Suzana Varjão fala sobre jornalismo e violência contra jovens: “Usem o verbo de vocês para fortalecer”

Por Letícia de Medeiros

O curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor) realizou, na manhã desta quarta-feira (13), o seminário “Mídia e Direitos Humanos para a Infância e Juventude: um olhar para a cultura de paz” em parceria com o instituto Terres des hommes Brasil. O seminário teve como convidadas a jornalista e consultora da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), Suzana Varjão, e a editora do Sistema Verdes Mares, Eulália Camurça. O evento foi mediado pelo professor do curso de Jornalismo, Alejandro Sepúlveda.

Além das palestrantes, a Unifor recebeu o presidente da Terres de hommes Brasil, Renato Pedrosa, que lançou o ‘Manual de Comunicação de Direitos Humanos’, um projeto contra a violência com o objetivo de envolver os jovens na cultura de paz.

Mídia como sistema

Jornalista Suzana Varjão durante a palestra. Foto: reprodução.

Dando início à palestra, Suzana explicou que o termo mídia não abarca somente o jornalismo, mas também a publicidade e o entretenimento. “As pessoas costumam ligar a mídia e a imprensa apenas ao jornalismo, mas ela também traz editores e afins”, afirma. Para a jornalista, todos esses comunicadores carregam um sistema de valores com teias multidimensionais de saberes, fazeres e poderes que compõem engrenagens invisíveis ao público.

Exemplificando sua teoria, Suzana mostrou uma parte da pesquisa que fez durante seis meses com exemplares dos três jornais impressos de maior circulação na Bahia. Em um certo dia, todos traziam como a manchete principal a notícia de um assalto em um bairro nobre da capital do Estado. Já a notícia posicionada como menos relevante tratava da morte de nove afrodescendentes na periferia.

Violência no Jornalismo

Ao analisar programas policialescos, a consultora mostrou o ‘Guia de Monitoramento de Violações de Direitos na Mídia Brasileira’, feito por ela, juntamente com a Andi. O material foi realizado para mostrar como os programas policiais não podem ser uma representação para o jornalismo, pois quebram código de ética da profissão expõem as vítimas de maneira indevida. Além disso, eles quebram o direito ao silêncio da fonte. “Nós somos autorizados a problematizar essas violações”, contesta.

Em outro exemplo, ela mostra o programa “Cidade Alerta”, do canal Record, como um dos programas policialescos que violam o código de ética do jornalismo. O “Cidade Alerta” tem alcance de, em média, 2,3 milhões de pessoas. Para ela, o “nosso cérebro é forjado para multiplicar os impactos”.

Lugar da redação nos direitos humanos

Em sua fala, Eulália Camurça trouxe coletâneas de reportagens como exemplos de qual é o local da redação em assuntos controversos e difíceis de tratar. O primeiro exemplo foi de uma série que aborda a violência sexual, nomeada “Pacto de Silêncio”. O intuito é mostrar o processo das vítimas após o caso de abuso sexual e o motivo de muitas preferirem o silêncio ao invés da denúncia. Ela também deu destaque aos casos com menores. “Às vezes somos impedidos, mas quando podemos investigar sobre, não exponham a vulnerabilidade da criança”, aconselha.

Para falar sobre as outras coletâneas, que falavam sobre jovens em conflito com a lei e adoção, a editora ofereceu algumas dicas. Ela acentuou a importância de uma escrita que humanize o pensamento do jornalista. “Usem o verbo de vocês para fortalecer”, evidencia.

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