“Absorvendo o tabu” e o trauma da menstruação

Por Lara Montezuma

O novo documentário original Netflix “Absorvendo o Tabu” inicia questionando algumas mulheres indianas sobre menstruação. As reações são similares, muitas se envergonham e outras não conseguem desenvolver respostas para as perguntas. Uma senhora afirma que a menstruação ocorre quando “algo ruim” está saindo de seu corpo. Suas réplicas são o reflexo de uma sociedade que trata a menstruação como algo impuro e sujo.

Segundo a BBC News, um estudo recente feito por uma marca de absorventes descobriu que apenas 75% das mulheres que vivem em cidades da Índia ainda compram os produtos envoltos em embalagens marrons ou jornais por causa da vergonha associada à menstruação. Além de não ser um assunto comentado entre as famílias e as escolas, a precariedade do país acerca da higiene íntima feminina prejudica por completo a vida das mulheres indianas.

O documentário vencedor da categoria de “Melhor Curta-Metragem” de 2019 mostra depoimentos de meninas que pararam os estudos por conta da menstruação. Por não terem absorventes disponíveis – devido à falta de produção e de dinheiro -, a troca de roupas era desconfortável e, muitas vezes, impossível de ser realizada. Isso fez com que muitas abandonassem os seus estudos precocemente. Dificuldades como essa inspiraram o nome original do filme, intitulado “Period. End of Sentence”. Period, em inglês, pode significar tanto menstruação, quanto ponto. A tradução livre do documentário é “Menstruação. Fim da frase”. Durante o seu discurso ao vencer o Oscar, a diretora enfatizou que “a menstruação deve finalizar uma frase, não a vida estudantil de uma mulher”.  

O ciclo menstrual e a autonomia feminina

Enquanto um país subdesenvolvido, a Índia não oferece mercado e educação de qualidade para tratar a menstruação de maneira adequada. A relação das mulheres com os seus corpos e sua autonomia é diretamente afetada. O primeiro contato de muitas dessas mulheres com absorventes industriais foi durante o processo de filmagem.

“A menstruação é o maior tabu do meu país”, afirma Muruganantham, o homem que criou a primeira máquina de absorventes biodegradáveis de uma pequena cidade do país. A marca foi conceituada como Fly – voar, em tradução livre -, para que, segundo uma das idealizadoras, as mulheres pudessem se sentir livres.

E, de fato, esta máquina fez a diferença na vida de muitas mulheres. Além das mudanças durante o período menstrual, que abrangem higiene e qualidade de vida, a marca ofereceu oportunidade de emprego para muitas. Ao trabalhar na produção de absorventes, a Fly possibilitou que elas adquirissem certa independência financeira e autonomia pessoal.

Até o lançamento de “Absorvendo o Tabu”, elas já haviam produzido mais 18 mil absorventes para distribuir em sua cidade. A divulgação foi feita de porta em porta, já que grande parte do comércio não aceitava vender esses produtos. O que foi arrecadado serviu para impulsionar o negócio e financiar os estudos de algumas de suas trabalhadoras.

A iniciativa foi possibilitada por meio da ação thepadproject.com, um financiamento oferecido por estudantes americanos e que funciona através de doações. O documentário foi dirigido por Rayka Zehtabchi e está disponível na plataforma de streaming Netflix. Confira o trailer abaixo!

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