“Desde que me entendo por gente, sei que sou mulher”

  Por Alexandre Bessa

Ana Dulce Ribeiro, 28, é bailarina, professora de dança e mulher transexual em um dos países que mais mata pessoas transgênero. As mulheres trans são as principais vítimas de crimes bárbaros e sua expectativa de vida é de apenas 35 anos. A média nacional, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de 75,5 anos. O Jornalismo NIC conversou com a profissional para elucidar questões como carreira, preconceito e a visibilidade da mulher trans no Brasil.

Seu interesse pelo balé se iniciou ainda na infância. Dulce conta que assistia bailarinas em desenhos e sentia necessidade de dançar daquela forma. Uma de suas primeiras vontades foi ser bailarina do Domingão do Faustão, sonho que não colocou para frente, mas a estimulou a procurar profissionalização na dança. “A primeira oportunidade que tive surgiu em uma escola acadêmica de um projeto social, no qual fiz seleção e passei. Desde então, minha paixão pelo balé só cresceu. Já estou há 14 anos na dança”, relata.

A bailarina já dança há 14 anos. Foto: Arquivo pessoal.

Dulce tem também a docência como outra paixão. Ela é aluna na Escola de Ballet Janne Ruth e participa do Grupo Bailarinos de Cristo, Amor e Doações (BCAD) . Participar do grupo BCAD possibilita viajar por todo o Brasil participando de festivais, quando tem a oportunidade de ministrar workshops e desenvolver ainda mais a docência. Dulce Ribeiro assume que dar aula em diferentes estados do país é algo extremamente prazeroso.

Apesar da rotina corrida, a bailarina tem leva a vida de uma jovem comum. Procura sempre se divertir, realizando alguma atividade de lazer, mas, às vezes, é difícil porque trabalha muito e nem sempre é compreendida no que faz. “Quem me conhece sabe que minha rotina é muito dinâmica. Estou sempre dando aulas ou me apresentando. Mas, quando tenho um tempinho livre, tento sair com os amigos e fazer algo mais leve. É necessário também”, conta.

Preconceito

Entre 2017 e 2018, segundo a ONG Transgender Europe (TGEU), órgão responsável por monitorar a ocorrência dos homicídios em 72 países, 167 transexuais foram assassinadas no Brasil. De acordo com Dulce, o preconceito existe sim e vai além dos casos de violências que expõe a transfobia no País, mas não se pode desanimar diante de situações difíceis. “Desde que me entendo por gente, sei que sou mulher. Sempre percebi que havia algo de diferente em mim, que necessitava de atenção. Me sentia como uma alma em um corpo que não me pertencia, um corpo estranho”, expõe. Ela também explica que sentiu a necessidade de adaptar seu corpo ao feminino após perceber essa distinção dentro de si.

“Me sentia como uma alma em um corpo que não me pertencia, um corpo estranho. Então tive que  me adaptar a aquela alma, para que assim, pudesse me sentir bem” (Ana Dulce Ribeiro, bailarina)

O preconceito no mundo da artes é recorrente na opinião de Dulce, não apenas por ser uma mulher trans, mas também por conta da própria situação de artista. Conta que ao vencer uma determinada competição de ballet, as adversárias questionaram sua vitória, dizendo que ela não deveria estar ali. “Porém, as juízas foram rígidas, explicando que ganhei por conta da minha técnica e habilidades serem melhores e não havia mais nada a dizer”, orgulha-se.

A profissional da dança não é de aceitar discriminação e alerta que não se pode ficar inerte diante de situações ruins. “Sempre quando sou vítima de preconceito, questiono o real motivo daquilo. Com educação, claro. Pergunto o que está acontecendo. Porém, é difícil. Acho que, apesar de tudo, sei lidar de forma tranquila com isso”, revela com seriedade ao comentar o assunto.

Objetivos futuros

A bailarina aponta ainda a profissão de artista como muito desvalorizada no Ceará. Os locais que contratam profissionais de arte sempre procuram pagar apenas os menores valores possíveis e não dão o apoio necessário para a realização do trabalho. “Viver de arte é muito complicado, nós fazemos só porque amamos”, explica.

Dulce sonha em abrir sua própria escola de dança e sente este objetivo cada vez mais perto. Ela também quer viajar

Dulce afirma que o balé é “sua vida”. Foto: Arquivo pessoal.

mais e trazer um novo método de dança para o Ceará, o Método Cubano. Esse método consiste em uma metodologia mais inovadora, com aulas expansivas que trabalham muito com allegros, batteries e giros, que são movimentos existentes no balé clássico. Os bailarinos cubanos são conhecidos por sua agilidade e grande força.

“Conheci esse estilo enquanto viajava para Belém. Ele é uma variação dos vários métodos que existem dentro do Ballet Clássico. Aqui no Ceará os ritmos são muito misturados. Além de ser a primeira bailarina trans brasileira, também queria trazer mais um diferencial, que é este método”, confessa.

Por fim, ela explica que é importante nunca desistir, pois sempre vão existir dificuldades. “O importante é ser forte e manter o foco. Pra mim, o balé é minha vida, ele me tirou da depressão, me ajudou a viver. Até mesmo a me encontrar enquanto mulher trans. Se não fosse a arte, não sei onde estaria agora. Estou cada vez mais feliz por estar conseguindo meu espaço. É um amor incondicional, o que sinto pela arte”, finaliza.

“Estou cada vez mais feliz por estar conseguindo meu espaço” (Ana Dulce Ribeiro, bailarina)

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