Suzana Varjão: “Se nós não tivermos um olhar crítico, acabamos colocando automaticamente mecanismos de dominação”

Por Letícia de Medeiros

Jornalista, escritora e pesquisadora, Suzana Varjão também é mestre em Cultura e Sociedade pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Suzana recebeu 27 prêmios de reportagem e 28 distinções concedidas por organizações locais, nacionais e internacionais, como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O Jornalismo NIC conversou com a jornalista sobre sua trajetória na comunicação, quando participou da palestra “Mídia e Direitos Humanos para a Infância e Juventude: um olhar para a cultura de paz”, na última quarta-feira (13), na Universidade de Fortaleza (Unifor).

Jornalismo NIC: Em 2003, você deixou o jornal “À Tarde” para focar na relação entre mídia e violência. O que foi que despertou o seu interesse em aprofundar direitos humanos e mídia?

Suzana Varjão: A partir do assassinato de Maristella Bouzas, uma colunista de teatro que trabalhei junto, comecei a ver a interação entre policiais e comunicadores dessa área que trata de violência e criminalidade. Foi uma relação que me deixou assustada por ser altamente promíscua e desrespeitosa para com os direitos das pessoas. Comecei a investigar e, atualmente, tenho alguns projetos envolvendo direitos humanos. Posso resumir esse trabalho de reflexão, investigação, crítica, produção de conhecimento e relação do campo simbólico da comunicação com o campo físico, na palavra mídia.

JN: Atualmente você trabalha como consultora da Agência de Notícias do Direito da Infância (Andi). Como você conheceu o trabalho da Andi e como foi o seu processo de trabalho dentro da agência?

SV: Preocupados exatamente com essa relação entre o campo simbólico e o físico-social, a Unicef, a Andi e o jornal “A Tarde”, representado por mim na época, criaram o movimento “Estado de paz”, além de um núcleo de estudo sobre comunicação e violência na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). A Andi fez parte desse trabalho e acabei indo para Brasília depois desse estudo. Dentro da Andi, trabalhei coordenando os núcleos de pesquisa, monitoramento e qualificação de mídias, lá nós falamos sobre racismo, escrevendo publicações, monitorando pesquisas e realizando oficinas.

JN: Em uma entrevista na Tv Brasil, em 2015, você falou que os meios de comunicação trabalham contra a democracia brasileira. Pra você, o que é preciso para os meios de comunicação atuarem mais alinhados com a democracia?

SV: As pessoas tratam a mídia como se fosse apenas o jornalismo, por causa do senso comum. Nós trabalhamos com o campo da comunicação de massas e, dentro dele, existem jornalistas. Mas não só, existe também o entretenimento e a publicidade. Dentro desse campo, nós identificamos um modelo de comunicação que não vem fazendo bem à democracia brasileira, mas isso não tem a ver com o jornalismo. Na verdade, não é com o jornalismo que devemos nos preocupar, ele vem cumprindo bem o seu papel. O problema está nos programas policialescos na rádio e na TV, que tratam de violências e criminalidades, agindo em nome do jornalismo.

JN: No seu livro “Micropoderes Macroviolências”, você narra sobre a “guerra de lugares” e a “guerra de raças” da sociedade brasileira a partir de comparações de coberturas policiais no jornalismo. Como você acredita que acontece essa hierarquia de conteúdos dentro de cada jornal?

SV: O livro é sobre um estudo meu, feito com os três maiores jornais impressos em circulação da capital baiana, falando do jornalismo na área de violência e criminalidade. Sem perceber, os jornais podem praticar mecanismos de preconceito, de racismo em geral. Michel Foucault já dizia que a especificidade do racismo não está ligada à ideologias ou mentiras do poder, está ligada à técnica e tecnologia, a partir de escolhas ou silêncios. Se nós não tivermos um olhar crítico, acabamos colocando automaticamente mecanismos de dominação, perpetuando o racismo.

JN: Você fez parte da produção do “Guia de monitoramento de violações de direitos na mídia brasileira”, produzido pela Andi, que coloca a revolução tecnológica como um contexto para a alteração da mídia. Como surgiu o interesse em falar sobre o monitoramento na mídia?

SV: Neste guia, nós fomos chamados pelo Ministério Público e a sociedade civil para investigar o fenômeno de mídia sobre os programas policialescos, porque ele briga com o jornalismo para ser protegido pelas regras, mas age contra essas normas. Uma pesquisa feita no terceiro volume do guia, mostrou mais de 4.500 violações graves de direitos em apenas um mês. Coordenei esse processo e escrevi sobre, ele foi dividido em três volumes, o primeiro fala sobre esse monitoramento dos meios de comunicação de massa, não somente do jornalismo. O segundo entrava no debate sobre regulação de mídia e o levantamento de pesquisa apontou que nós já somos regulados. No terceiro volume realizamos uma pesquisa com 28 programas de rádio e tv policialescos, o modelo de comunicação problematizado.

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