Documentário retrata boates gay da década de 80

Por Thomás Regueira

Atualmente, a cultura LGBT está ganhando notoriedade tanto no Brasil como no exterior. Nos Estados Unidos, o reality show “Rupaul’s Drag Race”, onde drag queens competem pelo título de “próxima estrela drag da américa” fez tanto sucesso que já é parte da cultura mainstream. No Brasil, as drag cantoras como Pabllo Vittar e Gloria Groove estão entre os artistas nacionais mais ouvidos e têm uma grande legião de fãs.

Pensando nisso, a claquete desta semana é sobre o documentário ‘Paris is Burning’ de 1991, dirigido e produzido por Jennie Livingston. Ele retrata  a cultura e o surgimento dos bailes (“balls”) nas boates LGBTs da periferia de Nova York, Estados Unidos, durante os anos de 1980. Apesar de antigo, a temática e a importância do filme continuam extremamente atuais, por influenciar diretamente a cultura LGBT contemporânea e porque as questões retratadas no filme em relação à pobreza e ao preconceito continuam atuais.

Temática

Competição de desfile em um baile. Foto: Reprodução

Em uma época em que havia muita pobreza e a epidemia da AIDS estava em alta, os gays e transsexuais da periferia de Nova York, em sua maioria negros, eram completamente marginalizados pela sociedade e não tinham nenhuma oportunidade de vida. Grande parte eram expulsos de casa pela família e não tinham quaisquer perspectivas de ascensão profissional e qualidade de vida.

Por causa desses fatores, as boates LGBTs serviam como uma espécie de refúgio do mundo. Lá, eram realizadas as balls (bailes), concursos em que drag queens, transsexuais e gays desfilavam e dançavam sempre com muito close dentro de diversas categorias. Nesse espaço, podiam ser quem quisessem e viver a fantasia do sucesso como grandes estrelas da música e da moda, algo que jamais iriam conseguir fora dos guetos da periferia.

Algumas das “Mothers” das “casas” retratadas no documentário. Foto: Reprodução

Os competidores faziam parte de “casas”, irmandades de gays e travestis ministrados por um representante chamado de “mother” (a mãe) que emprestava seu sobrenome aos seus “filhos”. Além de ajudar os filhos a se preparar para os bailes, as mães das casa (podendo ser um homem gay ou transsexual) realmente desempenhavam o papel de mãe, oferecendo moradia e acolhimento para os LGBTs.

Importância cultural

Um dos elementos mais conhecidos do documentários são os bordões do pajubá (dialeto próprio da comunidade LGBT) americano, como o shade, reading, shanté e muitos outros. No ‘Rupaul’s Drag Race’ há muitas referências diretas ao ‘Paris is Burning’, inclusive a própria competição é inspirada nas balls dos anos 80.

Outro grande elemento retratado no longa foi o surgimento do voguing, um estilo de dança inspirado nas poses das modelos da revista Vogue. Apesar de muitos acharem que Madonna quem inventou o estilo por causa da sua música “Vogue”, de 1990, ele, na verdade, surgiu nas boates gays de negros da periferia. Madonna, assim como outros artistas mainstream, apenas popularizaram o estilo.

O vogue era uma dança inspirada nas poses das modelos da Revista Vogue. Foto: Reprodução

De forma geral, ‘Paris is Burning’ é um documentário indispensável para todas as pessoas que querem se aprofundar na cultura LGBT e, por consequência, na cultura pop atual. Além disso, por mostrar de forma bastante sensível como era viver marginalizado naquela época, o filme é bastante inspirador para se continuar vivendo pois, apesar de suas condições, eles conseguiram uma forma de sobreviver e serem felizes, terem sonhos.

Na época, o filme foi um grande sucesso. Há rumores de que iria ser indicado ao Oscar naquele ano [1991], mas acabou não figurando entre os finalistas devido ao preconceito que antigamente existia dentro da premiação (bem contrário às últimas edições do evento).

‘Paris is Burning’ ganhou 13 prêmios no total – em anos diferentes -, sendo sete deles o prêmio de “Melhor Documentário”. Em 2016, o documentário foi selecionada pelo National Film Registry à Biblioteca do Congresso (biblioteca nacional dos Estados Unidos) como “cultural, histórica ou esteticamente significante”.

Segue abaixo o documentário completo, que também se encontra disponível na Netflix:

Ficha técnica

Filme: Paris is Burning

Ano: 1991

Direção: Jennie Livingston

Gênero: Documentário

Classificação: 18 anos

 

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