Mulheres motoristas de aplicativos trabalham com medo

por Alexandre Bessa

De acordo com a Confederação Nacional do Transporte (CNT), a demanda feminina cresceu 60,4% nos cursos voltados aos transportes de passageiros, produtos perigosos e transporte escolar do SEST SENAT  (Serviço Social do Transporte / Serviço Nacional de Aprendizagem no Transporte) nos últimos cinco anos. Além disso, um estudo divulgado por uma empresa de transporte privado urbano por aplicativo, em 2017, informava que 27% de seus motoristas eram do sexo feminino. Todavia, apesar dessas conquistas, o trabalho continua sendo um desafio diário e, muitas vezes, inseguro.

Grande parte das mulheres empregadas neste meio afirmam que já sofreram algum tipo de violência durante o processo. A condutora Luciana Carneiro, 41, recorre a medidas preventivas para garantir a sua segurança. “Sempre questiono quem solicitou a corrida. Não consigo deixar a pessoa entrar no carro se for algum nome diferente, tenho muito medo do que possa vir a acontecer”, alega.

Para a motorista de aplicativo Rebeka Camurça, 30, o cuidado e atenção devem estar sempre presentes na realização do ofício. Ela, que além de motorista, também é professora, explica que se encontra constantemente tensa ao transportar passageiros do sexo masculino. “É necessário sempre estar atenta à postura do passageiro, seu comportamento durante a viagem e os locais de embarque e desembarque. Nós – eu e um grupo de amigas que também são motoristas – criamos um grupo para que possamos nos proteger”, comenta ao ser questionada sobre precauções que costuma tomar em serviço.

O trabalho de motorista costuma ser sempre associado à figura masculina, principalmente, por tabus que envolvem a fragilidade feminina e o preconceito de que mulher não sabe dirigir. Ao longo dos últimos anos, muitas mulheres vêm quebrando esse estereótipo e conquistando seu espaço dentro dessas profissões. Atualmente, dos aproximados 2,2 milhões de profissionais do transporte no Brasil, 17% são mulheres, segundo o Ministério do Trabalho e Previdência Social.

Presença feminina

A motorista Amara Gomes, 27, relata que ainda existe muito receio da parte do público masculino em estar num carro dirigido por uma mulher. Ela atua na área há 3 anos e obtêm sua renda unicamente deste trabalho. O preconceito evidente de alguns passageiros chegou a causar certo desconforto no início da profissão. “Quando comecei era constrangedor. Porém, hoje em dia, é tranquilo, me sinto mais confortável com a situação”, explica.

Ela considera ser motorista de aplicativo uma profissão necessária. De acordo com Amara, as clientes gostam e se sentem seguras quando a motorista é uma mulher.  “Acho importante ser capaz de proporcionar essa segurança. Acredito que, por causa da insegurança, muitas mulheres sentem medo de exercer essa profissão. É nesse sentido que o serviço [dos aplicativos] ainda poderia melhorar. De alguma forma, oferece um pouco mais de segurança para as mulheres”, completa.

Serviço exclusivo para mulheres

Foi pensando na questão da insegurança sofrida pelas mulheres que duas empreendedoras criaram o aplicativo de transporte privado voltado para o público feminino de Fortaleza, o DivasFor. Iniciativa pioneira na cidade, o aplicativo não impede o embarque de passageiros do sexo masculino, desde que estes estejam acompanhados de uma mulher. No momento, o aplicativo está passando por uma reformulação para melhoria de sistema e foi contratado por uma empresa terceirizada especializada no mercado, visando uma elaboração mais completa. O DivasFor está aguardando a liberação da Prefeitura para dar continuidade às atividades.

De acordo com Cibele Bezerra, 49, uma das criadoras do DivasFor, a ideia é que o serviço integre também corridas de motos, entrega e agendamento de corridas, além de serviços exclusivos para idosos e pessoas com deficiência. “A ideia do aplicativo não é só fazer o transporte de pessoas, mas também de outros serviços”, exemplifica.

Rebeka Camurça também é motorista do DivasFor e explica que o projeto surgiu em um grupo de uma rede social. As participantes trocavam sugestões do que poderia ser feito para melhorar a segurança de pessoas do sexo feminino em viagens com motoristas de aplicativos de transporte. “O mercado existente ainda enfrenta muitos desafios, como o machismo na profissão de motorista. Há pelo menos uma década ele [o mercado] era destinado quase que apenas para homens. Atualmente, as mulheres têm conquistado esse espaço com muita resistência e o DivasFor vem para fazer parte desse processo”, contextualiza.

 

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