero foi criado por John Money na década de 1940 e surgiu dentro dos estudos sobre a sexualidade humana. O conceito era associado ao sexo biológico, e foi apresentado por Money como ‘possibilidade de alteração e adequação’ de acordo com Preciado, isto é, um mecanismo normalizador da estética binária macho e fêmea. Com o desenvolvimento desses estudos e a Teoria Queer, o conceito de gênero ganhou outra dimensão.  Para os ‘Posmoneyista’, o gênero é materializado através do tempo e, justamente por isso, é flexível, interno, assimilável”.

A construção de Chate

Chate em ensaio fotográfico. Foto: @rua.zero

 

O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) permitiu, em 2018, pessoas trans mudarem de gênero nos documentos. Apesar da possibilidade, Chate não pensa em realizar a mudança. “Não tenho a necessidade de validar, mas, ainda assim, outro dia fui ao médico e nos papéis só tinham as opções ‘masculino’ e ‘feminino’, e marcar masculino me incomodou, não que eu quisesse marcar feminino, mas seria tão bom ter a opção outro”.

“Ser chamado de Thiago nos cantos é ok, mas ser reconhecido como Chate é legal. Todo mundo no trabalho já me reconhece assim, se as pessoas no trabalho me chamam de Chate, já não é mais um apelido, é uma identidade”.   

Em relação a qual pronome pessoal utilizar, se ele ou ela, Chate responde que é uma escolha individual. “Isso varia muito entre pessoas não-binárias, mas, pra mim, tanto faz. Sou de boa com os dois”.

A construção da imagem de Chate é feita a partir da estética andrógina. “Eu pego o que eu quero do universo tido como feminino e do universo masculino e monto como eu me sinto bem. Eu tô muito bem como não-binário. Quanto mais feminino eu me visto, melhor eu me sinto”.

“Eu me sinto feminino com o meu bigode”  

Visão social dos gêneros

Sobre a sociedade enxergar o gênero de uma pessoa a partir de seu corpo biológico, Stéphanie Pinheiro responde: “De acordo com Adelman, Foucault e outros estudiosos da sexualidade humana, a partir do século XIX, na Europa, uma série de políticas higienistas foram adotadas, dentre elas estava a investigação e classificação das pessoas quanto ao seu sexo e às suas práticas sexuais. Posteriormente, já no século XX, surge o conceito de gênero associado ao sexo biológico criado por John Money na década de 1940, e só depois desenvolvido por outros pesquisadores. Assim sendo, levando em consideração que esse arcabouço teórico relativo ao corpo e às sexualidades é recente e questiona uma forma de ver o mundo amplamente aceita e estabelecida, é possível compreender por que a ‘sociedade’ ainda vê o corpo biológico como uma ‘essência’ de como cada indivíduo deveria ser e se comportar”.

Combate às imposições de gêneros

Chate em ensaio fotográfico. Foto: @rua.zero

A bandeira levantada por Chate vai além da luta pelo reconhecimento social do gênero não-binário, pois busca igualdade e desconstrução de gênero. “Você lutando contra a desconstrução de gêneros liberta mulheres, homens e  gays. Eu tô lutando por todas as causas. Por uma discussão maior sobre gênero, pelo entendimento que isso é uma construção social e que você não precisa ir por esse caminho que lhe foi predestinado. Você pode ir se modificando ao longo do tempo. O não-binário, mais do que todos, é livre por não ter apego em relação a gênero”, conta Chate.

*A construção desse texto evitou pronomes pessoais. A utilização de pronomes neutros ocorreu em respeito a identificação de Chate.*

2 comentários em ““Eu me sinto feminino com o meu bigode”

  • 10 de abril de 2019 em 15:49
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    Cara, que matéria sensacional! <3
    fay ícone inabalável e chate donx da porra toda!

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  • 10 de abril de 2019 em 18:59
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    Muito bom! Parabéns pela pesquisa e pela ótima matéria!!!

    Resposta

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